Andressa Urach:"É preciso de pessoas comprometidas com a população"
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Andressa Urach:"É preciso de pessoas comprometidas com a população"

Agora ativista dos Direitos Humanos, Urach assumiu cargo em comissão na Assembleia Legislativa do RS

Por
Mauren Xavier

Andressa Urach em entrevista para o Correio do Povo

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Andressa Urach começou a trabalhar no acolhimento de pessoas que buscam a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. Com uma trajetória pessoal pública, ela avalia os novos desafios, a importância do trabalho voluntário e o interesse pela política

A senhora foi nomeada e começou a trabalhar na Assembleia Legislativa, como assessora da Comissão de Direitos Humanos, indicada pelo deputado Sérgio Peres. O que espera dessa atividade?

Comecei há uma semana. Essa parte burocrática é muito nova. Mas na questão dos direitos humanos tenho conhecimento porque faço trabalhos voluntários e ações sociais. Venho há bastante tempo atuando em projetos e trabalhos, com os Anjos da Madrugada, que atende moradores de rua, e nos presídios femininos, onde faço palestras e percorro o país inteiro. 

Como é o trabalho nos presídios?

No caso dos homens, a mulher e a mãe não abandonam. Já a mulher é abandonada e acaba sofrendo mais preconceitos. As mulheres já sofrem discriminação em várias áreas, a questão de salários, as roupas, no dia a dia. E no presídio é tudo mais difícil. Fora dali, elas têm família e filhos, que também não acreditam mais nela. Fazer essas palestras é uma maneira de mostrar que não importa aquilo que o mundo vai falar. Levo meu livro e muitas se identificam com minha história. Claro que não justifica, mas entrar no crime é também por falta de estrutura familiar, oportunidades e orientação. Lógico, que não concordo com o crime. Acho que tem que pagar sim, mas todo mundo tem o direito a uma segunda chance. 

 

Com esse trabalho na Assembleia Legislativa, almeja ingressar na política?

Na comissão, vou receber a população, entendendo as necessidades, vou conseguir passar um relatório e poder criar projetos. Sobre os planos, eu troquei agora o curso de enfermagem por gestão pública. A política é importante e as pessoas não entendem isso. Se você não entender de política isso vai refletir na educação do teu filho. Precisa de pessoas sérias para fiscalizar e mostrar para onde está indo o dinheiro. É preciso de pessoas comprometidas com a população. Eu vi que se estou viva e tive essa nova oportunidade, quero fazer a diferença no mundo. Quero ajudar as pessoas. Os trabalhos voluntários são limitados. A gente precisa de política séria e de pessoas com comprometimento.

A sua vida sofreu uma grande reviravolta em 2014. Tinhas sucesso e fama e ficou entre a vida e morte. Depois, escreveu o livro “Morri para viver”. Como foi essa transformação?

Foi um divisor de águas, aconteceu quando fui internada no Hospital Conceição. Antes disso, todo mundo sabe do meu passado. Foram seis anos de escândalos praticamente. Como relato no livro, buscava a fama. Achava que seria feliz se fosse famosa. Queria ser amada, ser admirada. Queria elogios. Eu faço parte de um projeto social que se chama RAABE. Dentro desse projeto, a gente cuida de mulheres que sofreram abusos sexuais, psicológicos, que sofreram violência psicológica e física. Temos uma equipe multidisciplinar. Muitas pessoas refletem a sua infância. Os traumas do passado. As escolhas erradas. O ser humano é livre para fazer as escolhas. Não justifica você ter um passado ruim e tomar decisões que te levam para o caminho errado. A gente sabe que os traumas da infância refletem-se, na maioria das pessoas, na personalidade.

Quais fatos impactaram na senhora? 

Sofri abuso na infância. Sou do Interior, minha mãe me teve muito nova e meu pai me rejeitou. Cresci com essa rejeição. Hoje somos amigos. Quem passa pelo abuso sexual sabe as marcas que ficam. Mesmo que o abuso não vá ao fim. Sofri muito na minha infância. Tinha medo de falar. Minha mãe tinha que trabalhar o dia inteiro e eu não tinha quem me educasse. Então o mundo me criou. Não tive infância. Não tinha quem me orientasse. Com 15 anos eu casei como uma fuga para sair de casa, por causa das agressões. Aos 21, me vi mãe solteira e com um filho para criar e contas para pagar. Daí vieram as opções erradas. Então, esses traumas refletiram na minha personalidade e gerou um ser humano com muita raiva e sem princípios. Fui vergonha para a família, para as mulheres. Queria fama a todo custo. Em 2014, fui internada. Aos 27 anos, eu era apresentadora, estava no auge da carreira e tinha tudo o que queria. Mas estava morrendo por dentro, estava depressiva, viciada em drogas e com namorado criminoso. Eu sempre digo que as escolhas erradas são como uma areia movediça, que quando você vê está no fundo do poço e não consegue mais sair. 

Mesmo assim, é lembrada pelo teu passado no meio artístico. 

Estou há quatro anos fazendo trabalhos sociais e isso não é divulgado. O passado é sempre lembrado. Há quatro anos mudei as minhas escolhas, conheci essa fé que mudou a minha vida. Tenho paz interior. E estou curada dos vícios. Sou mãe. Eu pedi perdão para ele, porque meu passado também reflete nele.