Anne Poiret: "Vi os muros serem reerguidos entre os países europeus e foi assustador"
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Anne Poiret: "Vi os muros serem reerguidos entre os países europeus e foi assustador"

Documentarista acompanhou o movimento de migração forçada em diversos campos de refugiados pelo mundo

Por
Eric Raupp

Documentarista francesa apresentou em Porto Alegre documentário sobre campos de refugiados

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Ela é chamada na tribo dos jornalistas de "a repórter do período pós-guerra". Quando se estuda a carreira de Anne Poiret, percebe-se que seus passos, suas investigações e seu olhar foram definidos e exercitados sobre assuntos e territórios desmantelados por conflitos. Diferentemente de grande parte dos colegas de profissão, a francesa vai a locais que comumente são esquecidos após terem sido utilizados como abatedouros e onde tantos direitos humanos foram ignorados. O que lhe interessa é principalmente os impactos da loucura dos homens que às vezes se separam por décadas e as soluções que devem ser encontradas para construir uma sociedade melhor.

Vencedora do Prix Albert Londres, o principal prêmio do jornalismo de seu país, em 2007 por "Muttur: um crime contra o humanitário", Anne participou de uma sessão comentada em Porto Alegre do filme “Bienvenue au Réfugistan", durante a abertura do ciclo "Débats d'Idées", provido pela Aliança Francesa, neste ano. O longa, que revela o modo como a agência de refugiados das Nações Unidas administra campos que abrigam milhões de refugiados em todo mundo, foi rodado em diversos campos pelo mundo, como no Quênia, Tanzânia, Jordânia, fronteira da Grécia com a Macedônia e em escritórios da agência na França, Inglaterra e Suíça. Em conversa com o Correio do Povo, Anne relatou bastidores da produção do filme e analisou como a crise migratória impactou, e continua influenciando, a política europeia.

Correio do Povo: Você trabalha bastante com questões de Direito Humanos e conflitos. Que elementos do seu histórico influenciaram esse interesse?
Anne Poiret: 
Eu sempre quis ser jornalista, era um sonho de infância. Era a profissão que eu queria, então estudei jornalismo e também ciência política. Comecei a trabalhar na França como freelancer para um programa e, após algum tempo, me dei conta de que todas as histórias que eu tinha interesse eram sobre situações pós-conflito. Eu não queria ir para zonas de guerra e cobrir o combate. Meu interesse era entender o que acontecia depois disso, analisar o impacto que exercia na sociedade. Acho que o grande exemplo dessa minha preocupação é “State Builders”, um documentário rodado no Sudão do Sul em 2011, o primeiro ano do país, em que acompanhei equipes de desminagem e de reconstrução após todo o confronto armado.

CP: Como surgiu o conceito, a ideia de “Bienvenue au Réfugistan”?
Anne:
 Por causa das histórias que tinha feito para o Canal Arte e por saber que eu já tinha ido para diferentes campos de refugiados e tinha interesse no tema, o encarregado da emissora me pediu para começar a pensar em um documentário sobre campos. Era início de 2015 e alguns filmes sobre esses locais já estavam sendo feitos, mas eram específicos, falando sobre um determinado espaço. Eu queria algo que pudesse globalizar a questão e trazer à tona o que eles têm em comum. O que eles têm em comum é a Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), então eu vi que seria interessante compreender o trabalho da instituição e todo esse sistema. Nós escutamos falar desses lugares num estágio inicial, quando a guerra começa, e as pessoas fogem. Então, os campos de refugiados são criados como uma espécie de santuário de proteção. Depois disso, você geralmente não escuta mais.

Quando iniciei o processo de pesquisa, comecei a ler a literatura – que é bastante extensa, com muitas pesquisas principalmente na área de história, antropologia e arquitetura social – e me dei conta que eu já tinha visto tudo aquilo, eu tinha conhecimento, mas eu não estava preparada para ver aquilo. Pensei que seria muito interessante voltar com essa outra perspectiva. A ideia era mostrar o sistema, então é por isso que não há muitas vozes de refugiados no filme. Queríamos tê-las em situações específicas, como em um campo na Somália, onde um senhor nos falar que preferia morrer do que ficar lá, preferia correr o risco de ser morto do que não fazer nada. Foi como uma escolha e optei por mostrar como estamos tomando conta desses outros seres humanos e o quão louca é a maneira como estamos fazendo isso.

No filme, não vamos à França ou à Alemanha, as grandes potências do continente. Eu quis mostrar para esses dois países que sim, havia muita gente chegando, mas a maioria dos refugiados não estava na Europa, não estava indo para lá. Estavam no Quênia, na Etiópia, em Bangladesh, no Paquistão. Todos esses países são muito pobres e estavam oferecendo condições às vezes melhores para a abundância de refugiados. Você pode ter a sensação de que seu país tem muitos refugiados, mas realisticamente não tem. É interessante mostrar isso. O mesmo pode ocorrer com o Brasil, porque na verdade a maior parte de venezuelanos que foge está na Colômbia. São quase 1,5 milhões. E é um país como uma economia muito mais fraca do que a brasileira.

CP: A palavra Réfugistan traz uma referência à terminação do nome de muitos países. É correto dizer que os campos funcionam como um Estado?
Anne: De maneira geral, sim. Obviamente não são, mas funcionam como um Estado-nação. Globalmente, eles têm a estrutura de um país europeu médio, como a Holanda, e abrigam uma grande parcela da população mundial. E não é uma opinião somente minha, há muitas pesquisas trabalhando sobre essa ideia, porque quando você está em uma campo, você não está mais no seu país, nem no “anfitrião”. Você está num lugar específico muito estranho, que em condições de normalidade não existe. Há, então, os cartões de racionamento, que funcionam como uma espécie de moeda. Esse lugares duram por gerações, pessoas nascem neles e criam uma certa identificação. Em Dadaab, encontramos jovens que tiveram seus filhos lá ou então que chegaram com três mês, que nunca tinham pisado no Quênia ou na Somália, então é a casa delas. Você tem uma cultura de comportamento e regras de conduta que são criadas ao longo dos anos. É a estrutura-base de um Estado-naçã. Nesse sentido, acho importante ressaltar nos Jogos Olímpicos do Rio tivemos uma equipe de refugiados trabalhando como se fossem um país.

CP: A França é o berço do iluminismo e tem ideais muitos antigos de igualdade. A sua nacionalidade e toda previedade dela influenciaram de alguma maneira?
Anne: 
Pergunta muito interessante, porque advogar pelos Direitos Humanos é uma política forte da França e o meu país tem um papel específico nas Nações Unidas, fazendo parte do Conselho de Segurança. Contudo, não temos a mesma magnitude e influência no ACNUR. No momento em que comecei a trabalhar no documentário era início de 2015 e no verão, houve um grande fluxo de pessoas entrando no continente pela Turquia. Foi algo muito difícil para a comunidade europeia ver aquelas pessoas sofrendo. No mesmo ano, em novembro, ocorreram os massacres em Paris e as últimas cenas foram gravadas logo após isso, em Idomeni (fronteira da Grécia com a Macedônia do Norte). Foi um período em que a Europa começou a fechar suas fronteiras por todas as partes, então as pessoas não podiam andar livremente como tinha acontecido antes. Para mim, não somente como francesa e europeia, foi traumatizante, porque tenho esse orgulho de ser parte de algo que é aberto e muito maior do que um país. Durante as filmagens, vi na minha frente os muros serem reerguidos entre os países europeus e isso foi assustador, tocante. Para toda a opinião pública, foi muito difícil ver aquilo, porque houve muita hospitalidade e generosidade durante a crise. Mas, ao mesmo tempo, surgiu muito medo e uso disso para razões políticas.

CP: Durante a eleição francesa de 2017, a questão migratória foi um tópico de grande relevância e influiu discursos nacionalistas...
Anne: Foi à época em que esse movimento populista voltou a crescer. Está tudo interligado. Os grupos de esquerda sabem muito bem disso, mas eles não podem admitir. Quanto mais estão abertos a refugiados, mais votos dão para os seus inimigos. Eu estive em uma palestra com um grupo de advocacia de orientação trabalhista, em Londres, no qual apresentei o documentário. No debate, estava um antigo Ministro da Imigração do Reino Unido, do Partido Trabalhista, e, ao final da conversa, todos ficaram se questionando o que deveria ser feito para mudar a situação. Uma mulher disse ao político que ele sabia o que fazer, que a resposta era abrir as fronteiras, especialmente com a questão de Calais, que foi algo terrível na França. O ministro respondeu que não poderiam falar aquilo porque se o dissessem, dariam mais votos e força aos populistas. Apesar de saberem que era a melhor coisa a fazer, tinham medo de fortalecer os populistas. O Brexit é uma consequência disso também, então, é muito interligado. É ainda uma questão muito definidora na Europa, que estará presente nas eleições europeias.

CP: Você mencionou as eleições parlamentares europeias de 2019. Recentemente, a Comissão Europeia disse que o bloco não está mais em crise no que diz respeito à migração. Como essa questão vai impactar o pleito deste mês?
Anne: 
Essa nova onda de populismo surgida em 2015 não é uma coincidência com a crise migratória, mas uma consequência. Terá ainda um impacto profundo, obviamente não tão grande, mas é ainda um tema desafiador e muito importante. As pessoas continuam chegando, principalmente da África, onde muitas crises continuam em curso e também problemas climáticos. Apesar do número ser menor, ainda há um problema. Por exemplo, o ACNUR fica repetidamente dizendo que o Campo de Moria (na ilha grega de Lesbos, próxima à fronteira com a Turquia), arquitetado para cerca de mil pessoas e com cerca de sete mil, é uma bomba-relógio e pede que algo seja feito pelas autoridades. A situação lá é bastante perigosa, porque as pessoas estão ficando cada vez mais irritadas com a situação em que estão. E nada é feito, porque a solidariedade sonhada com a União Europeia não está acontecendo de modo algum.

A Grécia e a Itália são os principais pontos por onde as pessoas chegam, mas muitos países do leste europeu são incrivelmente contra, fazem de tudo para não receber. Hungria, Albânia e República Tcheca são muito árduos com essa questão. E é muito interessante, porque, ao mesmo tempo, o vice Primeiro-Ministro da Itália e Ministro do Interior italiano, Salvini, não quer refugiados mas pede que esses outros países assumam a responsabilidade. No ano passado, na Espanha, eles estavam se gabando que não tinha um movimento forte de extrema-direita, e o primeiro-ministro social-democrata, Pedro Sánchez, acolheu em Valência refugiados de um navio que Itália e Malta recusaram. Duas semanas depois, o Vox estava com uma força. Foi uma reação imediata, é surpreendente.

CP: A legislação internacional diz que refugiados, por estarem fugindo da violência e da perseguição, têm o direito de um lugar seguro e a uma série de direitos, Isso de fato se aplica nos campos que você visitou?
Anne: Eles são parcialmente seguros em seu interior, porque há muitas tensões entre comunidades. Há uma linguagem específica, como a preocupação muito grande com o que eles chamam de Sexual and gender-based violence (SGBV). É majoritariamente o estupro e o abuso de mulheres e meninas. Isso ocorre principalmente quando elas vão buscar água e muitas coisas ruins acontecem. É muito preocupante porque existe um acrônimo específico. Também é violento porque as pessoas muitas vezes estão vindo de lugares que são, onde há atuação de grupos armadas, então carregam esses traumas e essa violência psicológica. Em alguns, locais, combatentes às vezes se infiltram entre os refugiados. Então, os campos podem ser um paraíso para essas pessoas impulsionarem sua entrada para um determinado local. Por exemplo, o governo queniano acusou o campo de Dadaab de ser um centro de procriação do Al-Shabaab e a cada vez que ocorre um atentado, um ataque a bomba no país, as autoridades dizem que o responsável veio de lá, que é preciso fechar o campo. Então, pode ser um lugar violento, nem sempre é o caso, mas Dadaab é a pior situação.

CP: Novamente, esse discurso de que refugiados são terroristas é muito presente nos discursos populistas europeus e cria um paradigma entre “compaixão e humanismo versus segurança”. Algum esforço foi feito para separar essas duas questões?
Anne: 
Depende do país. Na França não o suficiente, porque o trauma foi tão grande após os ataques em Paris e algumas pessoas abusaram desse fato para inflar mentiras. Os terroristas não eram refugiados, apenas usaram essa questão para ingressar no continente porque o acesso estava aberto. Mas esse é um caso muito específico, porque no meu país a situação é um pouco diferente. A culpabilidade de terrorismo não recaiu muito sobre refugiados, os culpados são cidadãos nascidos lá. O homem que abandonou o país, se juntou ao Estado Islâmico e orquestrou o ataque era francês. Em alguns casos, essas pessoas vêm de uma linhagem de antigos refugiados, mas a verdadeira questão que devemos nos perguntar é como lidar com essa parte da nossa nação.

CP: Qual foi a coisa que mais chocou nesses campos que você visitou?
Anne: O mais absurdo é que sabemos que essas pessoas vão ficar lá para sempre. É o mais angustiante, porque o campo deixa de ser  um lugar seguro, um alívio. Não é de todo chocante, mas te deixa desconfortável. Outra coisa que me impactou, pessoalmente por ser europeia, foi ver o muro sendo erguido em Idomeni e as pessoas chegando à noite, caminhando com suas famílias, seus filhos, para se esconderem das patrulhas militares. Ver essa rejeição a outros seres humanos.

CP: Falando sobre crianças, muitas organizações denunciaram as condições precárias de desenvolvimento social e estudo em campos. Como é a vida delas nesses locais?
Anne: 
O interessante é que o sistema de educação e saúde podem até ser considerados bons, o que cria muitos problemas. Dadaab, por exemplo, é no meio do deserto, mas mesmo assim próximo a um vilarejo. E o nível de educação e saúde do campo são muito melhores do que aquele que o governo queniano pode oferecer na região Isso cria muita tensão entre os grupos, porque há muita inveja entre a população e os refugiados. Eles não conseguem entender como estes têm condições superiores àquelas deles.A longo prazo, é ótimo que as crianças vão para a escola, mas quando as pessoas saem e tentam trabalhar, são capturadas e colocadas para dentro de volta. Além disso, a maioria dos refugiados não estão em campos. Então, para as famílias, é muito difícil, porque, quando estão fora do campo, as crianças não têm como ir para a escola. Dessa forma, seria melhor ir para um campo se você pensar que não vai ficar nele para sempre. Se durar para sempre, como em Dadaab, você cria pessoas num sistema relativamente bom, mas sem nenhuma perspectiva, porque não terá como trabalhar, sair. Sua vida ficará lá e isso é frustrante, porque tem pessoas inteligentes trancadas lá. Você eleva a expectativa das pessoas e depois não há nada, a ambição não pode ser alimentada. Algumas pessoas conseguem sair, há histórias legais, mas o sistema é imperfeito. Ouvi relatos de pessoas no Iraque que preferiam ficar nos campos justamente pela educação de seus filhos, porque tinham a esperança de voltar para a Síria e ter uma vida normal.

CP: Alguns arquitetos sociais argumentam que os campos podem se tornar “uma forma de urbanização onde os migrantes podem viver, integrar e trabalhar”. Você acredita que isso pode acontecer permanentemente?
Anne: 
O próprio ACNUR é contra essas estruturas. O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres já deu entrevistas dizendo que odeia campos. Então, há uma doutrina oficial da ONU de que se deve procurar alternativas melhores e que se deve inserir os refugiados nas comunidades. Por exemplo, os alocar em pequenos lugares que não são mais usados, fazer uso de espaços desocupados e colocá-los em contato com a população, para que haja interação. Assim, não será ele contra nós, porque serão um de nós estando no nosso meio. Isso não ocorre nos campos, porque as pessoas estão atrás dos muros, você não interfere diretamente na vida deles. Os campos não foram criados com um intuito ruim, porque não deveriam durar. Então, o que entendi com minhas pesquisas é de os campos não de todo um lugar péssimo, o problema é quando ele é fechado. Poderiam ser locais melhores se fossem abertos e houvesse uma integração com a comunidade local, se não funcionassem como uma espécie de cárcere.  A pior coisa é separá-los da comunidade.

CP: A atuação do ACNUR e de organizações não-governamentais é muito grande nos campos. Existe algum forma dos governos ajudarem na manutenção desses locais?
Anne: Em muitos países, os refugiados não são reconhecidos como pessoas, como cidadãos. Não têm o direito de trabalhar, viajar livremente. Eu acredito que o que os governos deveriam fazer é não criar campos, mas se assim o fizerem, que seja um modelo aberto, onde as pessoas possam entrar e sair livremente, para que elas possam ter chances de interagir, encontrar e ter relações interpessoais. A maioria das nações quando cria um campo é porque quer os moradores voltem para seus países de origem. É o que ocorre no Quênia, que sistematicamente pede à ONU pelo fechamento de Dadaab, que envie as pessoas de volta para suas casas. Também há a questão política, na Jordânia não querem palestinos porque vai significar que Israel venceu ao “expulsá-los”. Dessa maneira, ao manter as pessoas encarceradas, elas não conseguem se adaptar e é mais fácil se livrar deles depois. É muito difícil fazer os países aceitarem que as pessoas vão ficar, porque os conflitos continuam e não têm uma perspectiva de acabarem tão cedo. Além disso, há uma responsabilidade muito grande que alguns políticos não querem tomar.

CP: Como foi o processo para obter autorização para gravar nesses locais?
Anne: Naqueles campos que informais, como Idomeni, que foram criados pelo impedimento do fluxo, é simples de entrar, pelo menos no começo, por que não há uma área oficial. Mas é sempre difícil gravar nos campos oficiais da ONU, porque ao mesmo tempo em que as pessoas não conseguem sair, a entrada de quem não é de organizações internacionais ou refugiados também é complicada. Isso varia de país para país. Em Dadaab foi, particularmente, um pesadelo. Foram quase cinco dias de negociações, foi preciso trabalhar com um bom fixer, um segurança policial que pedia muito dinheiro. Também havia a restrição de poder trabalhar apenas das 9h às 13h, porque é supostamente um local perigoso. De fato, já houve levantes onde algumas pessoas foram mortas. Na Jordânia, por ser uma monarquia, também não foi fácil, tivemos que negociar muito para ter a autorização e também havia um controle muito grande. Ficamos o tempo todo acompanhados por um homem que claramente tinha ido pautar as pessoas antes da nossa visita, então todas elas falavam antes da entrevista “primeiro, eu quero agradecer e honrar o rei da Jordânia por estar aqui”. Eu ficava tipo “ok, obrigada, mas podemos começar agora?”. É bastante diferente de um local para o outro.

CP: O resultado do filme supreendeu de alguma forma?
Anne:
É muito caro ir para um lugar como esses com uma equipe, então você precisa de um roteiro, saber o que você vai filmar. O que foi mais desafiador é que, no papel, o filme poderia ter sido muito intelectual e entediante, porque não tinha uma personagem humano para guiar a história. Quando você tem um protagonista, você pode segui-lo e ir desvelando aos poucos suas nuances. Meu filme foi mais como uma demonstração. O risco era ser chato, mas um documentário é um trabalho de equipe. Nossa editora, Françoise Bernard, é uma mulher muito talentosa, o nosso diretor de fotografia, Thibault Delavigne, é um cara ótimo e muito jovem. Eles ajudaram a dar poder às imagens. Uma cena atrás da outra começou a ser emocional e forte.

CP: Qual é o papel do jornalismo e da narrativa em tudo isso?
Anne: Para mim, o papel do jornalista nesses assuntos é tentar mostrar o quão complexo eles são e não nutrir a ideia de que há respostas simples como “abram as fronteiras”, “não criem campos”. Isso simplesmente não é verdade. Não há simplicidade na maneira como o mundo opera, porque, por exemplo, a comunidade internacional ou a União Europeia têm interesses e agem de acordo com interesses de distintos países. Nossa responsabilidade é tentar entrar no sistema e desmembrá-lo para o público. Depois de “Bienvenue au Refugistán”, muitas pessoas ficaram bravas e vieram me xingar por eu não entregar no final uma fórmula do que fazer. Esse não é o papel da comunicação.

CP: Poderemos ver um futuro sem fronteiras?
Anne: Interessantemente em 2009, eu fiz um road movie chamado “Sur la route rideau de fer” (Na Rota da cortina de Ferro, em tradução literal), em que percorri os antigo lugares cortados pela cortina de ferro. Era para celebrar os 20 anos da queda do muro de Berlim. Hoje, me dou conta de que eu tinha uma visão muito positiva, porque eu mostrava como era bonita a integração, que a divisão era uma coisa do passado. Apenas seis anos depois, está tudo acontecendo de novo. Em Idomeni, eu fiquei por três dias, e você podia ver os fios sendo colocados em nossa frente. Foi muito chocante. Então, é realmente muito difícil. Eu não sei se isso será possível.