Cientista na divulgação

Cientista na divulgação

Jessica Hübler

Professora da UFCSPA em Biossegurança e influenciadora digital, Melissa Medeiros Markoski.

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A professora de Biossegurança da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) Melissa Medeiros Markoski é uma das cientistas mais citadas por pesquisadores e instituições na rede social Twitter desde o início da pandemia de Covid-19, segundo o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD). Melissa compartilha artigos científicos e notícias com base em evidências científicas relacionadas ao novo coronavírus.

Como tem sido estudar e falar sobre a pandemia da Covid-19?

É diário, faz parte do meu trabalho porque sou professora de Biossegurança, preciso me atualizar e é bastante trabalhoso no sentido de que, como professora, tenho outras atividades na universidade. Tenho que lecionar, mais as atividades de extensão e dos grupos de pesquisa. Então acabo levando bastante tempo, principalmente porque vivemos essa situação de “infodemia”. Não basta sair um artigo sobre determinado assunto, como, por exemplo, o uso da máscara para atividades físicas. Tenho que verificar se é um artigo científico criterioso, se tem bom fator de impacto, se foi avaliado por pares, se é representativo realmente de ideias que são importantes para a pandemia. No trabalho de fazer divulgação científica com um assunto tão delicado é que a gente precisa sempre analisar muito criticamente. Não existe simplesmente olhar “todo mundo está falando tal coisa”, não existe isso para o cientista que está fazendo a divulgação, é preciso olhar o quanto aquilo é real e o quanto vai impactar na vida das pessoas, não podemos ser inconsequentes com nossos atos. Precisamos fornecer informações que ajudem pelo menos as pessoas a se sentirem mais seguras, porque se um cientista também estiver gerando divulgação de notícias que não são verdadeiras, acaba gerando mais problema. Todos precisam de conteúdos que ajudem na tomada de decisão, mas de maneira correta. Há uma parte muito responsável desse trabalho e que realmente exige bastante tempo. Precisamos pensar o que vamos colocar em uma publicação, mesmo em redes sociais, com muita propriedade e muito respaldo científico sobre o tema.

Quando começou a falar sobre o assunto nas redes sociais? E o que isso representa?

Desde quando começou a pandemia e comecei a ouvir notícias sobre, em fevereiro de 2020. Comecei a me informar com relação aos artigos, a procurar e ver o que estava acontecendo no mundo inteiro, começando pelas notícias da China e depois da Itália. Por quê? Porque íamos começar o semestre em março e eu precisaria dar um panorama sobre o que estava acontecendo dentro das minhas disciplinas de Biossegurança, que são oferecidas para diversos cursos. Tenho a responsabilidade de informar os alunos da melhor forma possível. Então comecei a buscar textos que trouxessem um panorama adequado sobre o que estava acontecendo no mundo. Eu já fazia o exercício de publicar artigos nas redes sociais há anos, pelo menos desde 2010, principalmente no Facebook, de maneira mais ativa. Sempre utilizei minhas mídias para fazer postagens sobre artigos que achava interessantes e importantes. Eu tinha conta no Twitter desde 2009, mas utilizava muito pouco por serem mais pessoas desconhecidas. Quando comecei a estudar os artigos sobre a Covid-19 e fazer postagens, inicialmente no Facebook e levando alguma coisa para o Twitter, vi uma rede começando a se formar, de pessoas que também estavam trabalhando com isso, no sentido de tentar levar informações importantes, principalmente vendo que o panorama se complicou muito. Na Biossegurança, a gente se preocupa muito com relação à percepção de riscos e os alertas para a população, então comecei a fazer mais postagens. Aí fui convidada pela Mellanie Fontes Dutra, que é uma pós-doutora em neurociências e é uma das coordenadoras da Rede Análise Covid-19, para colaborar com a iniciativa. Ela sabia que eu atuava tanto na Biossegurança quanto na Imunologia, minha área de pós-doutorado, era uma bagagem muito boa. Achei interessante e comecei a colaborar com a Rede. Eu faço um compilado de artigos científicos de revistas importantes e trago isso para uma linguagem mais próxima da população. A coisa começou assim e durante todo o ano de 2020, em todas as minhas horas livres, eu me dediquei à informar a população através desses textos e nas postagens.

Qual a importância de disseminar informação de qualidade, principalmente com relação à pandemia, nas redes sociais?

A gente vive uma situação muito delicada em termos de pandemia. Temos de um lado o ceticismo dos cientistas e de outro lado toda a questão às vezes cognitiva das pessoas, as crenças, a ideologia. “Eu apoio aquela ideia porque aquela pessoa fala basicamente o que eu quero ouvir” e a ciência é mais fria, é mais direta com relação aos dados. E isso acabou estimulando e, ao mesmo tempo, me fazendo buscar as informações para não cair na onda de colocar qualquer coisa que estava todo mundo falando. Qualquer informação que é divulgada, sobre vacinação ou os tipos de máscara, precisa se embasar muito, ler muito, estudar muito para que essa informação chegue de uma forma correta às pessoas. Não adianta falar e fazer postagens se for para deixar as pessoas mais confusas.

Quais os principais desafios da comunicação durante a pandemia entre pesquisadores/cientistas e a população em geral?

Hoje vivemos em um mundo muito polarizado. Existem movimentos, por exemplo, na França, que são antivacina, movimentos contra o uso da máscara, então não são só movimentos no Brasil. É importante levar informação daquilo que é importante em termos de prevenção. Falo prevenção porque é o cerne do que estamos vivendo nesse momento, que poderia ter sido utilizada para que tivéssemos situações diferentes das que estamos vivenciando se as pessoas tivessem escutado mais a ciência, entendido a importância do uso das medidas preventivas. Mas, ao mesmo tempo, não podemos culpar as pessoas porque falta realmente representatividade de outros setores da sociedade que estimulem as pessoas a confiarem na ciência. Não temos isso, tudo é questionado. Claro, devemos questionar e entender os processos, mas ao mesmo tempo há situações em que precisamos ter certa confiança no profissional que trabalha naquela área. Acho que falta um pouco disso na população do Brasil hoje, de escutar essas pessoas. No início da pandemia, tivemos uma melhor postura da sociedade com relação a isso, de se escutar os cientistas e tal. Mas, decorrente de outras ações que foram acontecendo durante o ano, de posturas de governantes, das pessoas cansando da pandemia, pois ninguém imaginava que iria durar tanto tempo, as pessoas acabaram escolhendo ouvir apenas o que agradava e o que começou a agradar era poder ir a festas, praia, não usar máscara, ir em um bar, porque elas tiveram estímulos para isso, infelizmente. Isso acaba sendo bastante prejudicial na prevenção da doença em um tempo em que estamos longe de ter vacinação para toda a população, para conseguir cobertura vacinal.

Você sente que as pessoas demonstram mais curiosidade ou interesse pelo assunto nas redes sociais?

Sim, acho que tem uma parcela da população que está muito aberta a entender quais as melhores atitudes para se tomar. Tem uma boa parte da população que eu acredito, pelo menos na minha bolha, que acha que escutar orientações de profissionais mais especialistas é interessante. Outras pessoas, claro, discutem. Daqui a pouco você conversa algumas coisas e é sempre muito importante a gente colocar aquilo que se sabe com muita educação. Eu já desmontei várias pessoas que chegaram até mim falando com palavrões, expliquei que podemos conversar sem ofensas e as pessoas mudaram totalmente o tom, começarem a perguntar e depois compartilhar o que eu posto. Só que isso é uma linha muito tênue, entre as ideologias e crenças e você conseguir passar essa conversa. Mas as pessoas têm muitas curiosidades e fazem muitas perguntas, principalmente em assuntos como uso de máscara. Isso nos abre possibilidade de tentar várias nuances de conversas, porque podemos falar de maneira mais técnica, mais amigável ou até mesmo brincalhona. Eu tenho textos em que uso cultura pop como Star Wars, Harry Potter, para tentar trazer essa conversa para adolescentes e jovens. É um público que a gente precisa também fazer enxergar essas questões de prevenção. Mas o que é mais difícil, principalmente por questão de estar distante dessa população, é se aproximar das comunidades carentes. Embora tenhamos alguns líderes comunitários nas redes sociais, não encontrei ainda a melhor forma de comunicação com essas pessoas e é algo que ultimamente tenho buscado bastante, porque são focos de pessoas para quem a gente precisa fornecer informações. Acho que em termos de divulgação científica, precisamos fazer a informação chegar a quem mais precisa.

Como é a atuação como professora de Biossegurança na UFCSPA?

Essa atuação veio a milhão em 2020. Fui concursada na UFCSPA em 2018, mas eu trabalhava então com Biologia Celular e Molecular, com células-tronco, processos regenerativos e sempre acompanhei a questão de Biossegurança porque fui gestora de laboratório e passei pela implementação da área nas universidades durante minha formação. Então fiz concurso para a outra área e hoje sou professora na UFCSPA, que é focada em ciências da saúde. Eu faço parte do Comitê Técnico de Biossegurança da universidade, junto com uma equipe multidisciplinar e nós, desde quando as aulas foram suspensas em 16 de março de 2020, nos organizamos para planejar um retorno seguro para as aulas na universidade, organizamos os protocolos da universidade. Como Comitê, tivemos uma atividade muito constante desde o início da pandemia, fazendo reuniões remotas semana a semana. Inclusive, publicamos o livro “Biossegurança e pesquisa em tempos da Covid-19”, pela editora da UFCSPA, para tentar auxiliar tanto a comunidade interna quanto pessoas de outras universidades que precisassem fazer atividades de pesquisa utilizando a biossegurança. A partir de julho de 2020, começamos a oferecer cursos de 2 horas para a comunidade, de até 100 pessoas, em salas virtuais e que têm ocorrido uma ou duas vezes por mês, falando sobre todas as questões da biossegurança com relação à Covid-19. Desde que começamos esse trabalho, tem essa demanda para podermos fazer com que professores, alunos, quando forem retornar para atividades presenciais, consigam fazer isso com o máximo de segurança possível. Então passamos todas as evidências científicas que temos até o momento: uso correto da máscara, importância do distanciamento, higienização das mãos e o que podemos fazer no ambiente da universidade para poder fazer essa prevenção de riscos.

Como tem sido as atividades durante a pandemia?

As atividades ocupam bastante tempo porque tenho as atividades das aulas das disciplinas, que são todas remotas. Dou aula para quatro ou cinco turmas de cursos diferentes, a maioria delas focadas em biossegurança, fora os cursos e as atividades de extensão. Temos uma Feira de Saúde Virtual que leva promoção de saúde para as escolas que fazemos presencialmente, mas durante a pandemia está sendo virtual. Ainda sou coordenadora do curso da Biomedicina noturna da UFCSPA, então há todas as atividades voltadas para a coordenação de curso. Enfim, são várias questões que acabam tomando muito tempo. E raro um sábado ou um domingo que não tenha trabalho. Eu não atraso aulas, são as minhas prioridades, tenho muitas reuniões, muita coisa mesmo e o que eu tenho mais pecado, digamos assim, são as atividades de pesquisa, porque está tudo parado. Faço reuniões com meus alunos de pós-graduação, temos que retomar alguns artigos científicos que precisam de revisão e acabo colocando isso um pouco mais de lado por conta das outras atividades, mas tenho apoio das alunas e elas sabem que nesse momento há outras questões tão importantes quanto as pesquisas que estão paradas. Sabemos que daqui a pouco vamos conseguir voltar e fazer tudo de maneira adequada.

Acredita que o uso de plataformas como o Twitter aproximou os alunos? Há interação nesse sentido?

Onde vejo maior interação dos alunos é no Instagram e é onde faço menos postagens, pois é uma rede social que tem uma linguagem diferente. Eu atuava muito no início da pandemia no Facebook, agora migrei no Twitter, que com certeza é a plataforma onde atuo mais em termos de publicações, levo alguma coisa para o Facebook e também para o Instagram. Algumas coisas eu até aviso em aula, ou então eles, entre eles, acabam compartilhando. Fiquei muito surpresa em estar nessa colocação de influenciadora de ciência no Twitter, porque não imaginava que minhas postagens tivessem tanto impacto e tantas menções. Foi uma surpresa muito positiva, que me estimula a realmente ser ainda mais responsável com o que posto. Acho que isso traz esse senso de “bom, está sendo visto”, mas que seja visto por passar uma mensagem que ajude a proteger a população e não que vá deixar as pessoas mais confusas.


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