Germano Bonow: "Assistência médica começa na promoção da saúde"
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Germano Bonow: "Assistência médica começa na promoção da saúde"

Correio do Povo conversou com o médico gaúcho e ex-secretário de Saúde do Estado

Por
Eugênio Bortolon

Médico está no Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, estudando a Medicina no Estado e a Saúde Pública

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Germano Mostardeiro Bonow nasceu em Porto Alegre em 1942, filho de Germano Bonow Filho e de Dora Mostardeiro Bonow. Construiu uma sólida carreira na Medicina e na Política. Entre tantas atividades nas duas áreas, foi Secretário da Saúde do Estado. Hoje, está no Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul, estudando, pesquisando olhando o que se passou com a Medicina no Estado e a Saúde Pública.

O senhor teve uma carreira, nas áreas da saúde e da política, muito intensa. Agora, vive um novo período, uma espécie de retorno à medicina como pesquisador. Como o senhor se sente trabalhando no Museu da Medicina?

Na verdade não me considero um pesquisador, mas alguém que, ao completar 70 anos, tem a oportunidade de trabalhar em uma instituição fazendo o que gosta (estudar História) e ainda privilegiar algo que fiz a vida toda: a saúde pública e a medicina no Estado em que nasci. Evidentemente não tenho a formação acadêmica de um historiador ou de um museólogo, mas vivi boa parte da segunda metade do século passado em contato com importantes protagonistas, pessoas ou instituições que ajudaram a construir a história do Rio Grande do Sul. Participei do intenso trabalho de desenvolvimento pelos três níveis de governo para a construção do SUS nos anos 90. Acompanhei de perto a notável reforma da Santa Casa de Porto Alegre nos anos 80, feita sob a proteção do cardeal Dom Vicente Scherer, no governo Jair Soares. Vi e trabalhei, como chefe de posto de saúde, para a erradicação da varíola no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo, nos anos 70. Fui aluno da terceira turma (1968) da Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, criada e implantada por um abnegado grupo de médicos junto à Santa Casa. Conheci o primeiro secretário de Saúde do Estado, Lamaison Porto (1959, governo Brizola). Um dia, na zona Sul do Estado, encontrei atirado no chão de um banheiro o livro “Panteão Médico”, escrito por Alvaro Franco e Sinhorinha Maria Ramos, que trata do progresso e evolução da medicina no Rio Grande do Sul, editado em 1943.

A obra é um documento histórico, tem 558 páginas e aborda, entre outros assuntos a formação dos médicos, os hospitais, a luta contra a tuberculose, a lepra, tracoma e verminoses. Apresenta uma síntese dos hospitais, farmácias e médicos de cada município e inclui um pouco mais de 100 páginas com pequenas biografias de médicos que trabalharam no Estado no início dos anos 40. É um livro notável e o MUHM, juntamente com as entidades médicas, conseguiu reeditá-lo em 2018. Este trabalho de poder disponibilizar informações coloca o Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul como uma importante fonte de pesquisas na área da saúde. Saber que o nosso acervo é usado como fonte para trabalhos de conclusão de curso, mestrado e doutorado, por pesquisadores das mais diversas instituições de ensino do Rio Grande do Sul, do Brasil e até mesmo de outros países, nos enche de alegrias.

Qual a abrangência das atividades do museu e nas pesquisas?

O museu é do Simers, faz parte da responsabilidade social da instituição, e, como tal, procura participar das atividades da comunidade rio-grandense. Entre as atividades com a comunidade, destaco o Natal na Praça, evento voltado para as crianças hospitalizadas no Hospital Santo Antônio, da Santa Casa. Outro ponto importante foi o esforço feito no ano passado para que o Hospital Beneficência Portuguesa não fechasse as portas.

O trabalho de enriquecimento do acervo do MUHM deve-se muito à museóloga e coordenadora do Setor de Acervo e Pesquisa da instituição, Angela Pomatti, e da coordenadora do Setor Educativo e pedagoga, Gláucia Kulzer, ambas formadas e com mestrado em História. São muitos os doadores, tanto individuais quanto institucionais. Olhando o acervo, vendo e acompanhando algumas histórias de doações, lembro do primeiro livro que Moacyr Scliar escreveu, “Histórias de um médico em formação”. O autor, tempos depois de lançar a obra, entendeu que não gostava dela e tratou de retirá-la de todas as livrarias. Recentemente, conversando com o Dr. Paulo Maciel, filho de Dr. Rubens Maciel, disse que tinha o livro, prefaciado pelo pai e autografado pelo autor e, que doaria para o museu. Lembro do professor Rubens, grande nome da medicina brasileira, fui aluno e colega de trabalho do Scliar e sou amigo do Paulo. Hoje o MUHM conta com dois exemplares, um que a colega de turma do Scliar, Dra. Maria Helena Mazaferro Bronca, doou.

Outro livro que adquirimos graças à compreensão do livreiro é um tratado de saúde pública, cujo autor é Barros Barreto, então ocupando o cargo equivalente ao Ministro da Saúde. O livro contém uma dedicatória do autor ao Presidente da República, Getúlio Vargas, em 1943. Entre uma exposição e outra, as vezes se faz necessária uma reforma nas salas e no hall de entrada da Beneficência Portuguesa. Em 2017, o arquiteto responsável pela obra descobriu que embaixo das tintas que cobriam as paredes do hall de entrada (antiga entrada do Hospital) havia uma pintura imitando mármore, que me lembrava muito as escaiolas. Revendo os livros de receitas e despesas da Beneficência, observou-se que o responsável pela obra pode ser um pintor de nome Schlatter. Talvez o mesmo que fez uma aquarela sobre a região central de Porto Alegre e apresentou-a no exterior. Digo talvez porque aqui cabe uma pesquisa para esclarecimentos. O que não precisa pesquisar é a beleza que ficou o hall do museu.

Como funciona o museu? Quais as grandes curiosidades que oferece?

O MUHM possui uma área de exposição aberta ao público de terça a sexta-feira, das 10h às 18h e sábados e feriados das 14h às 18h, no prédio histórico da Beneficência Portuguesa (avenida Independência, 270, em Porto Alegre). Em outra área, denominada Reserva Técnica, é disponibilizado aos pesquisadores os acervos: bibliográfico, museológico, arquivístico, audiovisuais e digital. O MUHM desenvolve ainda importante trabalho pedagógico com escolas públicas das cidades de Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Eldorado, Esteio, Guaíba, Porto Alegre, Sapucaia e Viamão. Durante os últimos dez anos, colocou à disposição transporte gratuito para escolas que agendaram visitas. Desde 2008, recebemos a visita de mais de 250 escolas e mais de 11.000 visitantes.

Em uma destas visitas, na abertura da exposição “Os Segredos da Anatomia: Um olhar atento sobre a base da vida humana”, o professor que trouxe as crianças de Alvorada disse: “É a primeira vez que eles visitam um museu e alguns deles nunca vieram a Porto Alegre”. Os estudantes quando visitam o museu, além da exposição atual sobre a epidemia de gripe espanhola, podem observar objetos como o Pulmão de Aço usado nos hospitais para o tratamento das crianças com paralisia infantil. O pulmão foi cedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aliás, hoje obsoleto, quer pelo progresso tecnológico, quer pelo controle da poliomielite. Também podem observar os instrumentos e o esqueleto usados para o ensino da obstetrícia por um médico nas primeiras décadas do século XX, na região onde é o município de Feliz. O esqueleto o dr. Schlatter (o médico, não o pintor) trouxe da Europa, e o ventre feito em couros (phanton) imitando a barriga de uma mulher foi feito por um artesão. Há também um baú com sais e medicamentos que o dr. Agapíto Gonzales carregava junto com sua maleta nas visitas que fazia aos seus pacientes. Sem comentar sobre os livros e documentos do século XIX.

O senhor está fazendo um trabalho de pesquisa sobre a Gripe Espanhola. Qual o objetivo?

O museu periodicamente apresenta sob forma de exposição, parte de seu acervo, já que não é possível expor permanentemente os milhares de livros, documentos, objetos ou depoimentos de profissionais que gravaram suas histórias no “Projeto História Oral”. Assim, apresentamos, ao longo da existência do museu, 21 exposições sobre os mais variados assuntos. Ora sobre o pioneirismo da mulher na medicina ou o protagonismo dos médicos negros no Rio Grande do Sul. Mas também sobre datas históricas da medicina no Estado “140 anos, Ora Pois, A Beneficência...”; “Simers 80 anos de História”, “30 anos de AIDS no RGS”. Às vezes procuramos fazer coincidir com um evento mundial com a nossa instituição. Foi assim em 2014 com a Copa do Mundo, quando apresentamos “Medicina e Futebol: quando a saúde entra em campo”. Ano passado, 2018, foi o ano do centenário da Gripe Espanhola. A mais devastadora das doenças do século XX. Estima-se que o número de mortos seja próximo a 40 milhões de pessoas em todo o mundo.

Procuramos com essa exposição mostrar o cotidiano de Porto Alegre durante os meses de outubro a dezembro de 1918 com a eclosão da epidemia na cidade. A gripe marcou a vida de muitas famílias em nossa cidade. Há anos atrás, quando nem imaginava que um dia iria trabalhar em um museu, pedi a um jornalista e amigo, Benito Giusti, que me conseguisse informações sobre a Gripe Espanhola no Estado. Passado um certo tempo ele me trouxe umas trinta páginas copiadas do jornal Correio do Povo, de outubro até primeiros dias de dezembro do ano de 1918. O jornal relatava todas os acontecimentos sobre a epidemia. A abertura de hospitais, o atendimento da Escola Médico Cirúrgica, o fechamento de escolas, clubes, cabarés, a marcha da epidemia pelas cidades do Interior, enfim, até a censura imposta pelas autoridades ao jornal. No inicio de novembro de 1918, o Correio noticiava a divisão da cidade por quarteirões e a nomeação de um médico, a sua residência, com o número do telefone, como responsável pelo atendimento das pessoas naquele quarteirão. É bom lembrar que os postos de saúde só surgiram anos depois. Em um dos quarteirões, o médico responsável era o Dr. Carlos Mostardeiro, irmão mais velho de minha mãe, que na época ia fazer 8 anos. Dois ou três dias depois, o mesmo jornal noticiava a morte por Gripe Espanhola do Dr. Carlos, meu tio. Assim como ele, outros profissionais vieram a perder a vida para evitar que outros morressem.

Quando preparávamos a exposição pedi que relatassem o fato e ainda que colocassem que ele havia sido jogador do Grêmio e que seria interessante buscar o que havia acontecido no futebol no ano de 1918. O campeão de Porto Alegre naquele ano foi o Cruzeiro. O Internacional também teve médicos que enfrentaram a doença, entre eles Florêncio Ygartua e que foram jogadores ou dirigentes, e o Campeonato Gaúcho nunca terminou. Da Espanhola fica a triste lembrança dos milhões que morreram numa época em que havia poucos recursos médicos para o diagnóstico e tratamento e nada para a prevenção. Mas que hoje, além de termos medicamentos necessários ao tratamento temos o que é de suma importância, a forma de prevenir a doença: a vacina.

Com toda a sua experiência, como o senhor está vendo a situação da saúde no Brasil? 

Minha formação é em Saúde Pública, pós-graduação, mestrado, especialização, sempre com a ideia de ser um médico sanitarista. A experiência pessoal é toda nesta área: posto de saúde, hospital, técnico em planejamento, supervisor técnico e, por fim, secretário da Saúde. Em saúde pública, trabalhei com números, indicadores. A minha dissertação de mestrado aborda a evolução dos principais indicadores de saúde nos primeiros 70 anos do século XX no Rio Grande do Sul. Os indicadores usados são reconhecidos pela OMS: esperança de vida ao nascer, mortalidade geral, razão da mortalidade proporcional, mortalidade infantil, óbitos por doenças transmissíveis, serviço e atendimento à saúde.

A análise destes instrumentos e a sua comparação com os dados de uma série histórica, 1980/2015, mostra a sensível melhora do estado de saúde da população do Rio Grande do Sul. Esta melhora não se deve somente ao progresso da medicina e da saúde pública nos campos de prevenção de doenças (vacinas), diagnósticos (laboratoriais e de imagem), tratamentos (novos medicamentos, antibióticos) e reabilitação (fisioterapia), mas também ao desenvolvimento do país. Ressalto aqui alguns pontos: a melhora das condições de saneamento básico (água, esgoto e lixo), a urbanização das cidades, o avanço tecnológico dos meios de comunicação (telefone, rádio, televisão), a melhoria dos meios de transporte, a disponibilidade de energia elétrica e a melhoria da qualidade de vida. Quando me formei, um dos problemas de saúde pública era a subnutrição. Hoje, um dos problemas é a má nutrição e suas consequências.

A melhora das condições de vida nos afastou dos países subdesenvolvidos e nos aproximou das nações consideradas de primeiro mundo. Se por um lado isso pode ser evidenciado como algo positivo, por outro não pode ser esquecido que estes países também têm seus problemas de vida. Voltando aos indicadores e agora analisando a mortalidade por causas, observamos que a principal causa de óbitos no Estado, atualmente, é por doenças cardiovasculares e em segundo lugar vem o câncer. As duas juntas são responsáveis pela metade dos óbitos que ocorrem no Estado nos últimos 30 anos. A terceira e quarta causa são as doenças respiratórias e a morte violenta. Todas estas quatro causas, e mais a mortalidade por doenças endócrinos nutricionais (diabetes e outros), nos remetem a uma medicina de uma tecnologia mais desenvolvida e, portanto, muito cara, que deverá estar à disposição de uma população estimada em mais de 200 milhões de habitantes espalhados por oito milhões de quilômetros quadrados. Este é o grande desafio, dar a esta população acesso à assistência médica. Isto não significa acesso à consulta médica. Assistência médica começa na promoção da saúde, e é aí que podemos mexer no estilo de vida, e continua na prevenção de doenças que já se imaginavam extintas no Brasil. Disponibilizar o diagnóstico e o tratamento e, por fim, reabilitar e recuperar a saúde das pessoas.