Graham Russell: "Quando o Air Supply toca, é como fazer amor musicalmente"

Graham Russell: "Quando o Air Supply toca, é como fazer amor musicalmente"

Compositor da banda australiana concedeu entrevista por telefone ao Correio do Povo

Eric Raupp

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Compositor do Air Supply concedeu entrevista por telefone ao Correio do Povo | Foto: Michael Schoenfeld / Divulgação / CP Compositor do Air Supply concedeu entrevista por telefone ao Correio do Povo | Foto: Michael Schoenfeld / Divulgação / CP

Quando Graham Russell e Russell Hitchcock se encontraram pela primeira vez em 1975, para os ensaios da peça “Jesus Christ Superstar”, em Sydney, eles se tornaram amigos quase imediatos. Compartilhando a paixão pelos Beatles, eles começaram o duo Air Supply, que, há 43 anos encanta públicos ao redor do mundo com canções sobre o amor. Entre as produções, talvez nenhuma se destacou tanto quanto “Lost in Love”, do quinto álbum de estúdio da banda, e que se tornou o single vendido mais rapidamente no mundo. Este disco, assim como “The One That You Love,” “Now & Forever” e “The Greatest Hits” venderam mais de 20 milhões de cópias. Nesta quinta, a dupla retorna a Porto Alegre nove anos depois de se apresentar na Capital pela última vez.  Eles sobem ao palco do Auditório Araújo Vianna (Osvaldo Aranha, 685), a partir das 21h, para performar alguns de seus maiores hits. Os ingressos custam entre R$ 220 e R$ 380  e podem ser comprados pelo site. Em entrevista ao Correio do Povo, Graham, compositor, guitarrista e um dos vocalistas da banda, comentou sobre o romantismo na indústria, a relação do Air Supply com os fãs e planos futuros.


Correio do Povo: Você tem alguma memória da apresentação do Air Supply em Porto Alegre em 2009?
Graham Russell: Primeiro, preciso dizer que mal posso esperar para voltar e sentir o calor que sei que vamos receber de novo no Brasil. Mas para ser sincero, eu lembro pouco, porque já faz alguns anos e normalmente quando vamos a alguma cidade não temos tempo para ir a nenhum lugar. Fazemos o show e vamos embora, mas desta vez eu quero ir antes para apreciar o lugar, caminhar pelas ruas e conhecer as pessoas

CP: O nome da turnê que traz vocês de volta à cidade se chama “Lost in Love”. Por que resgatar esse nome, que representa tanto para o grupo, agora?
Russell: É muito estranho que após todos esses anos o mundo esteja completamente perdido, então esperamos poder levar um pouco de amor para todos ao nosso redor. O mundo está tão caótico agora e eu acho que é um sinal dos tempos e com os shows do Air Supply nós tentamos criar um oásis no meio de tudo isso tudo para trazer de volta as boas memórias, os bons sons, fazer as pessoas rirem novamente e se perderem no amor mesmo que seja por algumas horas. Nós falamos com muitos fãs depois das apresentações e geralmente perguntamos para eles o porquê de terem vindo nos assistir. E quase todo mundo diz que é uma ótima experiência desde que chegam ao teatro até que voltem para casa. Então não são apenas duas horas de um show nosso: gostamos de pensar que essa experiência dura muito mais, que tem um impacto na vida delas. Muitas pessoas já nos ouviram ao vivo e elas continuam a voltar! Então tentamos manter a essência disso. E nossa turnê tem tudo que amamos, consegue capturar tudo que somos e que temos feito ao longo de nossa carreira.

CP: Certamente, o sucesso dessa “experiência” passa pela escolha das músicas, que reúne grandes hits, apesar do setlist ser variado e novas canções também entraram no repertório. Com tantos trabalhos já lançados, como fazer para balancear a satisfação da audiência com a de vocês ao selecionar as faixas?
Russell: Nós somos muito sortudos porque tivemos muitas grandes canções e também temos consciência de que as pessoas vão ao nosso show, assim como a qualquer outro. Quando eu vou assistir ao Paul McCartney ou aos Rolling Stones, eu quero ouvir os maiores sucessos. Então a primeira coisa fazemos e colocar nossa músicas mais conhecidas. Entretanto, sabemos há canções preferidas em cada país, que cada localidade do mundo gosta mais de uma outra, então nos lembramos disso e colocamos aquelas que as pessoas querem ouvir. Ao mesmo tempo, tocamos faixas novas, tentando criar um espetáculo que abranja tudo isso para engajar as pessoas. E é por isso que em cada show nós vamos até a plateia e cantamos duas ou três músicas. Para nós, tudo gira em torno do público e da sua experiência. Nós amamos nossos fãs e em troca esperamos entregar algo que eles amem. É uma noite de reciprocidade. Então, resumindo, não é difícil escolher o setlist.

CP: A criação do Air Supply levou algo relativamente novo para a indústria, pois vocês estavam fazendo canções de amor e baladas em um clima de batidas presas com AC/DC e The Angels. Muitas pessoas permaneceram cínicas com o trabalho de vocês por décadas. Como era, e é, a relação de vocês com essas críticas?
Russell: Nossa relação hoje é muito boa com a Austrália, inclusive vamos fazer uma turnê por lá no ano que vem (risos). Quando nos criticaram no passado porque nós cantávamos canções de amor, eu acredito que isso não nos fez somente mais fortes, mas tornou mais blindados às próprias críticas. Tudo bem se algumas pessoas não gostam do que fazemos, porque nós gostamos, somos apaixonados na verdade. E não começamos a cantar esse estilo porque pensávamos que ele estava na moda. De fato não estava. Nós não tivemos escolha, isso é quem nós somos como pessoas e o Air Supply é único, não há ninguém no mundo que faça o que nós fazemos. Quando alguém se opunha ao nosso trabalho, nós voltávamos de uma maneira mais potente para mostrar o nosso trabalho simplesmente porque faz parte da nossa identidade. Somos pessoas sensitivas e românticas e nossas produções são um reflexo disso. Não fingimos ser algum personagem. Então se as pessoas falam que não gostam da música, elas não gostam de nós, o que é o ok, porque nós também não gostamos de algumas pessoas. Além disso, ao longo de nossa carreira e rodando o mundo, descobrimos que é impossível agradar a todos, porque todos têm seus traços e preferências. Mas no fim, o importante é fazer o que é natural para você. Com paixão, você terá sucesso. É isso que costumávamos repetir para nós mesmos no começo de tudo. Acreditávamos no que estávamos fazendo.

CP: Serviços de streaming e a Internet são novidades em relação à época em que você começaram e que possibilitaram o surgimento de novos artistas e produziu a chamada "música de fast food". Ainda existe ainda espaço para o romantismo na indústria?
Russell: Eu espero que haja músicas românticas perdidas por aí  espero que surjam novos grandes artistas no estilo. Contudo eu ainda não os escutei, talvez estejam no Brasil, eu não sei. A certeza que tenho é que quando eu ligo o rádio, eu não escuto mais músicas boas, elas são muito raras. Eu acredito que agora estamos em uma época diferente. Quando você ouve uma música no rádio ou em qualquer outro lugar, é muito rápido; chega-se ao refrão de maneira muito simples e muitas faixas até mesmo começam pelo refrão. Mas uma bela composição romântica é como fazer amor, você precisa de carinho e cuidado com a letra até finalizar de uma forma tocante. Muitas das músicas de hoje em dia mal iniciam e já te atingem com uma força enorme, direta. Não se faz mais amor no rádio, é uma coisa difícil de se explicar. Quando o Air Supply toca, é como fazer amor musicalmente. E eu acho que ainda temos algumas coisas a ensinar, mesmo após 43 anos de carreira, porque nos mantemos fiéis ao que fazemos de melhor e ao que somos. Sabemos como nossas canções devem soar. E é por isso que existem muitas pessoas nostálgicas, que se sentem revigoradas ao ouvirem trilhas assim. Eu espero que existam outros artistas que façam o que nós, para que, quando estivermos mais aqui, sejam melhores que nós.

CP: Além da música, você já afirmou ser fã de cinema. Existem planos para trabalhos na área?
Russell: Ah, esta é uma pergunta muito boa, porque eu realmente gosto muito de cinema. Eu acho que são artes complementares. Adoraria trabalhar com qualquer diretor e produzir uma trilha sonora ou quem sabe uma faixa especial para um filme deles. Se eu tivesse que mencionar alguém para uma parceria, sem dúvidas Steven Spielberg, porque ele é brilhante. O problema comigo é que as pessoas sempre querem usar canções já feitas pelo Air Supply, mas eu quero criar novas. Espero que um dia eu consiga fazer isso. Todos nós temos objetivos e ambições na vida, e a minha é ganhar um Oscar de melhor canção original. Pode ser um sonho distante, mas precisamos de metas para a vida.

 


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