James R. Kahn: "O Brasil é o país do futuro e sempre será"

James R. Kahn: "O Brasil é o país do futuro e sempre será"

Pesquisador norte-americano afirma que governo brasileiro deve tomar as rédeas do debate internacional sobre a Amazônia

Jonathas Costa

Professor da Washington and Lee University, James R. Kah pesquisa a região amazônica há décadas

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Presidente da Sociedade Norte-americana de Economia Ecológica e membro da Washington and Lee University, James R. Kahn é um norte-americano que conhece melhor a
Amazônia do que muitos brasileiros. Já perdeu as contas de quantas vezes esteve na região realizando pesquisas. Em meio aos debates em torno da bioeconomia, que vão desde a sua dificuldade de conceituação à própria implementação, Kahn defende o papel da Zona Franca de Manaus na proteção da floresta, mas alerta para a necessidade de ir além.

Ele também insiste para a necessidade de o Brasil retomar as rédeas do debate internacional sobre a Amazônia, que na sua visão foi sequestrado pela mídia internacional em razão da reação ineficaz do governo brasileiro.

Já temos um bom entendimento do que é a bioeconomia?
Nas últimas décadas temos muitas novas palavras para entender: sustentabilidade, justiça ambiental e, agora, bioeconomia. Todo mundo acha que pode defini-la, mas todos apresentam uma definição diferente. É como a palavra amor. Todo mundo tem uma definição de amor, mas talvez a minha definição seja diferente do que é para outros. Minha definição, agora, aos 66 anos, é diferente de quando tinha 20 anos. Existe amor para a minha parceira, para os pais, para o Flamengo, existem muitos tipos de amor. Por isso não é muito fácil definir o termo bioeconomia. Acho que é mais fácil falar de características e propriedades da bioeconomia do que tentar defini-la. Tenho quatro propriedades: a primeira, e talvez mais importante, é o uso de serviços ecológicos diretamente nas atividades econômicas, a segunda é a fonte de renda sustentável, a terceira é a proteção de fluxos de serviços ecológicos e, por fim, o melhoramento da qualidade da vida para os moradores da região. Isso não é muito diferente do que talvez já se conheça como manejo sustentável da floresta ou com a pesca sustentável, por exemplo. É muito similar, mas precisamos ter cuidado. Pessoas acreditam que cotas individuais de captura na pesca é a solução para todo o problema. Mas, na maioria dos casos, esse sistema de cotas não inclui comunidades de pesca artesanal. Eles sofrem com as definições de direitos de propriedade. Também nos Estados Unidos eles chamam plantações de pinheiro de sustentável. Mas não é sustentável porque não há fluxo de serviços ecológicos. Usa um produto natural, mas não é bioeconomia. A mesma coisa com plantações de eucalipto. As folhas do eucalipto são tóxicas para alguns animais da Austrália, por exemplo. Não há serviço ambiental nisso. Também existe bioeconomia falsa. Muitas pessoas, quando pensam em bioeconomia, pensam em biocombustível, mas na Indonésia eles estão cortando a floresta natural para plantar palmeiras de óleo para o biocombustível. Isso é extração não sustentável. E é um problema para o Brasil. Enquanto existe essa bioeconomia falsa nos outros países, se bloqueia o desenvolvimento no Brasil, porque pessoas associam palmeiras com destruição ambiental. Mesmo o Brasil usando outra planta para biocombustível, talvez o mundo acredite que seja a mesma situação da Indonésia. Meu ponto de vista é: precisamos ir em frente com precaução. Precisamos identificar bem o que são os produtos de bioeconomia de verdade da Amazônia.

Muitos especialistas defendem o modelo da Zona Franca de Manaus como uma forma de preservar a floresta. O senhor é um deles. Como vê essa relação?
Passei muito tempo no Brasil, tanto tempo que nem sei dizer. Já estive aqui umas 60 ou 70 vezes. Então, tenho a perspectiva tanto de alguém que conhece muito bem o Brasil, como de alguém de fora que pode ver quando o “rei está nu”. O primeiro aspecto em relação ao Polo Industrial de Manaus (PIM) é que ele realmente é uma atividade ecológica, não é o que se chama greenwashing. Não é propaganda! É realmente uma atividade verde. Houve muito desenvolvimento econômico na região associado ao PIM, mas uma das coisas mais importantes é que esse é o desenvolvimento econômico que não teria ocorrido no Brasil se não fosse o PIM. Isso não está transferindo empregos de Santa Catarina para o Amazonas. É a criação de empregos que estariam no México, Chile, Argentina ou Malásia. Esses empregos estão chegando ao Brasil por causa do PIM. É uma diferença muito importante da maioria dos projetos de desenvolvimento que temos no mundo.

Por que, na sua opinião, esse modelo econômico é bem-sucedido?
Porque está baseado nos princípios de desenvolvimento sustentável. Primeiro, a concentração de indústrias gera um efeito cascata, com a criação de mais indústrias na sua volta, é o que chamo de efeito de aglomeração. Outro fator muito importante é que o PIM está produzindo produtos com alto valor agregado. Não estão produzindo soja para vender para a China. Isso cria bons empregos e gera boa renda. Em 1980 a revista The Economist debateu o que seria, de fato, desenvolvimento sustentável. Um grupo de economistas neoclássicos criou o conceito Weak Sustainability (Sustentabilidade Fraca). Esse conceito consiste no modelo que aceita perdas de recursos naturais com a compensação dessa perda com a criação de recursos criados pelo homem. Mas a Sustentabilidade Forte diz que essa hipótese está errada. O capital feito pelo homem não pode produzir serviços ecossistêmicos na escala de um ecossistema natural. Nenhuma criação humana vai sequestrar carbono da atmosfera como a floresta amazônica. Nenhum banco de sementes pode proteger a biodiversidade da mesma forma que a floresta amazônica protege. Uma sustentabilidade forte rejeita a hipótese de substituibilidade entre os tipos de capital e se concentra na preservação do capital ambiental ao mesmo tempo em que você aumenta os outros tipos de capital: o humano, o social e o criado pelo homem. É isso que é necessário para o desenvolvimento sustentável, e isso tem sido o foco do PIM, o que resultou na proteção da floresta tropical. Você pode passar por todos os estudos econométricos que deseja, olhando para os dados e interpretando-os como quiser, mas o resultado final é o mesmo: o PIM protegeu a floresta tropical. 

E com a transformação da economia global, o que pode ser feito agora para crescer e se manter sustentável? 
Independente do que sabemos, temos que seguir em frente. É preciso manter o custo favorável do PIM. É isso que permitiu a competição com outros países. Mas é preciso também criar outros polos de atividades econômicas. O que considero o maior obstáculo para o crescimento sustentável no Brasil é a taxa de juros aplicada no país. Esse é um exemplo do que disse: “o rei está nu”. A taxa de juros que os bancos cobram de seus melhores clientes no Brasil é superior ao que é praticado no Congo, Síria, Iêmen e Venezuela. Todos países disfuncionais. Por que o Brasil tem taxas quase duas vezes maiores que esses países? Já me disseram que aqui a taxa de juros é alta porque a inadimplência é alta. Está errado. A inadimplência é alta porque a taxa de juros é alta. As pessoas não conseguem pagar seus empréstimos. Todo brasileiro que já acumulou dívidas na fatura do cartão de crédito sabe do que estou falando. O Brasil tinha altas taxas porque a inflação estava descontrolada. Mas, e agora? A inflação está sob controle e as taxas continuam altas. Qual a explicação para isto? Tento pensar nos adjetivos para essa prática e só me vem à cabeça “absurdo” e “criminoso”. Se fizessem isso nos Estados Unidos ou Europa iriam presos. Como podem surgir novas empresas? Se elas começam sem perspectiva de lucros, logo começam a pagar juros e quebram. É por isso que dizem que o Brasil é o país do futuro, e sempre será. Me dizem que é algo difícil de resolver. Mas 85% do crédito no Brasil está nas mãos de cinco bancos. Ora, é fácil de resolver isso. Abra o mercado para bancos exteriores. Talvez não seja algo fácil politicamente, mas economicamente é sim. Esse é um dos obstáculos, mas não o único. Os economistas também citam o custo Brasil. No ranking com 180 países para se fazer negócios, o Brasil está na posição 110. É ainda pior em termos de número de dias necessários para abrir uma empresa, e o pior de tudo é quanto tempo se leva para pagar impostos federais para uma empresa de tamanho moderado.

Neste contexto, as grandes multinacionais acabam tendo vantagem em relação à indústria nacional…
Sim. Grandes empresas podem acessar fundos internacionais e não são impactadas pelo que acontece no Brasil. Esse, inclusive, é um dos sucessos do PIM. As grandes empresas que se instalaram não precisaram pedir emprestado para o mercado de capital brasileiro. Elas já estavam capitalizadas ou acessaram fundos internacionais. Não posso falar por estas empresas, mas acredito que as multinacionais também preferem estar localizadas na floresta, em uma área verde, para se associar à imagem de proteção do meio ambiente. São os chamados contratos de responsabilidade social e corporativa. 

Na sua visão, o Brasil tem algum diferencial positivo frente a outros países que tentam desenvolver um “mercado verde”?
A Amazônia precisa de uma marca. Não estou falando de certificação e sim de reconhecimento de marca. Falo isso há muito tempo. Não sou especialista nesta área, mas veja o exemplo da Colômbia. Eles criaram um personagem fictício chamado Juan Valdez e o associaram ao café colombiano nos Estados Unidos. Toda hora aparecia Juan Valdez falando sobre o café. Isso fez com que o produto deles fosse vendido a um preço superior ao do Brasil e da Costa Rica no mercado norte-americano. Então, é preciso criar algo em torno da Amazônia e de como alguns produtos contribuem para a preservação da natureza. O Brasil tem muitos meios de comunicação internacionais para criar a narrativa sobre a floresta.

Isso poderia ser uma resposta à recente crise de imagem que o Brasil sofreu devido às queimadas na Amazônia?
Olha, meus amigos continuam me ligando e perguntando se, depois de todo o trabalho que fiz aqui na Amazônia, não fico doente por tudo ter desaparecido, se isso tudo não me faz chorar já que a floresta amazônica se foi. Porque é assim que a mídia internacional vendeu essa crise, como se não houvesse mais uma árvore em pé.

E onde fica o papel do governo brasileiro nessa narrativa?
As respostas do governo do Brasil nesse episódio não contribuíram em nada. Não ajuda dizer que isso é um problema só do Brasil. Nem acusar os outros países de neocolonialismo. Não, não ajuda! Era preciso reconhecer que culturalmente se fazem queimadas, mas que a floresta ainda está praticamente intacta. Nos Estados Unidos as pessoas acham que o Texas é o maior estado do mundo. Mas o Amazonas tem o dobro do seu tamanho e ainda possui 97% da sua cobertura florestal original. A floresta amazônica, no total, tem 81% do seu tamanho original preservado. E o mundo não sabe disso. O mundo não sabe que o Brasil está sim protegendo a sua floresta tropical.

O governo recentemente sinalizou com a liberação da plantação de cana-de-açúcar na região amazônica. Como o senhor vê isso?
Cana-de-açúcar é o que eu chamo de plantação deficitária. O cultivo da cana não cresce por conta própria e requer muitos fertilizantes, pesticidas e herbicidas. Há muitas emissões associadas ao insumo, além de que requer terras relativamente boas. Existem, no entanto, outras culturas energéticas que podem crescer em terras já degradadas e há muita terra degradada na Amazônia. A mamona, por exemplo, produz mais óleo por hectare do que a soja e pode crescer em um ecossistema temperado e tropical. A própria cannabis seria uma boa alternativa para a região. É um tema complicado, aqui no Brasil ainda é proibido, mas nos Estados Unidos 33 dos 50 estados já estão com o consumo legalizado. É um grande mercado. A cannabis industrial, sem efeito químico, é utilizada em muitos países como fonte de papel e combustível. Ela produz mais biomassa por hectare do que qualquer outra planta e se torna mais eficaz produzindo papel do que qualquer pinheiro ou eucalipto. 

Quais seriam as outras potencialidades desperdiçadas quando falamos da Amazônia? 
O ecoturismo é uma delas. E isso novamente se relaciona à narrativa que o Brasil permitiu ao resto do mundo criar. Americanos, europeus e asiáticos entendem que o melhor lugar para conhecer a floresta amazônica é na Costa Rica, que se apresenta como um paraíso verde. Mas, na década de 70, a Costa Rica cortou praticamente toda a floresta para criar gado, tudo financiado com dinheiro do Banco Mundial. Logo surgiu nos Estados Unidos o boato de que quem comia hambúrguer do McDonald’s financiava a destruição da floresta amazônica. Mas não era a floresta inteira que estava sendo atacada, era a floresta da Costa Rica. Ainda assim, a imagem de toda a floresta foi arranhada. Enquanto isso, na Costa Rica sobrou apenas 24% da cobertura original de floresta. Além de desmatada, a floresta deles sequer tem grandes animais e felinos como aqui. Costumo dizer que meu quintal na Virgínia é mais selvagem que a floresta da Costa Rica. Ainda assim conseguiram se firmar como destino ecológico melhor do que o Brasil.

 

 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895