Jean Segata: "A epidemia é muito maior do que a doença, que o número de casos"
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Jean Segata: "A epidemia é muito maior do que a doença, que o número de casos"

Professor do Departamento de Antropologia fala sobre a relação humano-animal, com ênfase em redes sociais na Internet, etnografia multiespécies

Por
Christian Bueller

"Há uma série de drama sobre o coronavírus que já vimos acontecer com o zika e com o ebola", argumenta o professor

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O pesquisador Jean Segata, professor do Departamento de Antropologia e dos programas de pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS) e em Políticas Públicas (PPGPP) da Ufrgs estuda antropologia da saúde, em particular os mecanismos que operam nas grandes epidemias tropicais. Com o advento do coronavírus, fala sobre a relação humano-animal, com ênfase em redes sociais na Internet, etnografia multiespécie, epidemias e medicalização, crises sanitárias e biossegurança. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos Animais, Ambientes e Tecnologias (NEAAT) na Ufrgs.

Christian Bueller: Como começaram seus estudos acerca da relação humano-animal?
Jean Segata: 
No doutorado, comecei a me interessar sobre como as tecnologias médicas passaram a mediar essa relação. Fui morar próximo a clínicas veterinárias e percebi que havia especialidades como obstetrícia, nefrologia, cardiologia, entre outras, semelhantes à de humanos. Me deparei com um cão que usava até aparelho ortodôntico para corrigir mordidas. Então, me aprofundei neste tipo de tecnologia, desde medicamentos e tratamentos, até diagnósticos. A partir dos anos 80 e 90, com a mudança estrutural do Brasil do campo para a cidade, as pessoas moram cada vez mais em prédios e apartamentos pequenos, sempre com seus cães e gatos. Nas pesquisas, vi que esses animais começaram a adoecer, boa parte destes problemas clínicos correlacionados com os hábitos dos donos, estilos de vida parecidos com os dos humanos – constipados, problemas renais e de sono, depressão e ansiedade. Me chamou a atenção que as pessoas deste universo, já em 2008, 2009, época da minha pesquisa de campo, já eram “google-informadas”, buscando informações em blogs e comunidades de redes sociais. Ou seja, como humanos e animais remodelaram suas vidas a partir da partilha de tecnologias.

Christian: Depois dos animais domésticos que pesquisava, migrou para os mosquitos. O que encontrou nos seus estudos sobre as tecnologias para lidar com estas epidemias?
Jean:
Por volta de 2015, houve o surto de zika vírus, que afetou muito a cidade de Natal (RN), onde eu fazia a pós-graduação na época. Acompanhando os agentes de endemias, percebi que usavam tecnologias de mapeamento das áreas mais vulneráveis. Nas armadilhas para mosquitos, por meio de geolocalização e softwares, era possível analisar os ovos ali depositados e cruzar os dados. Começou a me chamar a atenção como eram produzidos estes dados e como as armadilhas eram colocadas em comunidades negras e pobres que, de alguma forma, já sofriam preconceito racializado. É uma ideia muito antiga no universo das epidemias, de que os pobres contaminam as cidades. Por mais avançada que fosse a tecnologia, ao mesmo tempo, reforçava um estigma de mais de 150 anos de políticas epidêmicas no Brasil, de culpabilizar os pobres. Ou seja, as armadilhas de capturas do mosquito estavam pré-posicionadas em locais específicos, mas os mosquitos estão em todos os lugares. Me mudei para Porto Alegre em 2016 e acompanhei que, na cidade, se coletam, não somente os ovos, mas os mosquitos mesmo. São enviados para Belo Horizonte para averiguar o DNA. Em Natal, já se coloca veneno em tudo. É um processo bem avançado e interessante. Mas também não há armadilhas no Moinhos de Vento, Bela Vista e Montserrat, bairros em que se pressupõe que não haja problema. Sim, na periferia, há mais mosquitos, mas não é culpa das pessoas, esse é o ponto. Nem todos os locais de Porto Alegre têm o mesmo sistema de coleta de lixo destes bairros. Há um problema no Brasil de sempre se individualizar a culpa, responsabilizam o cidadão por situações estruturais, no município ou no Estado.

Christian: Como está a condição do Brasil e suas políticas públicas em relação a este tipo de controle?
Jean:
Temos muitos programas de controle de epidemias no Brasil. Temos a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que é uma referência e está na ponta da pesquisa. A Ufrgs está na vanguarda da pesquisa nesta área, mas há uma falta de investimento por parte do governo federal em termos de pesquisa nas universidades, neste Ministério da Educação desastroso, principalmente. Vivemos um período de sucateamento da pesquisa, tanto nas públicas quanto nas privadas. Quanto ao SUS, há reclamações, mas temos um projeto de um sistema universal de saúde que não tem nos EUA, onde se paga 20 mil dólares para engessar um braço. Antes do SUS, tínhamos o Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social, extinto em 1993), só para quem tinha carteira assinada. Imagina agora, com os empregos informais e a “uberização”, essas pessoas não seriam atendidas. É um projeto, mas que precisa de investimento. Há algumas políticas que não funcionam tão bem, como em Natal. O maior problema é a descontinuidade dos projetos. Independente de partidos ou de gestor, há programas que precisam de continuidade, o que muitas vezes não acontece. Com epidemias é pior. Por exemplo, depois que acabou o surto da zika muita coisa se desfez. Quando os números diminuíram, o recurso acabou. Se, daqui a alguns anos, voltar, vai ter que começar tudo de novo.

Christian: Os seres humanos estão, vez por outra, em uma “bioinsegurança”, não? Antraz, zika, gripe suína, vaca louca, quanto disso é alarmismo? Estamos suscetíveis a estas epidemias cíclicas?
Jean:
Este termo, “bioinsegurança”, é utilizado em alguns livros. Todas estas epidemias são concretas, não são exagero. Estamos cada vez mais suscetíveis, sim. Tem se discutido muito, nos últimos anos, o quanto estes processos da globalização aceleraram as epidemias. No passado, tivemos a peste bubônica, que arrasou um terço da humanidade, a febre amarela, contraída no comércio entre os continentes, mas normalmente tinham uma temporalidade muito distinta do que é agora. Ao mesmo tempo que as epidemias, tivemos a queda das Torres Gêmeas, o antraz que chegou ao presidente dos Estados Unidos.

Estes problemas sugerem a transformação da saúde em uma questão de segurança. Há tecnologias genéticas que permitem a manipulação, que cria bioterrorismo. Imigrantes e refugiados são acusados ou de serem terroristas ou contaminantes. A xenofobia é agravada por causa de problemas políticos e sociais. Também existem animais, em 500 anos de colonização, rebanhos e plantas trazidos para cá, que não faziam parte destes hábitats. Isso trouxe uma série de desequilíbrios locais e espécies consideradas invasoras que favorecem as epidemias.

Christian: Quais as diferenças da nossa relação com as epidemias no passado e o que ocorre atualmente? Nossos hábitos atuais, que favorecem e potencializam os cânceres, por exemplo, também impactam nestas epidemias?
Jean:
O contágio leva um tempo para circular de um lado a outro do planeta. A mortandade, no entanto, era muito maior porque não havia tecnologias tão avançadas na época para conter a doença e tratar as pessoas. Mas atualmente é maior a circulação de pessoas e de produtos de origem animal e vegetal. Você pode estar carregando uma bactéria em uma carne, a cepa de um vírus superpoderoso pode atravessar o mundo em 24 horas. Para combater, hoje temos exames de DNA que dão diagnósticos rápidos, um sistema de resposta rápido. Em pouco mais de um mês do boom do coronavírus, já se tem identificação dos casos, amostras das cepas circulando nos laboratórios mundo afora. Isto beneficia as políticas públicas. Antes, se demorava para identificar o transmissor e o agente infeccioso.

Se faz muita especulação sobre o aparecimento de vírus adormecidos em calotas polares derretidas por dezenas de séculos e que podem aparecer agora. Fala-se da mudança acentuada do clima do planeta por meio da interferência humana, a exploração capitalista da terra e de plantações. Há problemas se acelerando. Uma população de suínos, bovinos e ovinos que recebe injeções imensas de antibióticos. Muitos resíduos destes antibióticos permanecem nas fezes e urina destes animais e evaporam e isso “chove” na gente. Entramos em contato com as doenças desta forma ou propriamente no consumo dos produtos que vêm deles.

Christian: Especificamente sobre o coronavírus, o que pode dizer?
Jean:
Há uma série de drama sobre o coronavírus que já vimos acontecer com o zika e com o ebola, essa preocupação de que se espalhe. Começou com um surto e rapidamente tomou proporção de epidemia, com mais de 40 mil casos e muitas mortes. Não é uma pandemia, quando as contaminações são descontroladas e ocorrem em diversos pontos de populações distintas. Há uma tentativa muito rápida de conter a doença. Houve, aqui, a racialização do coronavírus porque nas redes sociais se falava muito em “vírus chinês”, “doença da China”, sempre uma chance de estigmatizar e culpabilizar uma população. Ouvi relatos de perseguição e evitamento a chineses por conta disso. Sem falar no preconceito contra os seus hábitos alimentares: “Ah, eles comem morcegos e cobras”.

Se falou que poderia ser um reservatório da doença. Aliás, essas doenças que têm relação com animais são um dos pontos centrais nas minhas pesquisas: pensar a saúde multiespécie, a convivência entre animais e humanos. Mas não estou vendo um algoz e uma vítima, penso na experiência que nos une e nos separa. Os macacos, que morrem de febre amarela, nos dão o sinal sobre a doença. O comportamento das aves pode indicar a gripe aviária. Muitos acham que eles são os vilões. Sobre o coronavírus, é o momento de pensarmos sobre as fronteiras, a biossegurança, a xenofobia. Percebemos também os jogos de poder. A China tem sido uma potência que coloca os EUA em atenção quando o assunto é economia. A resposta norte-americana foi rápida, querendo tirar os seus cidadãos de Wuhan, querendo provar que a China é insegura, desestabilizando aquela economia. O capitalismo nunca dorme.

Christian: Em entrevista recente, o senhor disse que epidemias não têm fim do ponto de vista social. Explica para nós, como devemos proceder?
Jean:
Penso na vivência de cada uma destas pessoas. Os vizinhos que têm problemas entre si, um fica doente e culpa o outro por ter criado o mosquito. O governo brasileiro decretou o fim do surto de zika no fim de 2016 porque houve uma baixa nos números. As pessoas continuam se contaminando com zika, só que abaixo de uma linha numérica considerada um problema. Mas o problema continua existindo: crianças com microcefalia, mães que viraram cuidadoras e perderam suas atividades profissionais. Isso porque, nessa sociedade machista em que vivemos, muitos homens não largam seus trabalhos nestas situações.

Essas famílias sofrem, em parte, pela negligência das políticas públicas do Estado. As marcas e dores das epidemias continuam nestas pessoas. Há atingidos pela chikungunya que relatam dor após um ano, um ano e meio, que não conseguem abrir uma garrafinha de água por dores nas articulações. Na maior parte dos casos, essas pessoas perdem o emprego e não recebem pensão do Estado porque, após 15 dias, tecnicamente não estão mais com a doença e não há instrumentos médicos que atestam tão facilmente a dor. Antropologicamente falando, me interessa ver estas microrrelações. Sofrimentos sociais e individuais que não são capturadas pelos números oficiais da epidemiologia. Quanto ao coronavírus, os chineses são barrados nos aeroportos, não haverá empregos para eles. A epidemia é muito maior do que simplesmente a doença, o número de casos. Neste sentido, as epidemias não têm fim.