João Barone: “Uma das coisas que permanece imutável desde o início dos Paralamas é a nossa paixão”
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João Barone: “Uma das coisas que permanece imutável desde o início dos Paralamas é a nossa paixão”

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João Barone, à frente, com Bi Ribeiro e Herbert Vianna, companheiros de Paralamas do Sucesso há mais de 30 anos. Foto: Mauricio Valladares / Divulgação / CP


Depois de mais de 35 anos de estrada e uma bem-sucedida carreira recheada de sucessos, o Paralamas do Sucesso lançou recentemente o seu 13º álbum autoral. “Sinais do Sim” é o primeiro disco de inéditas de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone em oito anos e prova o quanto eles continuam afiados com seu rock e apaixonados pelo que fazem. Com 11 canções, o disco chegou falando da situação atual do país e do mundo, mas, ao mesmo tempo, trazendo uma mensagem de otimismo e de esperança. Se em outros tempos eles já cantaram que "a arte é de viver da fé", hoje eles propõem uma renovação e, principalmente, nos lembram que sempre há algo melhor por vir e que preciso ter força para sonhar e seguir em frente: "Ver o nascer de um novo dia não parece tão ruim. Há pouco tempo só se via, na poeira da dor, os sinais do sim. Não se afaste tanto dos seus sonhos. Sem ser ousado, eu te proponho: relaxe e se deixe sonhar". E é sobre “Sinais do Sim” e seus significados que o baterista João Barone fala nesta entrevista ao Correio do Povo, antes de chegar a Porto Alegre nesta sexta-feira para apresentar a turnê do novo trabalho.

Correio do Povo: “Sinais do Sim” chegou depois de oito anos sem um lançamento de estúdio do Paralamas, mas foi um período em que vocês estavam bastante ativos, percorrendo o país com diferentes turnês. Em que momento vocês decidiram fazer um novo trabalho e como foi todo o processo de criação dele?
João Barone: A gente tá tendo que explicar bastante esse período meio estendido entre um disco autoral e outro, e eu acho que isso foi em decorrência da nossa agenda, que estava muito lotada. Depois que lançamos o “Brasil Afora”, em 2009, começamos uma turnê e aí lançamos um DVD da turnê, que foi muito legal. Dali a pouco a gente engrenou a turnê dos 30 anos de banda, em 2013. Seria uma turnê meio rápida e a gente acabou quase dois anos e meio fazendo show. Esse era um show meio em referência à obra pregressa dos Paralamas, era um show celebrativo. Então, nesse período a gente ficou bastante ocupado, com muita coisa na estrada, e faz um tempo, depois que a gente terminou a turnê dos 30 anos, que a gente decidiu se dedicar ao material novo que o Herbert estava compondo, para juntar uma safra de músicas inéditas, autorais ou versões como a gente acabou fazendo. A gente passou mais ou menos uns dois anos conciliando um pouco essa frequência para se dedicar às canções novas e continuar trabalhando na estrada e fazendo shows. A gente ficou quase oito anos sem gravar um disco novo, mas a gente esteve bastante ocupado, esse tempo não foi muito computado por nós. E aí no começo deste ano a gente resolveu gravar o álbum e resolveu chamar um produtor com quem a gente não tivesse trabalhado antes, pra dar uma diferenciada na nossa rotina, e aí a gente chamou o Mario Caldato Jr., que é um cara que já tinha trabalhado com um monte de gente – além de ser um cara muito fera internacionalmente, ele já tinha trabalhado com um monte de gente próxima, que a gente gosta muito, que nem Nação Zumbi, Marisa Monte, Jack Johnson. Ele topou, rolou uma sinergia bacana entre nós, e ele veio a complementar muito o que se tornou o “Sinais do Sim”, que saiu, mais ou menos, no começo de agosto. E a gente passou os últimos meses dando uma repaginada geral no nosso show para poder caracterizar ele realmente como uma coisa nova, apesar de dependermos muito do nosso material pregresso, das músicas mais conhecidas para a hora de fazer um show, em que todo mundo quer ouvir as músicas conhecidas. Mas aí a gente, de uma maneira muito sutil, muito respeitosa, coloca ali no meio o nosso repertório novo, de modo que fique uma coisa pertinente e interessante.


CP: É realmente uma preocupação de vocês mesclar um sucesso com as novas músicas para atender o público e esse desejo de ouvir os clássicos?
João Barone: Com certeza. Acho que isso é um desafio para todos os artistas e bandas que têm essa longevidade como nós, com mais de 30 anos de estrada. Um exemplo que a gente costuma citar muito, guardada as proporções, é o Paul McCartney, que quando toca “Hey Jude” o estádio inteiro acende o celular e quando vai tocar uma música nova todo mundo fica ouvindo, de braços cruzados. Então é mais ou menos isso que acontece, você tem que equilibrar um pouco essa balança de uma maneira interessante, coerente para poder apresentar um show legal, um show que tenha apelo mesmo.


CP: Nesse sentido, vocês poderiam fazer um show só de sucessos para sempre, mas existe uma necessidade ou uma ambição de vocês, enquanto artistas, de ter sempre um material novo para apresentar ao público?
João Barone: Isso é uma premissa importantíssima, uma necessidade de nos sentirmos produtivos, atuantes. Acho que isso passa também como um dado importantíssimo para todos os artistas e bandas longevos. E acho que também tem um dado coerente aí, porque, na verdade, quando a gente escreveu aquelas músicas todas que são muito conhecidas, dos anos 80 e 90, a gente não tinha esse plano maquiavélico de que aquela música ia virar um grande hit, ia cair na boca do povo. Ninguém tem isso tão certo assim, essas coisas acontecem, é uma decorrência, é um pouco inusitado isso tudo. Mas, ao mesmo tempo, a gente continua não tendo essa premissa e essa arrogância de que uma música nova nossa poderia fazer tanto sucesso quanto uma música que hoje em dia é muito conhecida. A questão é bem mais filosófica do que prática. A gente não tem essa ingenuidade e também não tem necessidade de fazer alguma coisa maior do que a nossa obra pregressa, a gente tá fazendo isso porque a gente gosta de fazer. Acho que uma das coisas que permanece imutável desde o início dos Paralamas é a nossa paixão, a nossa entrega pela música mesmo, e é por isso que a gente tá aqui até hoje. O resto é muito inusitado.


CP: Em "Sinais do Sim", vocês também gravaram três músicas de outros compositores. “Medo do Medo”, da rapper portuguesa Capicu; “Não posso mais”, do Nando Reis; e “Cuando passe el temblor”, do Soda Stereo. Por que vocês decidiram gravá-las?
João Barone: A música da Capicua a gente resolveu fazer uma versão com uma pegada mais roqueira, mais paralamica, e aí essa letra também fala muito do que a gente gostaria de falar sobre o estado atual da sociedade, da coisa social, da coisa político-econômica. Essa letra é muito explícita, ela fala de uma maneira bem “2+2=4” sobre que a gente vive hoje dia, aqueles velhos medos que se colocam sobre eles “estão querendo nos dominar”, aquela coisa meio panfletária da ideia das grandes corporações e dos conglomerados e dos políticos que não querem largar o osso e dos grupos econômicos que só querem saber do lucro e nada mais ... Isso tudo ficou muito explícito nessa música e a gente achou tinha tudo a ver a gente passar essa mensagem da maneira como ela está colocada e muito atual, muito pulsante, pungente.

A música do Nando é inédita. A gente contou que ia gravar um novo disco, perguntou se tinha alguma música, e aí ele mandou essa música superlegal, que a gente adorou. Em “Não Posso Mais”, a gente efetivou essa parceria bacana com o Nando, uma cara que a gente tem muita proximidade, ele já tinha dado uma música pra gente no “Longo Caminho”, chamada de “Pétalas”.
“Cuando passe el temblor” é a regravação do maior sucesso da carreira do Soda Stereo, que era um trio do rock argentino. A gente fez uma versão bastante diferente da original, fizemos uma música mais balançada e tal. Foi uma banda que acabou no começo dos anos 90, depois nos anos 2000 eles fizeram umas turnês e foi uma loucura e aí a banda se separou definitivamente. O cantor, Gustavo Cerrati, continuou a carreira solo, mas infelizmente teve um problema de saúde, ficou em coma e morreu há alguns anos. Foi uma perda muito precoce, muito traumática pra cena musical argentina. A banda era muito querida, ele era um dos caras do rock argentino, então a gente também gravou como uma homenagem ao Ceratti. Uma das vezes que a gente foi em Buenos Aires, acho que em 2006 ou 2007, ele subiu no palco com a gente no Luna Park e foi incrível. E a gente já tinha gravado o Soda Stereo também em 1999, “música ligeira”, que depois o Capital Inicial gravou também. Essa regravação é mais uma das tentativas que a gente faz de aproximar a cena latino-americana.

CP: E como vocês trabalharam para que tudo ficasse com a cara e som típico do Paralamas?
João Barone: A gente tem uma marca sonora muito forte, os Paralamas conseguiram essa reputação ao longo dos anos, tentando fazer o melhor possível da nossa expressão musical. E acho que a gente continuou fazendo isso, é que nem andar de bicicleta. Pra gente é muito natural tocar do jeito que a gente toca, a somatória do som da banda e os elementos adicionais que a gente foi colocando na nossa música; os teclados e os sopros estão bastante coesos no reconhecimento, na identidade da banda. É mais um desafio a gente tentar fazer algo diferente dentro dessa premissa do som facilmente reconhecido da banda, principalmente a voz do Herbert e o discurso, as letras... É uma coisa que intriga muito a gente por conta de como a gente ainda consegue ser o que a gente é, e um disco é diferente do outro.


CP: O que você destaca do “Sinais do Sim” em comparação ao restante da discografia do Paralamas?
João Barone: Este é o nosso 13º disco autoral e é engraçado que poucas bandas sobreviveram até o seu 13º álbum, então a gente já tá no lucro. A gente passou um bom tempo imerso nesse processo de composição, no processo criativo, na formatação final dessas músicas até a gente achar que tinha uma coleção de músicas que valesse a pena gravar um álbum. Então foi um período muito intimista, muito resguardado, e acho que esse álbum, ao contrário de outros, talvez tenha esse dado de ter levado mais tempo a ser confeccionado e agora que ele saiu que a gente tá tendo uma percepção real do que a gente conseguiu fazer, agora que a gente tá vendo o que as pessoas estão sentindo, como é que tá batendo no público. Então, muita pra nossa surpresa, ele tá agradando muito. Falam tão mal das redes sociais, mas hoje em dia tem uma coisa muito legal que é essa proximidade com o fã, com seu público direto, e as respostas que a gente tá tendo com o álbum novo são as melhores possíveis, são muito legais. O que aconteceu também foi uma certa cobrança dos Paralamas - enquanto muito conhecidos pelas posições, as letras e a crítica social - de ter um discurso mais engajado e, na verdade, a gente não tinha essa necessidade de engajamento maior do que a gente já fez e do que a gente faz hoje em dia. A gente tem o privilégio de viver com o nosso trabalho, dignamente, e se posicionar, até extrabanda, sobre as coisas que estão acontecendo no país. Mas o que a gente sentiu de uma maneira mais elevada é que o nome do disco dá um contraponto ao que tá acontecendo. A gente tá vivendo uma verdadeira idade das trevas, não só no Brasil, mas globalmente. A gente tá vendo um monte de retrocesso dos quais parecia que a gente já tinha se livrado e que a humanidade já poderia passar para um outro patamar, mas a gente tá vendo aí aflorando esses sentimentos mais retrógrados e coisas que realmente não tem nada a ver a gente alimentar hoje em dia. Então o nome do álbum, “Sinais do Sim”, já dá uma mostra, um pouco mais pro lado otimista, que a gente tá num processo muito duro de depuração. Talvez, a gente tenha que avaliar o que tá acontecendo de alguma forma de lembrar a todo mundo que nós todos estamos juntos no mesmo barco, então a gente não pode delegar pros outros a nossa felicidade, a resolução dos nossos problemas. Então, os “Sinais do Sim” são de que o que tá acontecendo agora é um sinal mesmo de que daqui a pouco a gente estará melhor, depois que passar esse processo todo tão traumático que a gente tá vivendo, tão desconfortável. A música que dá nome ao álbum é uma letra mais de amor, mas, ao mesmo tempo, tem um entendimento mais elevado de você esperar que o sofrimento e as pessoas ruins te levam a um estado melhor de coisas - e aí talvez seja essa a intenção do álbum se chamar “Sinais do Sim”.


por Júlia Endress