Judith Scliar: "As histórias fascinavam Moacyr e isso tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração"
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Judith Scliar: "As histórias fascinavam Moacyr e isso tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração"

Em conversa com o Correio do Povo, a professora relembra o trabalho do marido

Por
Lou Cardoso

Judith é responsável por manter o legado do marido presente na memória dos leitores

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“O Carnaval dos Animais” marcou a entrada do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011) no mercado editorial em novembro de 1968. Em homenagem à data, uma edição comemorativa será relançada nesta terça-feira, no Theatro São Pedro (Praça Mal. Deodoro, S/N, Centro Histórico) no Sarau Voador - Literatura e Improvisos Transcritos, a partir das 19h.

Para representar o autor, estará presente, entre outros convidados, a viúva Judith Scliar, responsável por manter o legado do marido presente na memória dos leitores. Em conversa com o Correio do Povo, a professora relembra o trabalho de Moacyr e as expectativas para essa homenagem ao primeiro livro do seu saudoso marido.

Correio do Povo: Qual a emoção de relembrar agora o início da trajetória de Moacyr Scliar nesta comemoração dos 50 anos do lançamento de "O Carnaval dos Animais", a primeira obra do escritor?
Judith Scliar: É uma emoção muito grande porque esse foi o primeiro livro que o Moacyr publicou. Na realidade, ele já havia publicado um outro livro quando era estudante de Medicina chamado "Histórias de Um Médico em Formação", mas depois ele achou esse era um livro que não estava tão bem escrito, que ele publicou muito rápido e que precisava ter amadurecido e revisado mais o texto. Depois disso, durante seis anos, o Moacyr não publicou mais nada porque queria levar o ofício mais a sério, mas não parou de escrever, até que, em 1968, publicou "O Carnaval dos Animais", livro que logo teve grande sucesso e reconhecimento da crítica especializada. É uma emoção poder republicar essa obra que o Moacyr considerava o marco zero de sua carreira.

Correio do Povo: Moacyr também deixou inúmeras contribuições para a literatura médica e infanto-juvenil. Como você observava esse ritmo intenso de produção? Moacyr era mesmo um apaixonado pelo ofício de escritor?
Judith Scliar: Mesmo atuando intensamente como médico - trabalhava como professor universitário e também na Secretaria da Saúde, além de atender o Lar dos Velhos da comunidade judaica -, ele sempre achava tempo para escrever. E o mais fascinante é que ele conseguia escrever em qualquer lugar e em qualquer momento. Se surgia uma ideia, anotava no canhoto do talão de cheques ou em um guardanapo se estivesse em um restaurante.

A produção era realmente muito intensa, inclusive porque ele também escrevia muito rápido. Seja na máquina de escrever ou no computador, toda a produção literária saía direto do cérebro para o teclado. Era como respirar: eu não imagino o Moacyr passando algum tempo sem escrever. Ele tinha essa vantagem de produzir muito rápido, mas também de ter uma inspiração que vinha de qualquer lugar, de qualquer fonte.

O início da atuação na área da Medicina foi, por exemplo, uma experiência completamente nova porque Moacyr, um menino de classe média e de família judaica, tinha uma vida de certa forma protegida, até que se defronta com uma realidade brasileira com a qual ele nunca havia tido contato.

Conhecer de fato a pobreza e fazer atendimento em vilas foi algo que realmente influenciou a sua produção literária. Ele tem mais de 20 livros publicados na área médica, algo que as pessoas não conhecem muito. Tem biografias, contos, crônicas, trabalhos mais científicos na área da saúde pública. A literatura infanto-juvenil também foi algo que o Moacyr explorou muito ao longo dos anos, com diversas publicações nessa área. Ele inclusive era muito convidado para dar palestras em escolas para jovens, com quem ele tinha um ótimo diálogo. Muitas das obras publicadas nessa área também eram solicitações do IEL e da Secretaria da Educação, o que aproximava ainda mais o Moacyr dos leitores infanto-juvenis.

Correio do Povo: A questão judaica também era muito presente na obra. O quanto a família e as raízes influenciaram a carreira do Moacyr?
Judith Scliar: A família influenciou imensamente a carreira do Moacyr. A mãe dele era professora primária, o que, para aquela época, era uma profissão bastante diferenciada para uma mulher. Ela sempre incentivou o filho desde pequeno a escrever. O primeiro texto veio aos seis anos, em um papel de pão, com uma autobiografia - e que não era muito longa, claro, porque, nessa altura da vida, não se tem uma história de vida muito consistente. A família podia passar por dificuldades, mas, para livros, nunca faltava dinheiro. Inclusive, o nome Moacyr é uma homenagem a um personagem do livro "Iracema", de José de Alencar.

Além da influência da mãe, o pai também era um grande contador de histórias. A família morava no bairro Bom Fim, mais especificamente na rua Fernandes Vieira e, na época, as pessoas colocavam as cadeiras na rua, contando muitas histórias sobre como viviam na Rússia, alguns na Polônia (a família do Moacyr veio da Bessarábia, que hoje vem a ser Moldávia), e também sobre como eram as travessias de navio até o Brasil.

Essas histórias fascinavam o Moacyr. Isso, aliado ao talento, tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração. Uma outra grande inspiração foi a Bíblia. Algumas pessoas me perguntam se Moacyr era religioso - não era -, mas ele fazia leituras da Bíblia a partir de perspectivas diferenciadas, como a sociológica, a antropológica e a psicológica. Para ele, a Bíblia era um livro muito rico, e isso acabou se refletindo em obras como "A Mulher Que Escreveu a Bíblia", "Os Deuses de Raquel" e até em certos contos de "O Carnaval dos Animais" que estamos relançando agora.

Correio do Povo: Ele nos deixou mais de 80 obras, e você cuida de toda a preservação e divulgação desse legado. Além disso, existe um trabalho intenso divulgação da obra do Moacyr em plataformas online. Qual a importância de manter viva essa memória e como é a resposta do público para todas as iniciativas realizadas em homenagem ao Moacyr?
Judith Scliar: A preservação do legado do Moacyr, assim como o de qualquer outro escritor, é de extrema importância. A memória do brasileiro é, no geral, muito curta. E, pode parecer óbvio, mas todo escritor que não é lembrado é, no final das contas, esquecido, principalmente entre as novas gerações. Então é de fundamental importância que essa obra seja lembrada, discutida, divulgada e que diferentes públicos tomem conhecimento dela.

Hoje, claro, nós utilizamos bastante as redes sociais, que é uma maneira muito boa de fazer essa divulgação. Também fizemos em 2014 uma exposição fantástica no Santander Cultural que recebeu mais de 110 mil visitantes. No ano passado, quando teríamos comemorado os 80 anos do Moacyr, realizamos mais de 20 eventos para celebrar a data com mesas redondas, exposições, leituras, apresentação de dança judaica, relançamentos, concurso literário em parceria com a Secretaria Estadual da Educação, entre outras iniciativas. Todas, em geral, com lotação de público. A resposta das pessoas para esse trabalho de preservação e divulgação é sempre excelente.

Correio do Povo: Moacyr é um dos escritores brasileiros mais lidos internacionalmente. Como ele encarava toda essa dimensão que a carreira dele ganhava? Ainda existe muita demanda de fora para a obra do Moacyr?
Judith Scliar: O Moacyr obviamente ficava contente quando algum livro dele era traduzido, publicado ou bem vendido no exterior, mas ele era muito humilde e nunca mudou a pessoa que era, mesmo depois de todo o reconhecimento nacional, de todos os prêmios que ganhou, do convite para a Academia Brasileira de Letras e das publicações no exterior. Ele continuou sempre muito fiel aos princípios éticos e morais que nortearam a vida dele.

O Moacyr também sempre ajudava jovens escritores e ia a todas as escolas e universidades que o convidavam, fossem elas consagradas ou singelas instituições de ensino no interior. Ele ia com a mesma alegria, com a mesma satisfação, sendo pago ou não, como se aquilo também fosse sua missão como escritor. Hoje em dia, a agência literária internacional do Moacyr, localizada em Frankfurt, na Alemanha, está sempre em contato com editoras para novas publicações e traduções, em todo tipo de idioma: inglês, francês, espanhol, romeno, árabe, lituano e em tantas outros que nós só sabemos que é um livro do Moacyr quando conseguimos ver sua foto no livro. Felizmente, a procura no exterior continua grande.

Correio do Povo: Muitos amigos e colegas de Moacyr se encontrarão no Sarau em homenagem aos 50 anos de "O Carnaval dos Animais", que acontece no Theatro São Pedro nesta terça-feira às 19h. Quais são as expectativas para o evento e esse reencontro?
Judith Scliar: Nós fizemos até agora muitas mesas redondas, formato de evento que tem um caráter mais formal, e o sarau vem com a proposta de ser algo mais descontraído e espontâneo. Os convidados vão tocar música judaica, ler trechos de obras, contar histórias do Moacyr na infância, na juventude e na trajetória como escritor. Acho que será uma noite muito rica, alegre e emocionante. É uma maneira de trazer ao público algumas facetas do Moacyr que não são tão conhecidas, celebrando, ao mesmo tempo, o aniversário desse que foi o marco zero da sua carreira.