Lô Borges: "Eu mesmo não ouvia mais o Disco do Tênis"
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Lô Borges: "Eu mesmo não ouvia mais o Disco do Tênis"

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Capa do "Disco do Tênis"


Correio do Povo: O que você pode falar deste álbum, o "Disco do Tênis", após 45 anos?
Lô Borges: Este disco eu fiz aos 20 anos de idade, ao mesmo que o "Clube da Esquina", que foi um disco festejado. O "Disco do Tênis" ficou meio que sumido na minha carreira, não se somou ao meu repertório. Há um ano e meio, me convidaram para tocar este disco na Virada Cultural, em São Paulo, mas tinha só um mês para preparar e eu recusei. Um dia, um comentário de Facebook do Pablo Castro sobre uma música do Tom Jobim que eu cantei para um TV estatal japonesa fez com que eu o convidasse para ir à minha casa e ele tocou várias músicas do "Disco do Tênis". Eu logo disse que queria fazer este disco com a banda dele. Eles fizeram uns 10 ensaios e quando eu fui a primeira vez, vi que eles tocaram com tanta precisão, que até notas erradas foram reproduzidas. Em "Você Fica Melhor Assim", o primeiro tapa, os timbres, as notas, os instrumentos eram todos certos, recriaram o baixo do Beto Guedes, como se ele estivesse tocando, os violões de aço e de náilon das músicas eram os mesmos, os solos e as bases chegavam a assustar de tão perfeitos. Aí conversei com meu produtor e decidimos tocar em frente.

CP: E como foram os primeiros shows?
Lô Borges: Comecei a frequentar os ensaios no segundo semestre de 2016, aí fizemos release e conversamos com possíveis contratantes. A estreia foi no dia 13 de janeiro deste ano, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Foram três shows para 700 pessoas a cada noite, com ingressos sold out, vendidos com semanas de antecedência. Matérias em Folha de S. Paulo, Estadão e Veja. Rodamos muitos lugares com esta turnê do Tênis, principalmente pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Depois, me dei conta que eu mesmo não ouvia mais o "Disco do Tênis" e estes caras começando a ensaiar este disco me fez como se eu caísse em um túnel do tempo. Tudo voltou bem claro. Eu atravessei este túnel de forma visceral, mergulhei de cabeça. Assim, estou dando a importância agora que nunca dei para o disco. Era um disco cult, não um disco solar como o "Clube da Esquina". Aí lembrei que quando fechei o contrato com a gravadora, em 1972, eu não tinha nenhuma música. Casei com meu violão. Compunha de manhã, no meio da tarde o Márcio criava a letra e às 21h, estávamos gravando. Foi um disco experimentalista, lisérgico, underground, mas que voltou a cair nas graças da crítica e do público após 45 anos. O momento é o melhor possível da minha carreira.

CP: E Porto Alegre? Parece que tem uma história que relaciona a cidade com este período. Qual seria?
Lô Borges: Porto Alegre veio como uma coisa louca nesta época. O "Disco do Tênis" ficou pronto. Foi uma viagem musical, mas eu também queria fazer uma viagem rumo ao desconhecido. Meu radar, não sei por que, apontou para Porto Alegre. Era a metáfora perfeita de um lugar desconhecido, mas que teria uma energia boa para aquele momento de juventude. Peguei um ônibus e viajei um dia inteiro até chegar. Me hospedei numa pensão, numa área mais central. Depois fiquei na casa de um conhecido meu, que morava com o padrasto. Já tinha uns caras bem interessantes fazendo música, Bixo da Seda, Almôndegas, pelo que lembro. Eu tinha caixa com os discos e vendi muito naquela época por aí. As memórias daquela época são confusas. Não posso negar que rolava muita droga. Tanto que me senti bem em Porto Alegre, pois achei muitos roqueiros cabeludos e maconheiros. Foi um escape para sair do Rio de Janeiro, do foco da ditadura militar, de tomar prensa de policiais, do sufoco, por ser cabeludo e maconheiro. Tinha roda de violão quase todo o dia, era a coisa mais próxima do movimento hippie que eu podia ter naquela época. Fico contente de estar voltando para esta cidade com este show.

CP: E os parceiros desta caminhada, destes 45 anos para cá?
Lô Borges: Nunca posso começar uma frase sobre parceria e não falar do Milton Nascimento. Foi o cara que me deu a mão, que me recomendou para gravadora. Em 1970, ele já tinha gravado "Para Lennon e McCartney". Para o "Disco do Tênis", os grandes parceiros foram Nelson Angelo, Toninho Horta e Beto Guedes. Sem eles, o disco não teria esta sonoridade tão diferente e marcante. É importante dizer que o show não será só com o Disco do Tênis. Este tipo de show não se sustenta só com o lado B. Vou apresentar todas que o público mais gosta de ouvir, como "Trem Azul", "Clube da Esquina II", “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Paisagem da Janela".

CP: Como é a sua relação com os músicos mais jovens, estes que têm em torno de 20 anos ou mais, como você tinha na época do "Disco do Tênis"?
Lô Borges: Uma coisa que sempre faço é receber outros músicos no camarim ou conversar na rua. Eu sempre recebo os discos e material que eles me dão pela estrada. Há uns cinco ou seis anos, eu não tinha este hábito. Eu ouço tudo. Às vezes, troco uma ideia. Tenho ouvido muita coisa boa. Não consigo citar alguém em específico. Tem muito músico bom no interior de SP e MG, por exemplo. Fico feliz por saber que existe vida inteligente na música, além do que a mídia tenta nos mostrar ou convencer.

por Luiz Gonzaga Lopes