Luciano Alabarse: “Continuo achando que o teatro é uma bênção”
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Luciano Alabarse: “Continuo achando que o teatro é uma bênção”

Correio do Povo conversou com o diretor do espetáculo “Lilás” e também com o elenco da montagem

Por
Luiz Gonzaga Lopes

Musical faz parte da programação do Porto Verão Alegre

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O Porão do Teatro Renascença (Erico Verissimo, 307), clássico local de montagens e da Sessão Maldita, no final do século passado, será o receptáculo  e ambiente da nova montagem do diretor Luciano Alabarse, após um hiato de dois anos. O espetáculo “Lilás”, composto por dois textos curtos do dramaturgo norueguês Jon Fosse: “Lilás” e “Guitar Man” terá apresentações de de sexta-feira, 15 a domingo, 17, às 22h30minn. A programação encerra a temporada do Porto Verão Alegre. Os ingressos estão esgotados, pois são no máximo 24 lugares. Mais informações pelo site.

Segundo Luciano, o dramaturgo ainda é inédito no RS e no Brasil, salvo alguma montagem acadêmica. “Lilás” trata de um grupo de jovens músicos, despreparados para a atividade musical, que se reúne em um porão abandonado para ensaiar e entra em conflitos verbais e físicos. “Guitar Man” é um monólogo que complementa o primeiro texto. Acompanha o guitarrista da banda, anos depois, como músico de rua, lidando com as suas frustrações e ansiedades, com a guitarra que ganhou da avó como sua grande companheira. Entre um texto e outro a plateia muda a perspectiva, descendo para o cenário de “Lilás” para assistir a “Guitar Man”. O elenco é formado por Pingo Alabarce, Frederico Vittola, Leonardo Koslowski, Miriã Possani e Nicolas Vargas. O Diálogos, do Correio do Povo, foi conversar com todos eles, diretor Luciano Alabarse e elenco para saber como foi o processo para o espetáculo, iniciado com leitura de mesa em julho do ano passado e que chega sexta ao público da Capital.

 Como foi a escolha do local para a montagem de “Lilás”?
Luciano Alabarse: 
A gente começou as primeiras leituras sem definir onde iríamos montar. Em algum momento lá no início, caiu a ficha, isto se passa no porão. Me lembrei que há muitos anos, eu havia feito espetáculos no porão do Renascença na Sessão Maldita e aí me deu o insight. Foi uma epifânia de que eu tinha o lugar certo. Ficaria mais adequado na minha concepção fazer num porão de verdade. A ação do “Lilás” se passa num porão abandonado, aqui é um porão abandonado, faz anos que não se faz perfomance, encenação nenhuma. Foi uma escolha acertada fazer uma peça underground num lugar fora da curva. São dois textos curtos. A ideia era demarcar espacialmente a diferença. A primeira peça que é o “Lilás” se passa num plano do porão e a segunda “Guitar Man” no outro plano e o público muda de lugar de cima para baixo. Fizemos a junção dos dois textos. Estudando e lendo os textos de Jon Fosse, que são curtos com forte influência Beckettiniana ou de Thomas Bernhard (ele confessa a predileção pelo Bernhard), com esta circularidade e repetição de frases, resolvemos montar juntos. Penso que a gente tem este ponto positivo de fazer uma peça com estas características e com estes grupos de atores no porão do Renascença.

Como foi o processo de criação e ensaios do espetáculo?
Luciano Alabarse:
 Eu nunca tinha trabalhado com ninguém deste elenco, à exceção do Pingo Alabarce. A escalação do elenco partiu do Pingo. Eu tinha certeza que queria trabalhar com ele, pois é um jovem ator muito promissor, com muito chão para aprender, mas com talento. Foi um encontro feliz. São gerações diferentes da minha. Eu tenho já uma história, meus métodos. Eu gosto de estudar texto, por exemplo. O teatro que me interessa é aquele que valoriza o ator, a palavra na boca do ator. Gosto de atores que querem aprender a dizer texto. Aprender a dizer texto não é fácil. Esta peça tem características hiper-realistas. Tem que ser críveis as palavras na boca destes atores. A boa coisa é que eles compreendem perfeitamente o universo que eles estão retratando. Esta coisa à margem, de gente que quer chegar num lugar lá adiante. Para mim, o futuro chegou. Para eles, ainda há esta perspectiva. Há uma compreensão muito inata neles em relação ao que estes personagens dizem. Como eles dizem é o meu trabalho de direção, de brigar com eles todos os dias, construir com eles todos os dias. Ter na mão o resultado e não fazer cada vez numa chave de interpretação é o mais trabalhoso para mim. A sensação de dar recursos, instrumentos e conceitos para que eles façam o que a gente pactuar. Não é a obra do acaso do dia. Acho muito bom para o método não trabalhar só com as pessoas que me conhecem. Não sou um vampiro, não quero o sangue deles. Eu quero que eles compreendam que teatro é fruto de uma conquista difícil, que não é obra do acaso que dá o resultado, que tem muita conspiração. Eu sou apegado ao texto e tive que desapegar, porque o trabalho teve muita improvisação nos ensaios.

Assistindo ao ensaio e à preparação de vocês, posso dizer que vocês são muito ligados ao universo da música. Como foi compor o personagem com este background?
Pingo Alabarce: 
Eu não gosto de ir para os trabalhos pensando onde eu vou estudar. O Luciano gosta de dizer que a primeira impressão que a gente fica quando lê um texto é aquela. Bate aquela fagulha genuína. Sabia que o texto falava da história de uma banda que ensaiava num porão, mas não ia para os ensaios pensando em ler ou estudar tal coisa. Fui deixando vir. Quando o trabalho vai tomando mais forma e vai se definindo para onde a gente quer caminhar, aí começo a pesquisar, estudar ou fazer coisas que foram pactuadas pelo grupo. Eu gosto de ler coisas aleatórias para o trabalho. Não vou ler o Método, Stanislavski, um Yoshi Oida. Quando a gente mergulhou na onda do rock´n´ roll, na visceralidade dos personagens, aí comecei a ler coisas específicas, como o “Mais Pesado que o Céu”, a biografia do Kurt Cobain. Eu tinha lido outras biografias de caras do rock. Li um livro de contos do Sérgio Sant´Anna, “Homem-Mulher”, que fala da realidade carioca. Não teria nada a ver, mas para mim tinha tudo a ver. Sou muito preocupado, ansioso, quero que as coisas deem certo, que estejam em seus lugares, que as pessoas sejam felizes, fazendo o seu melhor. Este processo foi pessoal. Queria entrar no projeto para tirar meus medos e vícios. Fiz um trabalho em 2018 dirigido pelo Nuno Ramos, de 24 horas em cena, que compartilhei com a Vika Schabbach. Foi um divisor de águas. Estava num hiato de muita leitura para a universidade e cheio de coisas na cabeça. Eu precisava botar à prova o que fervilhava na cabeça, achar a minha verdade. Neste Jon Fosse, não estava preocupado com o que os outros vão achar. Talvez neste trabalho minha construção nasceu de um lugar genuíno. Deixei vir.

Quando rolou este processo de minimalização da tua carreira de diretor?
Luciano: 
Durante muitos anos de minha vida, só montei autores gaúchos, João Gilberto Noll (quando ninguém imaginava em montá-lo), Lya Luft, Caio Fernando Abreu, Tânia Faillace. Daí, eu comecei a querer outros horizontes. Não queria ter preconceito contra os grandes autores e grandes textos. Eu me ressentia em Porto Alegre de não ter estes grandes textos. Por que em Porto Alegre ninguém montava “Hamlet”, do Shakespeare? Isto me levou para as tragédias, que eu acho ainda imbatíveis. Na história da dramaturgia do teatro ocidental, não há nada tão grande, tão sagrado, como as tragédias. Depois que eu montei algumas tragédias, eu comecei a sentir falta de uma coisa oposta ao sagrado, que era o profano, o teatro contemporâneo, com todas as suas possibilidades de dramaturgia. Gosto da dramaturgia contemporânea, do jeito que o teatro gaúcho olha para o contemporâneo. Há montagens preciosas. Queria montar autores que não eram encenados. Jon Fosse, salvo engano meu, ninguém montou no RS, nem no Brasil. Tem uma missão, um peso, uma importância de dar para o público uma dramaturgia pouco conhecida. Tudo é por algo obscuro dentro de mim. Eu posso fazer isto. Quando disseram que eu era um diretor de clássicos, eu pensei o que é isto? Vou andar de paletó e gravata. Fiz montagens clássicas para beber na fonte sagrada do teatro. Não renego nada, nem Sófocles, Eurípedes. Eu ainda não fiz Ésquilo, que é o mais difícil e esfíngico de todos. Eu gosto de Thomas Bernhard. Gosto de saber que na terra dele as pessoas me têm como o cara que montou Bernhard no Brasil. Cada coisa que se fala do Bernhard no Brasil me chamam para falar dele. Gosto deste papel de estimular conversas sobre dramaturgos importantes, relevantes, que não são tão montados no Brasil.

 

 

Dos teus trabalhos anteriores, teve alguma mudança na tua forma de construir e atuar?
Miriã Possani:
 Eu nunca tinha trabalhado com o Luciano. Nem minha mãe (Sandra Possani) tinha trabalhado com ele, só fez uma leitura dramática. Eu sou hoje uma pessoa da TV. Sou repórter do Tri Legal. Levo dinheiro para as pessoas. Sempre fui atriz, quis esta carreira. Trabalhar com o Luciano Alabarse é especial, porque é diferente da minha formação que é de teatro contemporâneo. Ele coloca em primeiro lugar o texto. O ator tem que entender o texto. Colorir as palavras, ele fala. Eu vim de um teatro que era corpo, corpo, corpo. Chegar aqui e ter que estar com o texto na ponta da língua, comecei a pensar: eu não sei fazer isso. Para mim, o texto vinha com o ensaio. Tu tens que saber o texto. Todos nós, exceto o Pingo (que já trabalhou com o Luciano), viemos deste teatro mais contemporâneo. É um diretor para dizer de boca cheia. Se eu der um passo errado naquela escada, ele vai me dizer. Ele vem da delicadeza da construção. Me fez reapaixonar pelo teatro. Ele traz referenciais do mundo todo para dizer porque algo não está legal, que há outro caminho. Este espetáculo é uma aula para nós, jovens atores. Com este elenco, com o Pingo, meu marido, eu estou feliz pra caramba.

Quem é Jon Fosse para ti?
Luciano Alabarse: 
Vi uma foto dele dia desses. Ele é totalmente diferente do que eu pensava. Ele é meio gordinho, tem um cabelo mais comprido que eu imaginava, meio baixinho. Ele me lembra dois autores: Samuel Beckett e Thomas Bernhard. Beckett pelo vazio, pela falta de ação. Às vezes não acontece nada, aristotelicamente falando e o Bernhard por que ele repete, repete, repete. Esta circularidade me encanta, esta reincidência de frases inteiras iguais em situações diferentes. Isto a gente potencializou na montagem. O teatro é bom quando ele não cumpre as expectativas dos outros, mas abre perspectivas para a gente mesmo. Também sem que isso seja uma camisa de força. Tem que ser natural, espontâneo. Eu insisto que para mim os aspectos positivos de fazer este trabalho são o dramaturgo ainda não montado e conhecer esta turma jovem, além de trabalhar com pessoas que me dão segurança e serenidade, como o João Fraga e o Maurício Moura na luz. Continuo achando que o teatro é uma bênção. A gente vai ter um prazer enorme em trazer pessoas para conhecer este dramaturgo e eu para mostrar esta turma de jovens atores tão dedicados com tanta vontade de acertar. Fazer que eles conservem as conquistas deles. Tem que ser diferente, mas mostrar o pactuado. O que eu não gosto é quando eles não entendem o que eu falo.

Como tu inseres a tua trajetória para criar este personagem do baterista da banda?
Frederico Vittola:
 Eu tenho 36 anos e o teatro ainda é uma coisa recente na minha vida, desde os 30. Quando surgiu o convite de trabalhar com o Luciano, eu vi uma grande oportunidade, pois ele sempre trabalha com um elenco mais costumeiro e eu estava neste grupo. Com a leitura do texto, veio o primeiro susto. Este personagem do baterista é um cara muito violento. O texto tem marcas bem específicas de violência física. Isto foge muito da minha natureza. Ao mesmo tempo que vem o medo, vem um grande desafio de transformar o personagem neste cara violento, impulsivo, prestes a estourar a qualquer momento. Também pelos meus colegas. Eu já tinha trabalhado com a Midi (Miriã), com o Leo. Com o Pingo eu trabalhei no Música de Cena e o Nicolas foi a primeira vez, mas eu já conhecia bem o trabalho dele.

O teu trabalho para compor este vocalista junkie teve que raízes?
Nicolas Vargas:
 Eu fiz um musical com o Thedy Corrêa e com o Zé Adão Barbosa, que foi ‘O Apanhador no Campo de Centeio”. Eu não cantava nada. Aí fiz uma preparação, comecei a cantar e afinar.  Depois de uns quatro anos, finalmente voltei a trabalhar um personagem que lida com música. Este trabalho foi um presente do Pingo, do Luciano, de todo o elenco. Não vou mentir, estou numa posição confortável, pois o rock´n´roll é parte de mim. Por sorte, o Luciano não deixa confortável e faz eu querer sempre melhorar. A musicalidade faz parte da minha vida. Piano, voz, em todos os trabalhos que eu faço, eu sou musical. Também gostei muito que fizemos trabalho de leitura de mesa, lá em julho de 2018. Foi a minha primeira vez de trabalho de mesa.

Como o ator com cara e cabelo de roqueiro, como é estar nesta peça com este diretor e elenco?
Leonardo Koslowski: 
O cabelo comprido eu já tenho há algum tempo. Eu tenho perfil de roqueiro. O meu caminho da música começou antes do teatro. Sempre gostei de rock, tocar guitarra, violão. O baixo começou por causa da peça. Foi um desafio entender mais o instrumento. Foi uma surpresa absurda ser chamado para este projeto. O único que eu conhecia era o Fred. A gente fazia uma peça no DAD/Ufrgs, “In on It”, texto do Daniel MacIvor. O resultado desta peça nos trouxe até aqui. O Pingo assistiu e gostou da nossa dinâmica. Me senti 100% abraçado e acolhido pelo elenco e pelo Luciano. Sou o mais novo, tenho 22 anos. Tudo para mim é aprendizado e novidade.