Marcas históricas no clima

Marcas históricas no clima

Meteorologista analisa as ondas de calor dos últimos meses

Christian Bueller

A meteorologista da MetSul, Estael Sias

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Na virada do mês de setembro para outubro, o Brasil assistiu a um aumento excessivo de calor que ultrapassou os 40 graus em vários estados. Essa bolha pode se tornar uma constante nos próximos períodos? Deveremos nos acostumar? Para falar sobre as mudanças no clima e seus impactos, bem como dos efeitos do fenômeno La Niña, que já chegou por aqui, o Correio do Povo entrevista a sócia e meteorologista da MetSul, Estael Sias.

Como a meteorologia previu, alguns estados, como Mato Grosso, São Paulo e, até mesmo, locais na região Sul tiveram os dias mais quentes de 2020 recentemente. É normal? Por que isso ocorreu?

Não é algo que pode ser tratado como normalidade. Claro, foi construída ao longo dos últimos meses que deflagraram uma ampla estiagem em estados do Centro-Oeste, Sudeste, do interior do Nordeste e parte do Paraná. Não aconteceu de uma hora para outra, o que chama atenção neste evento histórico. É um período de pouca chuva em algumas destas regiões e é comum haver queimadas por serem áreas muito secas, a temperatura é alta em decorrência disso. Perde-se o controle da amplitude das queimadas porque se alastram em função do vento. Acontece em todos os anos, nesta época do ano. Porém, entre setembro e outubro, os focos de queimadas aumentaram muito. O solo e a vegetação estão secos, não só a atmosfera. E nesta onda de calor severa que chamamos de canícula, a atuação desta massa de ar quente é muito extensa motivada pela estiagem. Foram mais de dez dias consecutivos com marcas acima de 40 graus numa grande área, que incluiu, além dos estados citados, Goiás, Minas Gerais e Tocantins.

Ocorreu também fora do país?

Paraguai e Argentina, nem se fala, tiveram recordes absolutos de temperatura. Foi um período muito prolongado com números altos. Em um dia, 44, 45 graus já seria excepcional. Além disso, a umidade relativa do ar era muito baixa. Voltando ao Brasil, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás tiveram índices abaixo de 10%, comparados a valores em áreas de deserto. Tivemos marcas históricas no continente sul-americano, onde se reescreveu a história de temperatura máxima.

Deve ocorrer novamente? 

Nas próximas semanas, não. Porque a canícula se forma em um período prolongado, com persistência de um quadro severo de estiagem. E começará a ter um padrão de mais chuvas frequentes em toda essa região, inclusive no verão. Aos poucos, será restabelecida a umidade do solo, da vegetação e, também, do ar. Então, com umidade e nuvens, as temperaturas não alcançam 40 graus. Eventualmente, se o verão for seco, sim, mas não é o que se espera para a próxima estação. Não deverá ter mais de dez dias com temperaturas acima de 40 graus e extremos como tivemos.

As queimadas são preponderantes para a causa destas marcas altas de temperatura ou vice-versa?

É uma pergunta interessante. Todo ano tem queimadas, uma situação climatológica clássica, sem chuva nos meses de inverno no Centro-Oeste e parte do Sudeste. Em 2020, isso aconteceu mais cedo e vai terminar mais tarde. Na virada do mês, quando houve aquele fenômeno de massa de ar quente extraordinária, tivemos um sistema de alta pressão atmosférica que gerava uma corrente de vento de cima para baixo. E, ao encontrar uma superfície com ar muito seco e umidade baixa, se formou um mecanismo de feedback em que o ar seco intensificava o calor e o calor intensificava o ar seco. Resultou em um circuito que só poderia ser quebrado com a chegada da chuva. No início, portanto, o ar seco provocou as queimadas, mas, no final, ambos se provocaram. A severidade das queimadas, claro, é resultado da mão humana, mas a condição atmosférica de 2020 era especial e favorável a ocorrências em que qualquer faísca já bastaria para iniciar uma queimada.

E a La Niña? Que impactos pode ter no Brasil e no Estado?

Desde setembro, a La Niña se configurou no Oceano Pacífico equatorial, um resfriamento que se mantém persistente por várias semanas e, quando começa a impactar no comportamento da atmosfera, é decretado o início da sua influência, que aconteceu em 12 de setembro. A mais recente projeção para os próximos meses indica uma La Niña de forte intensidade, especialmente, entre novembro e janeiro. Poderá avançar seu tempo de atuação até meados do outono de 2021, um pouco mais prolongado. Dizer que o fenômeno vai ser forte não é indicativo direto dos seus efeitos, há outras variáveis, como a dimensão da estiagem e a área de abrangência. No Estado, no sul do Brasil de uma maneira geral, a La Niña tende deixar a chuva mais irregular e mal distribuída na primavera, um período mais favorável a tempestades, às vezes, volumes muito altos de precipitação em um curto espaço de tempo, associado a vendaval e granizo. E os meses do verão também terão o impacto de redução da chuva, já falhada e irregular, características desta estação no RS. A chuva é resultado das “pancadas de verão”, , acontece em determinado bairro de um município e, em outras áreas não chove.

Quando poderá ter estiagem de novo e o quanto isto afetará o agronegócio gaúcho?

O modelos colocam que, a partir do meio do mês de novembro e até dezembro, deveremos ter estiagem, o que vai coincidir com períodos de forte aquecimento, calor com marcas ao redor de 40 graus. Não quer dizer que todos os meses de verão serão secos, não é raro em anos de La Niña termos mais chuva entre janeiro e fevereiro. Tomara que aconteça em 2021, o que será importante para o setor agrícola, especialmente para a soja. Outro impacto são as ondas de frio tardias, temperaturas abaixo de 5 graus em muitos municípios gaúchos o que pode se repetir no início do mês de novembro, quando as massas de ar polar, que geralmente ficam confinadas no sul do continente, conseguem avançar em latitudes menores. Com a influência do La Niña, viajam até o RS, trazendo um período de algum frio tardio e, eventualmente, um episódio de geada tardia, o que estamos monitorando e acompanhando para as próximas semanas.


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