Marcelo Degrazia: "O grande desafio da literatura é colocar a pessoa em contato consigo mesma"
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Marcelo Degrazia: "O grande desafio da literatura é colocar a pessoa em contato consigo mesma"

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Marcelo Degrazia recentemente venceu o Prêmio Paraná de Literatura. Foto: Elenita Malta Pereira / Divulgação / CP


 

Marcelo Degrazia, 56 anos, nasceu em Itaqui, onde passou a infância. É formado em Letras e Direito e viveu em Porto Alegre e São Paulo, hoje mora em Nova Petrópolis. Com suas obras literárias, foi finalista duas vezes do Prêmio Açorianos de Literatura e recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura. O mais recente reconhecimento foi o Prêmio Paraná de Literatura 2017, com “A bandeira de Cuba”.

Correio do Povo: Como foi vencer o Prêmio Paraná de Literatura 2017, com “A bandeira de Cuba”, na categoria conto?
Marcelo Degrazia: Fiquei muito feliz, é o reconhecimento de uma vida de trabalho na área, com limitações de toda ordem que repercutem na vida particular. O prêmio dá um sentido a tudo isso, é também uma satisfação familiar e social, mas não devo achar que tudo se resolve com ele, pois a qualidade do livro, sozinha, não garante o futuro seu e do autor. Até porque, gosto de pensar que se fossem outros os jurados, com outros critérios de avaliação, o vencedor poderia ter sido outro. Afinal, estamos sempre enviando nossos textos para editoras e concursos. Já fui finalista no Prêmio Sesc de Literatura e no Açorianos. Como disse Woody Allen, em Match Point, temos medo de encarar que uma grande parte da vida depende da sorte. No tênis, quando a bola bate na fita e sobe, há duas possibilidades. Às vezes ela vem para trás, e perdemos. Dessa vez ela foi para frente.

CP: Como surgiu a ideia do livro?
Marcelo Degrazia: Um dia me dei conta de que tinha vivido o bastante para já ter morrido umas mil vezes, no mínimo. E ainda levava na memória episódios e contos que me acompanhavam havia anos, em alguns casos, décadas. Eram histórias da mesma época, mesmo lugar (Itaqui – no livro, São Donato – anos 1960), já meio caminho para dar unidade ao material. Escolhi o ponto de vista de um menino, e como escrevi a primeira versão dos contos em 44 dias corridos, isso também colaborou para um tratamento estilístico mais uniforme.

CP: Por que “A bandeira de Cuba”?
Marcelo Degrazia: É o título de um dos contos, em que a bandeira desempenha papel importante. Tem aí um dado autobiográfico: aos 8 anos pendurei a bandeira de Cuba na sacada de nossa casa, em Itaqui, o que causou certo alvoroço, afinal era 1969. Por sua relevância histórica e política, a bandeira serve de motivo para o aporte de materiais e reflexões sobre o regime militar da época, mas sem tom panfletário, pois esse não é o assunto do conto nem do livro. Escolhi-o para título, sobretudo, porque funciona como contraponto reflexivo ao momento atual do país, em que um nome como Cuba, por exemplo, não pode circular sem receber aporte enorme de preconceitos. Os extremistas não encontrarão argumentos, no livro, para a prática da caça anticomunista nem para qualquer tipo de idolatria.

CP: Do que trata a obra?
Marcelo Degrazia: Apesar de ambientado na segunda metade do século passado, os temas dos contos são atuais. Não é de hoje que pessoas são perseguidas, agredidas e até assassinadas por suas opções políticas, cor da pele ou orientação sexual. Por se passar na fronteira com a Argentina, na imaginária São Donato, os contos problematizam nossa identidade brasileira, gaúcha e pessoal. Um exemplo disso é o conto “Um incidente na fronteira”, em que a visão do menino sobre a geografia política do Rio Grande do Sul não coincide com a visão que uma menina de Alvear (do outro lado do rio Uruguai) tem de nosso estado. Embora graves e tratados de maneira adulta (o livro não é infantojuvenil), os temas são vistos pelo olhar de um menino em meio aos conflitos pessoais, familiares e sociais comuns em nosso país.

CP: Quais tuas influências literárias? 
Marcelo Degrazia: Pela natureza do prêmio, vou me limitar aos contistas. Simões Lopes Neto é o começo de tudo, o prazer da leitura em seu estado puro. O mesmo que encontrei em “Decameron”, de Giovanni Boccaccio, lido também no final da adolescência. É o mesmo gosto das leituras da infância, de “Vinte mil léguas submarinas”, de Júlio Verne, e “A Velha Árvore”, da Pearl Buck, a “Gente e Bichos”, de Érico Verissimo, o primeiro livro que lembro de levar comigo pelas ruas de Porto Alegre, aos 9 anos, como um amigo inseparável. Anos mais tarde, descobri ao acaso as imagens especulativas de Borges e o ritmo jazzístico de Cortázar, na antiga livraria Kosmos da Rua da Praia. Pelo primeiro, cheguei a Kafka e seu perturbador estranhamento da vida. Uma amiga me emprestou um livro de contos de Tchekhov, com a vida sofrida dos russos das classes desfavorecidas. Depois vieram Raymond Carver, Marcos Rey, John Cheever, Dalton Trevisan, Isaac Bábel, etc.

CP: Qual a importância do Prêmio Paraná de Literatura?
Marcelo Degrazia: É um prêmio nacional de grande prestígio na área, promovido por uma biblioteca pública de estado. Os manuscritos não levam o nome dos autores, apenas o pseudônimo. Infelizmente, prêmios de outros estados não seguem tais critérios. A edição deste ano foi a mais democrática, pois as inscrições foram via Internet, gratuitas, poupando celulose e facilitando o acesso. Prova disso foi o salto do número de inscritos, de algumas centenas para mais de dois milhares de concorrentes, o que valoriza ainda mais o concurso. Espero que facilite a publicação de meus outros livros de contos e também dos romances.

CP? Qual a função social da literatura hoje?
Marcelo Degrazia: Penso que a função social da literatura, hoje e sempre, é questionar as condições da vida humana e do planeta. Elas são tantas quantas são as famílias, as sociedades, as culturas, as civilizações. E a história nos mostra que os modos de humanização do indivíduo estão diretamente ligados às condições econômicas, culturais e sociais das comunidades, nações e países. E isso é construído, modificado e até destruído ao longo da história. Ou seja, não há ponto fixo, a não ser em algumas dimensões ilusórias de intervalos de uma vida humana. E esses processos não são feitos sem conflitos, sem lutas, sem dor e sofrimento. A literatura nos ajuda a compreender isso tudo, pois desenvolve a sensibilidade e estimula a reflexão. Como disse Mário Quintana: “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

CP: Quais os desafios da literatura?
Marcelo Degrazia: O grande desafio da literatura é colocar a pessoa em contato consigo mesma, com a fonte humana de seus sentimentos, de onde vertem ciúme, inveja, ódio, amor, medo da morte etc. Evitando o sectarismo ético e moral e a propaganda ideológica, deve também enfrentar grandes questões atuais: a descolonização do imaginário, o individualismo exacerbado, catástrofes climáticas, o poder hipertrofiado das corporações, o discurso hegemônico dos grandes meios de comunicação, os movimentos migratórios e a xenofobia, o crescimento do fanatismo religioso, terrorismos de grupos extremados e de estado, o ataque aos direitos socioambientais, a precarização do trabalho, a opressão étnica, o machismo, a patrulha sexual, etc. Só assim a literatura ocupará lugar relevante na sociedade.

CP: Como competir com as novas tecnologias?
Marcelo Degrazia: As novas tecnologias (cinema, rádio, televisão, Internet) deslocaram a literatura do centro, mas nem por isso diminuiu seu poder de abordagem das questões humanas. A literatura tem que encontrar modos (editoras alternativas, grupos na rede, políticas públicas na área da educação, saraus, feiras, etc.) de se integrar mais aos movimentos atuais da sensibilidade. Lugares de resistência, como os prêmios literários, espaços remanescentes na mídia tradicional, oficinas literárias, revistas e jornais da área, editores alternativos e agentes comprometidos com a qualidade são de suma importância. Mas é preciso mais. Não tenho a fórmula, mas com as mídias atuais, as entidades de escritores e seus coletivos (academias, sindicatos, etc.) pode-se procurar articulação maior, buscar os apoiadores sensíveis à causa, inventar estruturas alternativas de poder.

por Luciamen Winck