Melhor quadro de arbitragem do Brasil está no RS, diz novo presidente da FGF
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Melhor quadro de arbitragem do Brasil está no RS, diz novo presidente da FGF

Luciano Hocsman fala sobre o Gauchão 2020 e sobre os projetos para os próximos anos

Por
Carmelito Bifano

Luciano Hocsman permanecerá na presidência da Federação Gaúcha de Futebol até o final de 2023

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Após 16 anos servindo como vice-presidente da Federação Gaúcha de Futebol, o advogado Luciano Hocsman, foi aclamado na assembleia geral realizada em maio de 2019 para substituir a vaga do presidente Francisco Novelletto. Para conhecer melhor as ideias do novo mandatário da FGF, o Correio do Povo ouviu Hocsman sobre os projetos e mudanças que podem ocorrer no futebol gaúcho profissional, categoria de base e futebol feminino.

Correio do Povo: Quais são os projetos do Luciano Hocsman agora à frente da FGF?

Luciano Hocsman: Primeiro de todos é dar sequência ao trabalho feito pelo presidente Francisco Novelletto há 16 anos. Condução competente e brilhante, assim como aqueles que o antecederam. 

Temos algumas questões envolvendo categorias de base, especialmente. Algumas situações também com relação ao campeonato da segunda divisão, divisão de acesso e primeira divisão, mas precisamos trabalhar o Gauchão deste ano, que está próximo de iniciar. Será o nosso cartão de visitas. O presidente Novelletto deixou as coisas bem estruturadas, mas antes de implantarmos qualquer novo projeto, vamos tratar bem do Campeonato Gaúcho e as competições programadas.

Ao longo do ano, vamos buscar informações, captar dados e conversar com os clubes para viabilizar alguns projetos que temos no programa de gestão. Todo o debate será para que possamos entender a realidade dos clubes e das suas regiões. Depois de todo o debate, no segundo semestre ou 2021, vamos colocar os projetos que desenhamos.

CP: Depois de 16 anos como vice da FGF, qual a bagagem que você adquiriu e que será útil agora como mandatário?

Luciano Hocsman: Ninguém conhece tudo. O que temos é a possibilidade de antever algumas situações ou de questões que são corriqueiras, e pela época do ano, o que pode vir pela frente. Um exemplo pontual: estamos no início de temporada e alguns clubes podem ter dificuldades com as liberações dos seus estádios ou com os órgãos de segurança. Sabemos as dificuldades que eles têm no momento de inscrever ou transferir os atletas.

Esses últimos quatro anos dos 16 nos deram este tipo de conhecimento para que possamos antever a situação e não deixar o problema acontecer. No futebol, tem inúmeras surpresas, então, sempre pode ter alguma coisa que pode nos escapar. Então, é importante ter passado por essa vivência para poder assumir com um pouco mais de tranquilidade essa função que é extremamente desgastante e de uma responsabilidade enorme.

CP: Qual é a situação da federação que você assume?

Luciano Hocsman: A federação está muito bem estruturada econômica, administrativa e financeiramente. Temos uma equipe de funcionários competente e bem enxuta. Questões tributárias e impostos estão em dia. Temos um parcelamento de algo que foi herdado pelo presidente Novelletto.

Financeiramente estão com uma situação positiva. Especialmente, considerando que a federação paga todas as despesas dos clubes nas suas competições. E, assim mesmo, conseguimos gerar um resultado positivo, o que demonstra a capacidade de gestão do Novelletto e da sua direção.

Pego ela em uma situação, felizmente, bem diferente daquela que ele pegou. 


Luciano Hocsman (C) esteve junto com Francisco Novelletto desde a primeira eleição para a FGF - Foto: José Ernesto / CP memória

CP: Nos últimos anos a federação atacou problemas pontuais, principalmente, dos clubes do interior, como o gramado, a iluminação e a estrutura dos estádios. Em 2020, a FGF seguiu a mesma linha?

Luciano Hocsman: No final do ano, mais uma vez, fizemos um contrato de parceria com a maior especialista do Brasil em gramados porque o palco do jogo tem que estar em perfeitas condições. Comparando com outros estaduais, é motivo de orgulho estarmos com os nossos gramados entre os melhores.

No ano passado, fizemos algumas solicitações em termos de iluminação. Alguns terminaram os seus projetos no final de 2019. Então, os gramados estão sendo tratados e pedimos, na medida do possível, que algumas questões de estruturas como vestiários visitante e arbitragem fossem melhorados. Se eles estarão preparados, não tenho como dizer, mas fizemos a solicitação.

CP: Quais as novidades para o Gauchão 2020?

Luciano Hocsman: Além da fórmula (que utiliza a mesma do Campeonato Carioca) e dos nomes dos turnos, que são homenagens a grandes desportistas. Teremos uma taça diferente. Feita sob medida. Encomendada para que ela seja a taça do Campeonato Gaúcho ao longo dos quatro anos da gestão para que ela crie uma identidade visual. Uma identificação onde as pessoas consigam enxergar o desenho e saibam que aquela é a do Gauchão.

Fizemos uma mudança na logomarca da federação. Criamos junto com um compositor natural do Rio Grande do Sul uma música tema que era para ser exclusiva do Campeonato Gaúcho, mas ela ficou tão bacana que será usada em todas as competições da federação.

Iremos fazer também uma abertura para a competição e pode ser que façamos alguma coisa diferenciada para o encerramento da competição.

CP:Está  Preocupado com a questão da arbitragem, que costuma gerar muitas discussões durante o Gauchão?

Luciano Hocsman: Eu confio 100% no quadro de arbitragem da federação. Mil por cento na capacidade dos árbitros do Estado. Não é para puxar a brasa para o nosso assado. É convicção. Entendo que o melhor quadro do Brasil está aqui.

O Rafael Klaus foi o melhor árbitro do Brasil, mas se você analisar as escalas atentamente e ver os jogos de maior dificuldade técnica (nas competições brasileiras), tinha um gaúcho envolvido. Então, a escolha do melhor é pelo nível da nota que ele recebe, mas não se analisa a dificuldade do jogo.

Então, confio no quadro de arbitragem e na comissão (de arbitragem) também. A prova da confiança é que, depois de algum tempo, vamos ter a rodada dos clássicos, onde os quatro principais serão realizados no mesmo dia. Lógico, algumas situações vão surgir, mas a questão da arbitragem não me preocupa.


Luciano Hocsman durante discurso na primeira posse do presidente Francisco Novelletto - Foto: José Ernesto / CP memória

CP: Assumir a federação quando os presidentes dos principais clubes do Estado têm uma boa relação é um fato a ser comemorado?

Luciano Hocsman: Lógico que é importante essa relação amistosa que os presidentes têm. Se observarmos os últimos anos, as relações institucionais vêm melhorando. Os clubes conseguiram entender que precisam caminhar juntos no extracampo.

Sem dúvida alguma, enquanto eles não tiverem brigando auxilia bastante. Assim como irá auxiliar se a dupla Bra-Pel, Ca-Ju e Novo Hamburgo e Aimoré, enfim. Sempre é importante um bom relacionamento.

CP: Muitos comentaristas e jornalistas de opinião reclamam do nível dos clubes do interior, como a federação pretende auxiliar para o crescimento das equipes fora a dupla Gre-Nal?

Luciano Hocsman: Claro, independente da divisão, os clubes do interior são o carro chefe da federação gaúcha. Grêmio e Inter são extremamente importantes e indispensáveis para o futebol gaúcho. São motivo de orgulho para todos nós gaúchos, mas eles têm vida própria. Tem orçamentos interessantes, posicionamento nacional e internacional, mas precisamos olhar com mais cuidado para os clubes do interior.

Temos um cenário hoje, em termos de competitividade, que é importante, pois nove dos 12 clubes irão disputar competições nacionais. Isso vai na contramão da opinião daqueles que dizem que o nível dos estaduais são ruins. Uma competição que tem nove dos 12 disputando competições nacionais não pode ser ruim. “Ah, mas ele vai ter o mesmo nível da Liga dos Campeões da Europa?" Lógico que não.

Agora, franca e honestamente, não muda muito do nível médio do Campeonato Brasileiro. Então, estamos bem estruturados e nós, dentro das condições da federação, vamos dar o apoio e o suporte necessário para que o maior número de clubes do interior esteja envolvido em competições de nível nacional.

CP: Muitas pessoas reclamam da divisão do dinheiro pago pela emissora que transmite o Gauchão, onde a dupla Gre-Nal recebe uma quantia muito maior que os outros concorrentes. Tem como equalizar melhor?

Luciano Hocsman: Temos que entender que todo e qualquer repasse de qualquer competição considera a questão comercial. Quem vende mais, tem direito a receber uma cota um pouco maior. No caso do Campeonato Gaúcho, a empresa de TV faz um pré-ajuste com a dupla Gre-Nal, no sentido de que uma porcentagem do bolo todo é dividida entre Grêmio e Inter. O restante é dividido de forma igualitária e compartilhado pelos outros clubes.

Se é viável alguma reformulação? O futebol não é estático. Quem sabe em algum momento podemos refazer uma renegociação que divida de uma forma mais equânime o bolo total. Seja ele, como se faz no Campeonato Brasileiro e na Liga Inglesa. Com 40%, 30% e 30%, mas é como tudo o que eu penso sobre a federação. Precisamos sentar, conversar e ver o que vai ficar bom para todo mundo.

CP: Uma tradição dos gaúchos nos últimos anos, em especial nas redes sociais, era acusar o presidente Novelletto de tomar atitudes por ser colorado. O senhor tem passagem pelo Grêmio. Teme a repetição desta atitude?

Luciano Hocsman: Temor não é a palavra certa. Esse período de federação e convivência no futebol nos dá uma certa bagagem e cria uma casca para que entendemos isso de uma forma tranquila. O torcedor é passional. Sem nenhuma crítica, mas muitas vezes ele é guiado pelo dirigente, que é um formador de opinião. Sabemos que muitas vezes a crítica direcionada a uma instituição é uma terceirização da culpa e um desvio do foco da situação.

Temos que entender esse lado. Trato isso quase como um folclore do torcedor. Alguma coisa que faz parte da corneta e do dia a dia do futebol. O importante é que eu consigo, desde sempre, deitar no travesseiro com a cabeça tranquila que aqui as coisas sempre foram e vão continuar sendo tratadas com respeito, cordialidade, imparcialidade, retidão de conduta e com transparência.

Isso é que nos movimenta. Se o torcedor quiser brincar com o imaginário, é direito deles. Se formos ler tudo o que a rede social nos diz, vamos deixar de viver.

CP: Algum problema sobre a liberação dos estádios?

Luciano Hocsman: Não, a princípio, estão todos adequados. Uma modificação da lei do Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI) faz com que ele, quando é expedido, tenha uma duração de cinco anos. Isso é um passo importante para que os clubes obtenham os quatro laudos que a portaria do Ministério dos Esportes exige.

O departamento de competições me deu um cenário que não vejo problemas. Um clube tem uma punição do TJD para cumprir de portões fechados, mas é uma decisão judicial, então, não vejo problema algum.

CP: Alguma coisa o preocupa sobre o Gauchão?

Luciano Hocsman: Estou seguro pelo campeonato. Vejo as equipes estruturadas e alinhadas para a competição. Recentemente, a arbitragem fez a sua pré-temporada. Se não confiasse na equipe que me ajuda a gerir, estaria preocupado. Confio na equipe da federação, na direção e no trabalho que vem sendo feito pelos clubes. Não estou preocupado, mas ansioso para ver a bola começar a rolar.


Hocsman e os vices presidentes Luiz Antônio Lopes (e),ex-presidente do conselho deliberativo do Inter, e Antônio Dal Prá, ex-presidente do Ypiranga, de Erechim

CP: Como o senhor vê os dois principais clubes do Estado na iminência de utilizar times alternativas na principal competição a FGF?

Luciano Hocsman: A federação não pode ter interferência na gestão desportiva dos seus clubes. Se formos pensar na questão técnica, talvez isso irá gerar um desequilíbrio na competição, já que algumas equipes irão enfrentar Grêmio e Inter descaracterizados.

Ach que diminui um pouco, pois são dois turnos. Fui ensinado que somos responsáveis pelos nossos atos. Se tem as comissões e as direções e eles considerarem que dá para fazer, eles assumem seus atos e nós, da federação, os nossos.

CP: Quais são os projetos para as categorias de base?

Luciano Hocsman: Ao longo do primeiro semestre, vamos coletar informações para entender quais são os projetos vinculados aos clubes ou aqueles que não joga o profissional. Analisar as estruturas. Ver as condições de vestiário e gramados. Econômicas, inclusive, para mapear o cenário.

Temos uma competição específica com um número muito grande. Talvez, possamos fazer uma espécie de ranqueamento e fazer com que os clubes invistam nas categorias de base. Elas são o esteio do futuro do clube. Ele pode se retroalimentar com a reestruturação das categorias de base.

Neste primeiro ano, se não conseguirmos mudar isso, vamos buscar esses dados, com base em um pré-projeto que existe. Seguindo a linha de gestão, vamos chamar representantes das diversas regiões do Estado que tenham categorias de base, vamos conversar, ver a viabilidade e fazer as adequações necessárias para que o projeto saia do papel.

CP: Como é gasto o dinheiro arrecadado pela federação? Quais são os custos que a FGF paga que aliviam a caixa dos clubes?

Luciano Hocsman: Arbitragem de todas as competições, menos a da base. Muitas vezes, na base, muitas vezes quem está por trás não é o clube, mas o empresário que tem que vincular o atleta que lhe pertence a determinado clube.

Se não a federação não vai beneficiar o clube, o empresário que arque com a despesa. A arbitragem é paga 100% pela federação, inclusive, taxa de viagem, diárias e outras. Registros de contratos. Taxas administrativas. Taxa de bola e tudo mais que aparecer vinculada a competição, a federação arca com isso e não cobra nenhuma taxa, em especial, os do interior.

Não cobramos a taxa de borderô. Só o imposto advindo do borderô, que representa um valor significativo para os clubes. Além de todo o auxílio administrativo, em relação as taxas, a federação estipulou um valor fixo que não será destinado aos clubes. Eles apresentam as notas fiscais e a federação ressarce as despesas. Se com transporte, alimentação e outros. Mas, somente com a apresentação da nota.


Luciano Hocsman quer criar um projeto social na FGF para ajudar a população carente e descobrir novos craques pelo Estado - Foto: Ricardo Giusti

No Campeonato Gaúcho, cobramos um valor ao contrato de televisionamento e, é esse valor, que faz com que consigamos gerir e propor isso aos clubes. Com diz o Novelletto, isso faz com que os presidentes de outras federações fiquem um pouco bravos conosco. É uma forma de gerir.

Uma das grandes injustiças que sempre se fez é dizer que a federação não ajuda. De nada adianta dar uma cota de R$ 50 mil e cobrar todas as taxas.

CP: Na última pergunta, abro o espaço para o senhor acrescentar algum tema que não foi questionado ou tratado durante a entrevista.

Luciano Hocsman: O que acabamos não conversando é que dentro de todos os olhares e situação que conversamos sobre os clubes pequenos e do interior não falamos sobre a necessidade das federações de ter um engajamento social importante. A sociedade de diversas formas concede coisas para a federação.

Os órgãos de segurança ou o próprio torcedor que vai ao estádio, contribuiu com o clube e que nos dá audiência e visibilidade as nossas competições também nos dão. Então, pedi para o marketing e para o departamento de competições desenvolverem situações que nos permita o engajamento com comunidades mais vulneráveis socialmente.

Temos um projeto interessante com escolhinhas voltadas para entidades vulneráveis. Tomara que tenhamos o investimento necessário para fazer isso viável e possível. É algo que tenho como uma das metas para os próximos anos.

A ideia é desenvolver com as prefeituras de cidades que tenham faculdades. Vamos levar um pessoal especializado para dar o treinamento e a metodologia. Além das bolas e o equipamento necessário. Desta forma, fazer com que a comunidade mais carente tenha um desenvolvimento adequado das escolhinhas para que eles descubram novos talentos.

Este novo talento será encaminhado para o clube da sua comunidade para que ele possa ser melhor lapidado. Contribuindo desta forma e com os equipamentos, a gente faz com que as comunidades se envolva com a federação. Além de ser uma forma de devolvermos um pouco daquilo que recebemos.


Luciano Hocsman assumiu a presidência após 16 anos no cargo como vice na vaga de Francisco Novelletto - Foto: Raul Pereira / FGF / CP memória