Os desafios da Educação em 2021: "Tecnologias não substituem o primordial, a sala de aula"

Os desafios da Educação em 2021: "Tecnologias não substituem o primordial, a sala de aula"

Especialistas analisam como superar no próximo ano as dificuldades nas áreas mais atingidas pela pandemia em 2020

Christian Silva

Iana Gomes de Lima fala sobre suas impressões a respeito dos impactos da pandemia

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Alunos e professores, distantes uns dos outros, separados por telas de computadores, tablets e celulares, como uma forma de, ao menos, conseguirem compartilhar, mesmo que virtualmente, um ambiente parecido com o escolar. Com a pandemia, a Educação precisou se adaptar ao longo de 2020.

Ao apagar das luzes deste ano atípico, é chegada a hora de pensar como superar os desafios que se desenham em 2021. Para isso, o Correio do Povo conversou com a professora adjunta da Faculdade de Educação da Ufrgs, Iana Gomes de Lima, que tem experiência na área de Políticas Educacionais e Sociologia da Educação para falar sobre suas impressões a respeito dos impactos da pandemia e projeções para o próximo ano.

Em um ano de 2020 totalmente atípico, com a alternativa das virtuais, acredita que seguirá desta forma no ano que vem ou as aulas presenciais voltarão?

Como estão se desenhando as políticas públicas neste momento, é bastante provável que tenhamos aulas presenciais em 2021, mesmo que não tenhamos vacinas nem condições sanitárias para isso. Provavelmente, teremos momentos de fechamentos e reaberturas, pelo que as pesquisas demonstram, o que nos levam ao ensino híbrido, uma terminologia que até considero ruim, com alguns encontros virtuais e outros presenciais.

Como avalia as aulas virtuais deste ano?

Tendo em vista as desigualdades no cenário social brasileiro, temos observado que estas aulas virtuais são só para alguns, majoritariamente, a alunos e alunas da rede privada. Falo na Educação Básica, em que estas desigualdades se aprofundam. Mesmo com todas as dificuldades que isso represente emocionalmente, ao menos, estes alunos têm acesso. O que é muito diferente das escolas públicas, principalmente, naquelas que estão em zonas de vulnerabilidade social, nas partes periféricas da cidade. Temos notícias de que uma esmagadora parte dos alunos sequer acessa as atividades propostas. O que dirá aulas virtuais.

Diante desta realidade, o Brasil está pronto para dar este salto que mostrou tão necessário no âmbito de uma tecnologia em favor da educação?

Enquanto não houver investimento real na educação, não há esta possibilidade, nem a médio nem a longo prazo. E não falo tão somente sobre recursos financeiros por aluno para ter uma busca de qualidade e salários dignos e não parcelados a professores e professoras. Mas, também, investimento em políticas educacionais e sociais. Porque um dos processos que as escolas públicas vêm sofrendo, o que se profundou durante a pandemia, é o que alguns autores chamam de desescolarização da escola. Deixou de ser apenas um lugar de ensino e aprendizagem, o grande papel da escola, e passou a ocupar o espaço que seriam de outras instituições estatais, especialmente as de cunho da assistência social. A escola ocupa esta lacuna já que não temos políticas sociais neste sentido. Durante a pandemia, muitas escolas arrecadaram cestas básicas para as famílias daquela comunidade.

As aulas por meio de lives ou gravadas no modo EAD para serem assistidas posteriormente. O que acredita que veio para ficar? O formato virtual deu certo?

O uso da tecnologia reforçou o quanto a escola é esse lugar, da pluralidade, do papel da sala da aula na convivência com os outros e outras e com as diferenças. O que vai ficar é o uso de alguns recursos tecnológicos para complementar o que é visto em sala de aula. As lives possibilitam que pessoas que estão lugares muito distintos dialoguem, o que é muito bacana. Algumas gravações de aula podem permanecer e se utilize, também, como material complementar. Mais do que nunca, especialmente para algumas etapas da educação, as tecnologias não substituem aquilo que é primordial, que é a sala de aula.

Neste contexto, entra o tema das desigualdades sociais, não é?

Sim, algumas tecnologias vão ficar para determinadas sociais, para quem tem acesso à internet. Tomamos como algo que se deu para todo mundo durante a pandemia, que ainda não acabou, mas foi uma parcela da população que teve acesso. No Ensino Superior, isso se deu um pouco mais porque tem uma questão pedagógica importante: nós, adultos e adultas, já construímos ao longo de nossa escolarização como é que a gente aprende – isso, inclusive, aprendemos na escola. As crianças da educação básica, além de estarem aprendendo conteúdos novos, também estão construindo como aprender com a tecnologia. Isso dificulta à distância.

Dá para dizer que 2020 foi um ano perdido? Foi possível ensinar às crianças? Não será preciso retomar conteúdos no ano que vem?

A ideia de ‘ano perdido’ está mais vinculada a um pressuposto economicista. Infelizmente, seguimos atuando com a lente da produtividade, não só econômica, mas também pessoal. 'Temos que seguir produzindo, apesar do que está acontecendo'. Outras perspectivas seriam mais importantes neste momento. Foi ano atípico, um ano diferente, um ano de outras aprendizagens. Falando em educação, mesmo para os alunos e alunas, especialmente os da Educação Básica, que tiveram aulas este ano, algo precisará ser retomado em alguma medida no próximo ano. Professores e professoras estão muito cientes de que não foi o mesmo processo de ensino se houvesse sido presencial. E, de novo, não tem como falar nisso sem tocar na questão da desigualdade social. Não ter que se preocupar em ter comida à mesa todos os dias é algo que facilita muito para que a criança ou o jovem esteja focado na sua escolarização.

E os professores também precisaram de adequar. Há relatos de professoras que choravam antes de gravar os vídeos das aulas, questionando sobre o seu próprio ofício. Qual a análise sobre a situação desta classe, tão impostante e tão pouco valorizada?

Fundamental esta pergunta. Foi um momento de muita instabilidade, por várias questões. Não houve nenhum tipo de formação para que trabalhassem com outras metodologias de ensino. O trabalho pedagógico presencial não é o mesmo do que numa atividade remota. Isso dificultou muito. Não se tinha, historicamente, nenhuma pesquisa, nenhum amparo científico para dizer o que poderia funcionar ou não. Os professores, sozinhos em casa, tiveram que pensar em formatos. Foi um momento emocionalmente muito tenso para os docentes.

Desenvolveste um projeto de extensão neste sentido. Do que trata?

O título é Sala de professores e professoras: espaços de diálogo e formação em meio à pandemia Covid-19, junto com a professora Graziella Souza dos Santos, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A ideia é para que alguns professores da educação básica pudessem conversar e trocar experiências, para ver o que estava funcionando e se fortalecerem como coletividade. Foram dez professores de redes públicas (federal, estadual e municipal) e redes privadas do RS e SC. Esse trabalho coletivo praticamente deixou de existir. Já existia pouco por conta do desmonte que a educação pública vem sofrendo, não tem espaços para a formação e para reuniões pedagógicas.

Conta uma experiência de algum professor extraída deste projeto.

Um dos relatos trazia a preocupação com que os alunos e alunas estavam vivenciando em suas casas. O fato de não conseguir olhar no olho destes estudantes preocupava eles. A escola é o lugar da proteção e do acolhimento para muitas dessas crianças. Não saber o que fazer quanto a isso desestabilizou muito esses docentes. Outra questão é que a casa destes professores se tornou a escola, como fazer a divisão? Muitos com os filhos em casa tendo que dar aula ao mesmo tempo, com esta tensão, intensificando o trabalho docente. Especialmente para as mulheres, foi bastante cruel. Além disso, o trabalho doméstico ainda é feito predominantemente por elas. Pesquisas já mostram que nunca se produziu tantos artigos científicos no Brasil durante a pandemia. E, ao mesmo tempo, nunca as mulheres produziram tão poucos. Mostra que temos aí uma questão de gênero.

Quais as lições que ficam sobre este período de pandemia que poderemos levar adiante para superar as dificuldades?

É perceber o quanto o Brasil é um país desigual e que não podemos ignorar isso. Para isso precisa-se de investimentos, políticas públicas educacionais. Outra aprendizagem é o quão fundamental é o trabalho coletivo. O fato de os professores estarem desamparados foi um processo de muita instabilidade e maléfico na questão do planejamento pedagógico. Outra é a importância do espaço da sala de aula para a construção de aprendizagens efetivas, não só em termos de conteúdo, mas também de socialização e convivência. E, por fim, ver o quanto a educação está atravessada por questões econômicas. Muitas empresas, as Edu Techs (do inglês “education technology”) têm usado este período de crise para fazerem vários aplicativos e vendendo para prefeituras e estados e ganhando muito dinheiro. A educação está o tempo todo atravessada por interesses econômicos e, infelizmente, a lente da economia para as empresas é que tem pautado nossas políticas.

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