Os desafios do setor de Eventos em 2021: "Quem sobreviver, sairá mais forte"

Os desafios do setor de Eventos em 2021: "Quem sobreviver, sairá mais forte"

Especialistas analisam como superar no próximo ano as dificuldades nas áreas mais atingidas pela pandemia em 2020

Christian Silva

Adriane Hilbig é atual presidente executiva do POACVB

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Empresária do setor de eventos e turismo, Adriane Hilbig é atual presidente executiva do Porto Alegre & Região Metropolitana Convention & Visitors Bureau (POACVB) que, junto do Grupo Live Marketing RS, realizou eventos-testes, adaptados para o contexto da pandemia, na Capital e em outras cidades do Estado.

Ao apagar das luzes deste ano atípico, é chegada a hora de pensar como superar os desafios que se desenham em 2021. Para isso, o Correio do Povo conversou com Adriane sobre o futuro do segmento, que engloba dezenas de subsetores e precisou cancelar praticamente todas as atividades com a crise da Covid-19.

A área de eventos foi uma das mais afetadas durante a pandemia. Há números que possam exemplificar este impacto no setor?

É um segmento que abrange 70 setores da economia e movimenta, anualmente, R$ 210 bilhões de faturamento e gera R$ 48 bilhões em impostos, representando 4,32% do PIB do país. Conta com 60 mil empresas na cadeia de serviços e gera mais de 1,9 milhão de empregos diretos e terceirizados. Foi um ano difícil, realmente, mas temos ainda poucos números de pesquisa para que possamos dimensionar estas perdas. O último estudo no setor é lá de 2013. De lá até 2019, estima-se que o setor tenha crescido 6,5% ao ano. Somente no RS, o mercado movimenta, por ano, R$ 2 bilhões e gera 500 mil empregos diretos e indiretos. Segundo levantamento do Sebrae, a pandemia afetou 98% do segmento. É um número gigantesco. Os negócios ficaram paralisados.

Quais foram as maiores perdas com esta crise que ainda não terminou?

Além da parada dos negócios, obviamente, o que mais se perdeu neste contexto foi a troca de informações. O networking somente os eventos presenciais são capazes de trazer. São os bens mais preciosos do setor porque é a troca de experiências que faz as empresas crescerem, se tornarem fortes e terem parcerias fortes, em níveis nacional e internacional em busca deste crescimento. Não foi possível fazer. E isso é pouco tangível, mas muito importante. Essas redes de negócios que fazíamos no ambiente virtual não existem.

Muitos eventos foram cancelados devido às medidas decretadas pelos municípios e, mais recentemente, pelo governo do Estado. Com determinados protocolos sanitários, algumas destas festas, solenidades ou apresentações poderiam ter acontecido?

Nós promovemos o Porto Alegre Convention, realizador e idealizador destes eventos-teste em Porto Alegre, para justamente provar e comprovar que sim: com protocolos adequados é possível fazer. Muita gente tem pego a Covid-19 dentro de casa. Vão sair em algum momento, para ir no supermercado ou em uma farmácia e, se tiverem contato com o vírus e não tiver os protocolos ou os cuidados adequados com a saúde, vão contrair. Isso é passível. Ele está aí, vai ficar um tempão com a gente, vamos ter que conviver com o vírus. Então, é de bom senso que tenhamos campanhas de conscientização sobre os protocolos do que simplesmente o “fica em casa”. É possível fazer quase tudo com os protocolos adequados.

Um exemplo seria as confraternizações de empresa, agora que estamos no fim do ano?

Fechamento de ano, agora em dezembro. Se tivesse em um restaurante ou local de eventos, com protocolos, provavelmente, se cumpriria mais dentro da empresa ou em uma casa. Quanto mais informal o encontro, mais relaxados são os protocolos. Isso que temos que colocar na cabeça das pessoas e as campanhas deveriam ser neste sentido. Faça-se o evento. Com música ao vivo, mas com protocolo adequado, mantendo o distanciamento, usando máscaras e álcool gel. Pode-se limitar o número de pessoas, de horas e de uma série de fatores. Mas não cancelar. O cancelamento e a proibição abrem espaço para que os encontros clandestinos aconteçam. Isso precisa ser evitado.

O segmento dos eventos conseguirá se recuperar em médio e longo prazo?

Como setor, acredito que sim. Claro, depende do que entendemos por “se recuperar”. Mas consegue continuar andando. Estamos em um módulo de sobrevivência, então adianta muito trabalhar sobre captação de eventos como se fazia antes para o ano que vem, pois está tudo incerto. Tivemos, neste ano, um momento para pensarmos em nos reinventar, como empresas e entidades. Pensar o que será importante daqui para frente, de que forma poderemos apresentar um evento que, de uma forma geral, irá acontecer. Se aqueles organizadores entenderem que o destino é seguro, se o público, uma feira, um congresso respeitarem os protocolos.

Porto Alegre está em condições para receber eventos dessa forma?

A Capital mostrou, em setembro, assim como Gramado e Bento Gonçalves, que sim, é possível, durante a realização dos eventos-teste. Fizemos a capacitação do setor para que voltássemos ao trabalho de forma gradual e responsável. Acho que 2021 será a continuidade deste caminho: eventos menores, formatos diferentes e existe demanda para isso. É época de a gente reforçar as qualidades do nosso destino para que, cada vez mais, fique evidente que, se precisar ocorrer algum evento, Porto Alegre tenha grandes chances de sediá-lo.

Quais as inovações tecnológicas necessárias para esta readequação?

Uma das ações é que você possa buscar informações digitais: o que nós temos disponível, que tipo de serviço. Porto Alegre, por exemplo, é uma cidade de serviços, mas nem todos estão no formato digital. Dentro da área de tecnologia, temos muita coisa boa, mas muito ainda a melhorar. Cada empresa e entidade tem que fazer seu dever de casa e que possamos ter tudo isso compilado em um único lugar para apresentar a Capital.

Falaste em dever de casa. Quais as grandes lições desta pandemia que devem ser postas em prática daqui para frente?

A primeira delas é a união. Ninguém vence nenhuma batalha sozinho e estamos em uma batalha muito grande. O setor de eventos é amplo e conseguimos uma união bacana, mas as conquistas também devem ser proporcionais. Essa união é o maior legado que conseguimos até hoje. A outra lição é o associativismo, que nunca foi tão importante como neste momento. As empresas precisam procurar alguma entidade que faça sentido para elas, que possa as representar. Isso é muito importante para que possamos ultrapassar essa fase, trocar ideias, discutir, tentar achar soluções. Não somos uma ilha. E temos por princípios, principalmente aqui no Sul, ficar isolados, sozinhos, tentando resolver nossos problemas. E precisamos nos unir para que tenhamos uma solução o mais rápido possível. Espero que passe tudo isso logo e que consigamos vencer esse momento difícil e que a gente fique de mãos dadas.

O que você deixaria como mensagem para quem continua no ramo e, mesmo, para quem precisou exercer outras atividades por conta da pandemia, mas que gostaria de voltar aos eventos?

As pessoas devem aproveitar este momento para se unirem e aprimorar a gestão, para cuidar do caixa, reduzir despesa, fazer readequações. Se reinventar sem se prostituir para cuidar do mercado, ele vai voltar ao normal, ou o mais próximo do normal possível. Fazer qualquer negócio por qualquer valor é muito comum. Quem sobreviver neste período sairá mais forte. Mas, para isso, todo o mercado tem que estar forte. Cuide dos clientes, os mantenha em contato. Porque o cliente vai se tornar fiel a quem ele acredita e é o momento para construir este tipo de laço. Temos que mostrar de que forma estamos sendo protagonistas. Isso precisa ser mantido vivo na empresa e com os colaboradores. Fazer a transformação digital da empresa. Mostrar que estamos fazendo a coisa certa, que os ambientes são seguros. O vírus vai nos acompanhar e precisamos aprender a conviver com ele.

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