Poliglota esteve no Guiness

Poliglota esteve no Guiness

Por Giullia Piaia

Giullia Piaia

"Todos os idiomas que aprendi foram estudados em um período de três anos como autodidata no Líbano. Naquele tempo, eu tinha 13 anos. Meu sonho era trabalhar nas Nações Unidas como intérprete, mas acho que me iludi com as Nações Unidas. "

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Nascido na Libéria e criado no Líbano, Ziad Fazah, 69 anos, se sente brasileiro. Com uma passagem extensa por canais de televisão e outros tipos de mídia nos anos 1990, Ziad trabalha como professor particular em Porto Alegre, onde reside há mais de dez anos. Certamente o fato mais curioso sobre ele é que garante falar 59 línguas. A foto de Ziad já esteve no Guiness Book of Records durante alguns anos como maior poliglota do mundo.

Qual foi a primeira língua que o senhor aprendeu e com que idade?

Minha língua materna é o árabe. Depois, aprendi o francês na escola, com 6 anos. Depois do francês, foi o inglês, depois o alemão e, posteriormente, o russo. Sempre que eu optava por aprender uma língua estrangeira, primeiramente pesquisava sua origem. Por exemplo, quando aprendi russo, tinha a plena certeza de que poderia dominar as outras, tais como búlgaro, tcheco, polonês, etc. Então, todos os idiomas que aprendi foram estudados em um período de três anos como autodidata no Líbano. Naquele tempo, eu tinha 13 anos. Meu sonho era trabalhar nas Nações Unidas como intérprete, mas acho que me iludi com as Nações Unidas. Porque eu pensei que poderia acompanhar delegações estrangeiras, me tornar famoso. Quando tomei conhecimento de que trabalharia em um escritório e não ganharia 10 mil dólares e, sim, 3 mil, me desvencilhei das Nações Unidas. Quando se comenta que se fala inglês no Líbano, não é o povo, são pessoas em seus escritórios, o povo só fala árabe coloquial. Aos 13 anos, muitas pessoas que tinham lojas me chamavam para falar com os clientes. Eu optei por estudar esses idiomas porque isso é um dom divino, de Deus.

Como o senhor conseguiu aprender tantos idiomas?

Vamos supor que eu queira aprender mandarim. Primeiramente, ouço a pronúncia, através de um vídeo. Claro que não vou me importar com a escrita, vou me importar com a fala. Assim que eu dominar a pronúncia, começo a estudar a gramática meia hora por dia. Porque sei que ao estudar a gramática até seu fim, poderia posteriormente me expressar sem problema. Então, estudava gramática meia hora por dia, em duas semanas já dominava. Depois, memorizava por dia 50 palavras. Em dois meses, já armazenava uma gama de quase 1.500 vocábulos, que eram suficiente para eu me expressar em qualquer assunto. Naquele tempo, declamava no Líbano. Fechava as cortinas, declamava como se eu estivesse com alguém. Foi através disso que consegui aprender as línguas. E não mais tardar, a fala e colocar em prática com os turistas. Os turistas do Líbano me ajudaram. Por exemplo, havia um homem que tinha uma loja e sempre me telefonava para falar com os turistas. Assim aprendi tcheco e búlgaro.

Desde quando o senhor mora em Porto Alegre? Por que veio para cá?

Em 1971, quando eu tinha 17 anos, previu-se uma guerra civil no Líbano, que veio a acontecer em 1975. Falei para minha mãe: “vamos sair do Líbano o mais depressa possível”. Ela queria ir para os EUA, Austrália, mas acho que o país certo para o qual tínhamos que vir era o Brasil. Nós viemos para cá e o único idioma que eu não falava na época era o português. Ao chegar, aprendi em uma semana. Para quem já falava chinês, cambojano... Depois, em 1975, fui ao Rio de Janeiro, onde morei por 35 anos. Uma mulher encontrou um rapaz na rua e ninguém entendia nada do que ele falava e ele não entendia português, nem inglês. Eu falei com ele por telefone, comecei falando árabe, mas ele não entendeu nada. Falei com ele em turco, também não entendeu. Falei com ele em persa, mas ele respondeu em pastó, uma língua do Afeganistão. 

O senhor já foi entrevistado na televisão algumas vezes e sua habilidade com idiomas posta à prova. Em algumas das vezes, foi sugerido que o senhor não teria o domínio que diz ter dos idiomas.

Sempre as entrevistas me pegaram desprevenidamente nestes idiomas. Nunca era inglês, alemão, nada disso, era em polonês, pastó, vietnamita. Eu estava sempre despreparado. Em 1998, no Chile, me armaram uma emboscada, mas depois recuperei a minha imagem. A imprensa chilena começou a me criticar, mas a mídia brasileira me defendia. Mas eu não me importava, você tem o direito de criticar. Diziam “professor Ziad, quando um estrangeiro fazia uma pergunta, demorava a responder”. Não me disseram que haveria teste algum, apenas a entrevista. Só quando eu já estava em Santiago que me disseram que seria submetido a um teste. Naquela hora fiquei com vontade de voltar ao Brasil, mas não tinha como. Eu estava preocupadíssimo. Eles fizeram questão de dizer que o professor Ziad não sabe nada. Essa é a humanidade, infelizmente. Me pegaram desprevenidamente. Eu não dormi naquela noite, mas nada me abateu. Voltei para o Brasil e desafiei novamente os que me testaram, mas dessa vez com contrato assinado. Voltei ao Chile e limpei minha imagem. Provou-se que o professor Ziad foi o único que apareceu que sabe esses idiomas. Depois, começaram a aparecer mentirosos, dizendo que falam 22 línguas. Vá à televisão e prove. Ninguém jamais provou nada.

Hoje o senhor trabalha como professor de línguas. Que outras profissões o senhor já exerceu?

Eu já fui conferencista, no Rio, mas não é uma profissão sólida. Você ganha hoje e depois não ganha. Trabalhei como intérprete. A minha solidez profissional foi sempre o magistério, professor particular.

Qual a melhor parte de falar tantos idiomas?

Viajar turisticamente. Porque aí você se alegra com as pessoas. Você pode ajudar outras pessoas, como já ajudei também no passado. Não há emprego para quem fala vários idiomas. Ou se é espião, ou se trabalha em uma embaixada ou se é professor em universidade. Não fiz faculdade por uma única razão, por circunstâncias financeiras. Tive que optar pela minha subsistência.


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