Retrospectiva 2020: Abalados mentalmente

Retrospectiva 2020: Abalados mentalmente

Especialistas analisam os temas que mais marcaram 2020

Taís Teixeira

Andréia Sandri, psiquiatra e diretora do Centro de Estudos de Psiquiatria Integrada (Cenespi)

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O isolamento social, imposto como medida para conter o contágio do novo coronavírus, desencadeou consequências nos setores da saúde, economia, social, entre outros. Na saúde, além de tudo que envolve o tratamento para a cura física da Covid-19, podemos considerar que a saúde mental também foi atingida pelas circunstâncias estabelecidas para se proteger da doença. A psiquiatra e diretora do Centro de Estudos de Psiquiatria Integrada (Cenespi), Andréia Sandri, destaca o aumento significativo pela busca por assistência psiquiátrica devido à ansiedade, depressão e fobias, principais transtornos diagnosticados neste período. A especialista cita que idosos aparecem como os mais suscetíveis, pela distância dos familiares, e que as mulheres têm procurado mais suporte nesta questão do que os homens.  

Como ficou a saúde mental das pessoas com a pandemia? 

De uma maneira geral, em menor ou maior escala, todos sofremos com a pandemia, todos fomos acometidos por dúvidas, sofrimentos, perdas diversas...nossa saúde mental sofreu abalos, foi preciso  se reinventar.

Existe um crescimento da procura de assistência psiquiátrica neste período? Se sim, de quanto em relação à 2019?  

Sim. Cresceu muito. Não consigo te dar números exatos, mas várias instituições se organizaram para prestar atendimento gratuito à população e os relatórios mostram que a procura foi enorme. Foi um movimento muito bonito dos terapeutas e gestores para proporcionarem ajuda às pessoas que estavam precisando tanto, num momento tão difícil. Foi emocionante essa demonstração de solidariedade!

Quais foram os sintomas mais relatados e as doenças psíquicas mais desenvolvidas? 

Os sintomas ansiosos, inclusive quadros fóbicos graves, e depressivos foram os mais prevalentes neste período, como não poderia ser diferente.  

Entre toda a situação decorrente da pandemia, como restrições, isolamento, demissões, adaptações, a qual fator de atribui ser mais propenso aos distúrbios? 

É difícil elencar, porque o impacto de cada um desses aspectos na nossa vida é muito individual e multifatorial...quanto maior a nossa capacidade de adaptação e o suporte que temos  (família, amigos), menor será o impacto que cada um desses aspectos na nossa vida.  

Existe um grupo que esteja sendo mais prejudicado mentalmente em relação aos demais (idade, classe econômica, formação escolar, trabalhadores, desempregados...)?  

De uma maneira genérica, podemos dizer que os idosos tem sofrido muito com o isolamento, com a impossibilidade de passar mais tempo com filhos e netos e desenvolver suas atividades habituais (atividade física em academias, encontro de amigos, grupos de atividades específicas). A população mais economicamente favorecida pode usufruir do privilégio de morar em lugares confortáveis, com possibilidade de realizar home office com tranquilidade, pode se mudar para suas casas na praia ou na serra. Isso faz diferença na adaptação a essa nova realidade. Os trabalhadores da área da saúde foram muito impactados por toda essa situação, conviveram com uma quantidade enorme de tensão e estresse. Quem foi demitido, teve que, além de se adaptar a toda essa situação da pandemia, conviver com a realidade do desemprego, da privação, com a dificuldade de cuidar da família.

A procura maior é entre mulheres ou homens? 

Sem dúvida, as mulheres, também neste período, procuraram mais ajuda.  

Pessoas que estão desenvolvendo crises neste momento, são pessoas com predisposição genética a esses males e a pandemia foi um momento que potencializou a manifestação?

Todas as doenças são multifatoriais e a predisposição genética é um desses fatores. O outro fator muito importante no desenvolvimento das doenças é o meio em que a pessoa vive (qualidade desse meio, das experiências, das relações de afeto). A pandemia foi um estressor grave, advindo do meio, que, evidentemente, teve participação no aparecimento ou piora dessas crises, de forma individual. 

Pessoas com históricos psiquiátricos estão suscetíveis ao desencadeamento dessas doenças?

Pessoas que já tem histórico de doença mental, podem ter piorado, se desestabilizado, sim, com toda essa situação.

Existe um perfil com mais tendência maior para ter a saúde mental afetada neste momento?

Pessoas mais rígidas, com menor capacidade de adaptação ou que vivem numa situação de maior vulnerabilidade, tendem a adoecer mais e mais gravemente.  

O uso de medicamentos aumentou? Quais os tipos que estão sendo mais indicados? 

Sim. Aumentou o uso de medicação psiquiátrica, em especial ansiolíticos e antidepressivos.  

O que fazer para tentar manter a saúde mental estabilizada em meio a uma pandemia sem previsão de término? 

A ideia de uma situação tão caótica como a que estamos vivendo, e sem data para acabar, é muito angustiante. Não tem como ser diferente. O que ajuda muito é manter os cuidados sanitários que são recomendados e assim sabermos que estamos fazendo o possível para nossa proteção e das pessoas que convivem conosco. Tentar manter uma rotina de trabalho e atividade física, equilibrar uma alimentação saudável, cuidar da saúde, estar atento para o consumo de álcool e outras drogas, fazer uso da tecnologia para nos comunicarmos com a família, com os amigos, mantermos contatos com as pessoas que são importantes para cada um de nós.  


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