Retrospectiva 2020: Casa para morar e trabalhar

Retrospectiva 2020: Casa para morar e trabalhar

Especialistas analisam os temas que mais marcaram 2020

Taís Teixeira

Crismeri Delfino Corrêa, diretora da Possibilitá Desenvolvimento Humano e professora universitária

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A expressão “lar, doce lar" ganhou novo significado com a pandemia. Agora podemos dizer “lar, doce lar e também para trabalhar” em alusão ao modelo home office, que se caracteriza por pessoas que trabalham de suas casas, alterando o tradicional padrão presencial. A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio Grande do Sul (ABRH-RS), diretora da Possibilitá Desenvolvimento Humano e professora universitária, Crismeri Delfino Corrêa, entende que possivelmente o home office deve perdurar, mas aliado ao formato presencial, consolidando um sistema híbrido. As novas relações profissionais devem aferir mais autonomia para o trabalhador e exigir do gestor mais capacidade de delegação e de confiança na equipe. 

O modelo de home office veio para ficar?

Sim, mas possivelmente esse modelo passará para híbrido, que une dias de trabalho feito em casa e no local. Muitos segmentos não conseguem fazer home office direto, como a indústria, mas a área administrativa está bem adaptada. O home office representa a mistura do trabalho com a vida pessoal, situação em que não temos vida separada, portanto, é muito fácil o profissional trabalhar o tempo todo. É importante fazer uma lista de entregáveis e saber dar limite ao essencial. Nesse formato, também surgiu uma liderança dos novos tempos fazendo uma gestão diferenciada.  O discurso barulhento do comando e controle deu lugar efetivo para  autonomia e confiança na busca do resultado. Cada dia fica mais claro que não se controla as pessoas ,e sim, o que elas fazem, por meio de relatórios, projetos e entregas. 

Quais foram as vantagens e desvantagens para o trabalhador? 

As vantagens foram a redução do tempo de deslocamento, mais proximidade da  família, possibilidade de administrar melhor outros  papéis (mãe, pai,profissional...). O colaborador atua com mais protagonismo e mais autonomia nas tomadas de decisões, permitindo ainda que se estabeleça relações por desejo e necessidade, de uma forma menos controladora. Entre as desvantagens, cito a falta do convívio social e informal com os colegas, a dificuldade para investir no relacionamento com o gestor e demais integrantes, mudança de cultura de modelagem de trabalho, menor vínculo / engajamento com a empresa. Pode ser um problema se o ambiente de casa não for adequado ao home office. É preciso cuidar para não trabalhar mais horas e estar atento para manter o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.  

Quais foram as vantagens e desvantagens para o empregador? 

As vantagens se concentram na redução de custos sem a presença das pessoas, no avanço para uma mudança cultural de gestão, na valorização das entregas dos colaboradores, nas demandas por projetos e a otimização do tempo com reuniões mais efetivas e objetivas. Quanto às desvantagens, podemos considerar a falta de estrutura adequada para digitalização dos processos, o desafio de estabelecer processos bem definidos e exercer o controle por dados e relatórios. Sente-se a necessidade de implementar ações para ter maior engajamento, celebração e comunicação. A movimentação de móveis e equipamentos para casa pode ser entendida  como uma desvantagem do ponto de vista espacial. 

Houve queda de produtividade constatada com esse modelo? 

A produtividade vai depender das condições que o colaborador tem em casa para trabalhar, mas se  percebe que ao ter um bom ambiente para produzir, o ritmo aumenta ( pela falta de interrupção ) e torna-se mais produtivo.

Houve uma mudança no relacionamento entre gestores e suas equipes e também entre colegas? 

O relacionamento, no meu ponto de vista, necessitou de maior investimento, pois as pessoas ficaram mais autônomas. A tarefa em si não é o único ponto de contato entre gestor e colaborador, pois ela pode evoluir “sozinha”, por meio de projetos bem definidos. Desta forma, tem necessidade de marcar reuniões individuais e coletivas para criar engajamento. Também vejo como adequado  promover encontros entre os colaboradores, pois a tendência é fazer o trabalho individualmente.

As pessoas não trabalham mais horas por estarem em casa? 

Como já se está em casa, torna-se fácil ocupar todo o horário com o trabalho. Tem que saber dar limites para si e para as pessoas. Cada um tem um horário para trabalhar. Tudo se ajusta com um bom contrato de convivência. 

Como os gestores sentiram essa mudança? 

Os gestores que estavam mais adaptados com uma modelagem de gestão mais aberta e autônoma, pouco sentiram, pois apenas praticaram o padrão ao qual se identificavam. Já os gestores que necessitam de maior controle sobre as pessoas e processos sofreram mais, tiveram que modificar sua maneira de trabalhar, gerenciar projetos, controles para relatórios e criação de encontros frequentes virtuais para manter o engajamento. Também  precisou confiar no seu time e estabelecer processos ágeis e digitais para manter suas entregas.

Existe algum acompanhamento que tenha mostrado quais setores usaram mais a modalidade home office?   

Os setores que mais se adaptaram e tiveram condições foram o de Finanças, Tecnologia da Informação (TI), serviços profissionais, Administração Pública, Indústria, Mineração, entre outros.

Podemos pensar que isso pode ser um caminho para um aumento de contratação por  Pessoa Jurídica (PJ)? O modelo de contratação por carteira de trabalho pode sofrer que tipos de alteração num modelo de trabalho híbrido? 

As relações profissionais mudaram. Pode ser que o trabalho tenha um significado diferente e haja a possibilidade de seguir diversas carreiras simultaneamente, a partir do gerenciamento do próprio tempo,  da decidir sobre o que pode oferecer, a ampliação para outros jobs. Desta forma, creio que tenha mais PJ, já que o custo para o empregador também modifica.

Dez dicas para o trabalhador on-line:

  • Conheça a tarefa a ser executada;
  • Tenha iniciativa, autogestão e motivação; 
  • Persista na disciplina; 
  • Gerencie seu tempo; 
  • Exercite sua capacidade de decisão; 
  • Seja responsável com suas entregas; 
  • Seja resiliente ao erro, pois ele ocorrerá; 
  • Saiba dizer não;  
  • Tenha clareza das suas entregas; 
  • Controle seus processos, dando lugar a gestão do conhecimento. 

 

Dez dicas para os gestores on-line:

  • Marcar reuniões individuais e não apenas encontros grupais;
  • Fazer gerenciamento de projetos e ferramentas on-line; 
  • Identificar as condições que sua equipe tem para realmente trabalhar em casa (cadeira, computador, velocidade de internet,...) 
  • Definir metas e responsabilidade; 
  • Criar sistemáticas de condução de reuniões; 
  • Responder rapidamente às mensagens enviadas pela sua equipe; 
  • Identificar se a mensagem foi compreendida; 
  • Favorecer que os colegas de trabalho estejam sempre em contatos; 
  • Fomentar ambiente colaborativo e não competitivo; 
  • Criar momentos para comemorar os sucessos, sejam eles de resultado palpáveis ou de esforços para adquirir.

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