Rogério Cauduro: "O principal problema dos gastos mal feitos está na compra por impulso"
capa

Rogério Cauduro: "O principal problema dos gastos mal feitos está na compra por impulso"

Especialista em finanças, Rogério Cauduro fala sobre os principais condições para chegar ao equilíbrio financeiro

Por
Luciamen Winck

Economista Rogério Cauduro fala sobre comportamento financeiro

publicidade

Com experiência superior a 35 anos em administração de empresas, gestão de negócios e gestão financeira, Rogério Cauduro é diretor e administrador de duas empresas. Economista, pós-graduado em Planejamento Estratégico e Planejamento Financeiro, com MBA em Controladoria e Finanças e mestre em Economia, Rogério Cauduro é idealizador do projeto Bom Dinheiro, iniciativa que visa levar mais conhecimento sobre finanças e orçamento doméstico para a população. Entreos livros escritos por Cauduro, o destaque fica por conta de “As 10 Leis do Sucesso Financeiro”, que apresenta dez condições fundamentais para as pessoas serem bem-sucedidas financeiramente. Em entrevista ao Correio do Povo, ele fala sobre os principais cuidados que as pessoas devem ter para organizar suas finanças e o que, em seu entendimento, poderia ser feito para melhorar a educação financeira da sociedade no geral

O Brasil tem mais de 65 milhões de pessoas inadimplentes e com restrições de crédito. O comportamento está relacionado ao déficit na educação financeira do país? Como virar esse jogo?

Sim. O principal problema é a baixa educação financeira. No Ensino Fundamental e Médio, o tema não é visto e, no Ensino Superior, a maioria dos jovens já estão gerindo suas próprias finanças e também nada é tratado. A analogia que faço é com a saúde física. Antigamente, na época de nossos país e avós, pouco as pessoas se preocupavam e, como consequência, ir ao médico era tão somente para procurar a solução de alguma enfermidade. Houve uma conscientização de que a saúde preventiva, além de ser muito mais barata, dói menos. Com a saúde financeira ainda estamos no ponto de ir no “médico”, no caso, o consultor financeiro, apenas quando estamos com problemas. O ruim disso é que, além de afetar uma pessoa, também afeta toda a família, o mercado, a economia e um país. No caso do Brasil, a população que não tem condições de consumir equivale a 20 Uruguais. O que por si só é lamentável. Para gerar mudança neste cenário temos que trabalhar em duas frentes. A primeira é na conscientização. Assim como no exemplo da saúde física, também a financeira deveria ser considerada como ação de Estado. Algo como uma associação do Ministério da Educação, Saúde e Direitos Humanos. Algumas coisas neste sentido foram feitas, mas é algo muito pequeno. Cabe ressaltar que tal conscientização pode ser atacada também por estados, municípios e iniciativa privada. A segunda ação tem relação com a educação em si, que precisa disponibilizar e disseminar em todos os estados e municípios (nisso o EaD é uma excelente ferramenta) palestras, cursos, livros, graduações e treinamentos. Todos com foco prático em como lidar com o dinheiro e como fazer um planejamento orçamentário. Tenho certeza de que o Brasil teria outra realidade econômica. 
 

Como as pessoas podem planejar de forma adequada as finanças?

Todo planejamento orçamentário deve começar pela renda. E talvez aí esteja um dos maiores pecados que os endividados cometem. Primeiro realizam seus gastos para depois ver se sua renda se encaixa. A dica é simples: analise sua renda líquida, depois encaixe seus gastos de forma que ainda sobre algo em torno de 10% para guardar. Sei que muitos leitores irão pensar “mas minha renda é baixa, não dá”. Nestes casos há que se rever o padrão de vida e analisar se está adequado à sua realidade.

Educação financeira deveria ser ensinada nas escolas? Por quê?

Sim. Educação financeira deveria estar no Ensino Fundamental e de uma forma muito prática. Pontos como formas de gerar renda e fazer as crianças compreenderem que os recursos não caem do céu, mas é um esforço, um trabalho de alguém que fez aquele dinheiro chegar é um excelente mote. Ensinar de forma prática que a administração dos gastos deve ocorrer com as reais necessidades e os luxos devem ser evitados para que não haja desperdícios também é um ótimo caminho. E, principalmente, deve ser ensinado como fazer o orçamento doméstico e como guardar dinheiro. Didaticamente, devem ser assuntos relacionados ao dia a dia das crianças e jovens e o assunto deve evoluir de acordo com a evolução da criança e do jovem. Essa seria a base perfeita para termos adultos conscientes.

Quais seriam as dicas para uma compra consciente?

O principal problema dos gastos mal feitos está na compra por impulso. A grande maioria das pessoas consome por impulso e não conseguem pagar o que compraram. Pesquisas recentes apontam que mais de 65% das pessoas admitem comprar por impulso. Muitas vezes compram o que não necessitam, pagam o que não poderiam e, por vezes, sequer utilizam. Trata-se de consumismo puro. A dica para que as compras sejam mais conscientes e menos impulsivas é a pessoa conhecer melhor a si e aos seus hábitos. Autoconhecimento e autocontrole são as palavras chaves. Certa vez ao final de uma palestra um jovem me contou que gostava de jogar futebol com os amigos, de tomar uma cerveja no happy hour da empresa, de estar com o celular atualizado, não poderia ficar sem Internet ou TV a cabo e seu carro precisava de manutenção. São muitas coisas para se colocar no orçamento e não dá. Tudo bem que faça estes gastos, respondi a ele, mas coloque todos eles em uma planilha, que pode ser eletrônica ou em um simples papel, e veja se consegue absorver tudo. Isso tudo, é claro, depois de ter incluído suas reais necessidades, como uma boa moradia, alimentação, saúde, etc. Se tudo se encaixar, ótimo. Contudo, se sua renda não comporta, as prioridades devem ser definidas e os excessos devem ser ou cortados ou compensados com horas extras ou novos rendimentos.

Como é possível atrelar o padrão de vida ao padrão de compra?

Padrão de vida são todos os bens e serviços que utilizo para satisfazer as minhas necessidades. Portanto, minhas compras devem “sempre” estar de acordo com o meu padrão de vida. Onde está o problema das pessoas que não conseguem associar de forma adequada o padrão de vida com os gastos? Está na manutenção de um padrão de vida (consumo de bens e serviços adicionais às necessidades) acima do que deveriam. Às vezes por descontrole, pois se não sabem quanto ganham ou não sabem quanto gastam, não conseguem fazer o cálculo. Mas boa parte das vezes isso acontece por impulsividade e falta de autoconhecimento e autocontrole. Aliás, muitas pessoas que me procuraram para um auxílio na gestão financeira encaminhei para outro especialista, pois o problema não era financeiro e sim emocional ou psicológico. É por isso que tanto insisto em conhecer a si primeiro e depois gastar.

Não saber administrar as finanças pessoais e o orçamento doméstico pode trazer desespero e infelicidade. Como fugir desta armadilha?

Isso é comprovado por pesquisas: dinheiro não resolve tudo e não traz felicidade para as questões emocionais e psicológicas. Porém, dinheiro traz felicidade nos itens relacionados a bens e serviços. Uma administração financeira adequada me permite mandar no meu dinheiro, me permite fazer coisa que me dão prazer. O que é bem diferente quando estamos na situação de restrição de crédito e com dificuldades financeiras, em que as opções ficam restritas e isso gera infelicidade. Exemplos de como tomar medidas simples e que geram resultados não faltam. É o caso da família onde o marido impulsivo não dava a devida importância à gestão do dinheiro. Nesta situação é a esposa que controla o orçamento, os gastos e que define como será usado o dinheiro. Ainda que eles discutam onde será aplicado seus recursos, fica para quem tem maior habilidade e destreza lidar com o orçamento para executar o combinado. Isso é parte do processo de autoconhecimento, o que é fundamental para lidar com finanças.

“O principal problema dos gastos mal feitos está na compra por impulso. A grande maioria das pessoas consomem por impulso e não conseguem pagar o que compraram." | Foto: Alina Souza 

De onde surgiu a ideia de criar o Portal Bom Dinheiro?

Como sou especialista e há muito tempo auxilio empresas no orçamento empresarial, notei que as pessoas que estavam tocando os negócios também desconheciam os conceitos básicos de finanças. Quando começaram a me solicitar apoio na gestão financeira pessoal percebi que era um problema social e quis ajudar. Então, me aprofundei nos estudos sobre gestão financeira pessoal e, além de me especializar, me deparei com este grave problema que temos em nosso país. Aí o projeto Bom Dinheiro nasceu como consequência. Meu principal objetivo é levar conhecimento às pessoas e famílias, porque com pessoas mais instruídas sobre gestão financeira teremos uma sociedade melhor. 

No livro ‘Mande no $eu Dinheiro – Finanças Pessoais sem Mistério e Livre de Dívidas’, você utiliza a fábula ‘Os Três Porquinhos’ para explicar como ter equilíbrio nas finanças. No livro são três amigos que, como os três porquinhos, buscam satisfazer suas necessidades. Foi a forma encontrada para assegurar ao leitor conhecimento suficiente para uma gestão eficaz do orçamento doméstico? Por quê?

Em sala de aula, sempre usei analogias e fui muito bem sucedido. Sempre funcionou esta forma de aprendizagem para o desenvolvimento desta matéria tão estigmatizada que é economia. Os conceitos eram tratados de forma leve e todos se divertiam muito com a forma lúdica. Aí chegou a hora de escrever um livro. Não tive dúvida: criei uma ilha e me inspirei nos três porquinhos porque eles possuem características diferentes e assim facilitam a explicação dos principais conceitos de gestão financeira. Tanto que o livro pode ser lido apenas como uma história e ainda assim os conceitos financeiros ficarão no subconsciente. Entendo que este livro serve tanto para quem gosta de finanças como para quem não gosta de finanças. Contudo, ao final da leitura tenho certeza de que o leitor terá mais conhecimento sobre gestão financeira pessoal e orçamento doméstico. 

Para finalizarmos, que dicas você dá para evitar que as pessoas façam gastos desnecessários?

Existe uma sigla engraçada que precisamos sempre ter em mente, o PUN: possibilidade (posso pagar?), urgência (tem que ser agora?) e necessidade (viveria sem isso?). Tudo que não passar no PUN é uma compra que poderia ser evitada.