Segredos na Mona Lisa

Segredos na Mona Lisa

Vera Nunes

Deivis de Campos, professor adjunto de Anatomia Humana na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc

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Doutor em Neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), professor adjunto de Anatomia Humana na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Deivis de Campos, em trabalho conjunto com o pesquisador italiano Luciano Buso, mostrou novos detalhes sobre a Mona Lisa, obra mais célebre de Leonardo Da Vinci. O artigo foi publicado no ‘Journal of Medical Biography’.

Qual o significado da sua descoberta, não só no mundo da arte, mas também da Medicina?

O que foi apresentado de novo para o mundo das artes foi que a célebre obra de Leonardo da Vinci, conhecida como Mona Lisa ou La Gioconda, assim como outras obras de outros artistas da Renascença, também contém assinaturas/monogramas e datas ocultas, feitas pelo seu autor. Devemos ter em mente que na época em que viveu Leonardo da Vinci muitas proibições limitavam os artistas, talvez uma das fundamentais tenha sido o fato de que a maioria deles não tinha autorização para assinar suas obras. Acredita-se que esse era o principal motivo pelo qual vários artistas daquele período ocultavam assinaturas/monogramas/datas em algum ponto de suas obras. Nós demonstramos no artigo que, ao lado da assinatura de Leonardo, encontram-se as letras “FA”, as quais podem estar fazendo alusão à palavra em latim faciebat, que significa fazia. Essa palavra era frequentemente utilizada em obras no período renascentista, designava que a obra tinha sido, de fato, executada pelo artista.

Além do verbo faciebat designar autoria à obra, ele a classificava como inacabada, indicando um processo ainda em acontecimento. Isso era feito mesmo que o trabalho tivesse sido refinado no mais alto grau, como é o caso da Mona Lisa. Nesse contexto, a inscrição “FA Lionardo” encontrada na Mona Lisa poderia ser a representação da própria assinatura de Da Vinci em um momento que a obra não havia sido concluída, pois como a literatura especializada descreve, essa obra nunca foi entregue ao comerciante Francesco del Giocondo, que a encomendou e, tudo indica, que Leonardo trabalhou nela até os últimos dias de sua vida.

No que se refere à Medicina, podemos destacar aspectos sobre a caligrafia de Leonardo da Vinci. A literatura demonstra que ele era canhoto e, por isso, usualmente escrevia com a mão esquerda em formato espelhado, isto é, escrita da direita para a esquerda. Esse padrão de escrita era usado para não borrar a tinta no papel ao deslizar a mão esquerda enquanto escrevia da esquerda para a direita. Vale destacar que essa não era uma prática totalmente incomum. Quando seu amigo e matemático Luca Pacioli descreveu a escrita espelhada de Leonardo, observou que alguns outros canhotos também utilizavam tal técnica. Um popular livro de caligrafia do século XV, inclusive, ensinava aos leitores canhotos a melhor maneira de escrever em lettera mancina, ou escrita espelhada. Na cultura ocidental, aqueles que utilizam mais essa mão foram vítimas de preconceito cultural, social e religioso. As conotações pejorativas foram muito intensas na época de Da Vinci. No entanto, demonstramos no artigo que as inscrições “FA Lionardo”, a data “1503” e o seu monograma “LDV”, evidenciadas no retrato da Mona Lisa, estão escritas em um padrão convencional no qual o artista pode ter usado, pelo menos parcialmente, a mão direita para pintar sua obra prima. Portanto, é razoável inferir que Leonardo da Vinci nasceu canhoto e, com o passar dos anos, acabou aprendendo a escrever/pintar com a mão direita, tornando-se ambidestro. Essas informações são fundamentais para se compreender um pouco mais sobre os processos de desenvolvimento acerca da lateralidade de uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento.

Como vocês chegaram às conclusões? Quanto tempo durou a pesquisa?

Todas as conclusões do estudo basearam-se em pesquisas bibliográficas feitas em artigos/livros científicos especializados na vida e obra de Leonardo da Vinci. Além disso, as assinaturas/monogramas e datas foram encontradas através de imagens fotográficas de alta resolução feitas por um dos autores do estudo, Luciano Buso. Entre a análise minuciosa das assinaturas/monogramas e a escrita do livro e artigo científico houve um tempo de aproximadamente 2 anos.

Por que e como o senhor decidiu investigar a Mona Lisa, já que é uma obra tão conhecida e exaustivamente pesquisada no mundo todo?

Todas as obras dos grandes pintores renascentistas, tais como Michelangelo Buonarroti, Rafael Sanzio, Sandro Botticelli e Leonardo da Vinci fazem parte das minhas linhas de pesquisa. Nos últimos dois anos, tenho mantido parcerias científicas acerca desses autores com o pesquisador italiano Luciano Buso, que já vinha analisando detalhes da Mona Lisa. Dessa forma, resolvemos reunir esforços no sentido de construirmos um trabalho que pudesse explicar a existência dessas assinaturas/monogramas.

O senhor também pesquisou sobre as obras de Michelangelo. Tem algum outro artista que pretende se dedicar no futuro?

Sim, a minha principal linha de estudo é de fato baseada nas obras de Michelangelo Buonarroti, pois nos últimos 5 anos tive mais de dez artigos publicados em revistas científicas demonstrando elementos até então não descritos na literatura, incluindo um autorretrato oculto do artista em uma obra feita por ele em 1525. Atualmente, além das obras de Michelangelo, estou me dedicando à análise iconográfica de algumas obras de Rafael Sanzio e Sandro Botticelli, que ainda não foram descritas. Espero em breve poder apresentar esses achados.

Qual o próximo passo?

Ainda temos muito a descobrir sobre as verdadeiras intenções de Leonardo da Vinci na execução dessa obra, especialmente sobre a identidade e vida da Mona Lisa, que a literatura descreve como sendo Lisa del Giocondo (1479-1542). Recentemente tivemos um artigo aceito em outra revista científica, na qual descrevemos um provável distúrbio neurológico que Lisa poderia ter e que nunca havia sido postulado na literatura. Em breve, esse artigo será publicado. A partir disso, é como se abrisse uma janela para o passado e, assim, surgem novamente vários elementos a serem elucidados.

Algum comentário final?

Eu gostaria de salientar que como professor de Anatomia Humana e aficionado pela história da arte é imprescindível lembrar que o estudo da Anatomia era indispensável na formação de qualquer artista, especialmente na Renascença. É nesse período que o retrato surge, então, como a expressão de identidade e a ciência recupera sua autonomia, tendo como diferencial o artista cientista. Nesse contexto, surge a necessidade de um olhar mais amplo e interdisciplinar nos diferentes contextos históricos, incluindo aqueles acerca da promoção da saúde, pois através desse conhecimento é possível perceber que várias obras de arte da Renascença apresentam diversas anormalidades anatômicas, que podem servir como indicativo de prováveis patologias existentes naquela época.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895