Valesca de Assis: "O patronato tem me dado ocasião de falar sobre a importância de ler"
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Valesca de Assis: "O patronato tem me dado ocasião de falar sobre a importância de ler"

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Com duas semanas de Feira, Valesca de Assis tem sido incansável Foto: Luis Ventura / Divulgação / CP


Quando a patrona anterior da Feira, Cíntia Moscovich, anunciou o nome de Valesca de Assis como a responsável pela função mais nobre de um escritor no Rio Grande do Sul na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre, há pouco mais de um mês, a escritora natural de Santa Cruz do Sul, com 72 anos de idade, que forma casal das Letras com Luiz Antonio de Assis Brasil, se disse surpresa mas disse que ia lutar para conscientizar pela importância da leitura e dos programas de formação de leitores e de incentivo a um este atos humanista e humanizador, invocando a resistência cultural num tempo de barbárie e de ignorância. Com duas semanas de Feira, Valesca de Assis tem sido incansável participando em média de três a quatro atividades por dia, senão mais, como integrantes da mesa ou na assistência. Professora de História especializada em Ciências da Educação, a autora é ministrante de oficinas de escrita criativa e estreou na literatura em 1990 e, desde então, coleciona distinções e prêmios – sendo o mais recente o Prêmio AGEs Livro do Ano na categoria Narrativa Longa por “A Ponta do Silêncio”, obra indicada como leitura obrigatória para o Vestibular/2018 da Unisc. Entre os seus principais livros estão "Harmonia das Esferas", que deve ser reeditado pela BesouroBox, em 2018, "A Colheita dos Dias", "Todos os Meses" e em 2010, lançou sua primeira obra infantojuvenil "Um Dia de Gato", pela Libretos. No evento realizado para saudar Valesca, tendo como anfitriões ex-patronos da Feira, Dilan Camargo pescou a simbologia feminina aplicada a este patronato: “Temos a feliz coincidência de, este ano, uma mulher suceder a outra no patronato. Isso mostra que as mulheres estão se empoderando". Considerada escritora do feminino ou dos que não têm voz, Valesca de Assis irá autografar nesta sexta-feira toda a sua obra, às 18h30min, na Praça Central de Autógrafos. Nesta entrevista, Valesca fala da honra da função, dos seus livros, de qual é a sua voz literária e convoca os leitores que ainda não visitaram a Feira a fazê-lo nestes últimos dias de festa literária.

Correio do Povo: Qual está sendo a significação deste teu patronato para a tua existência como escritora?
Valesca de Assis: Está tendo um significado acima do esperado: o guarda da esquina, a operadora de caixa do supermercado, os jardineiros da rua, o político, os repórteres, todos sabem da Feira, todos amam a Feira, mesmo que alguns não leiam e nem estarão no evento, sabem da noite importância de nossa Feira do Livro. Então, o patronato tem me dado ocasião de falar sobre a importância de ler, sobre a necessidade de incrementar os programas de Leitura e criar novas ações a favor do Livro.

CP: O signo da resistência cultural pela literatura e pelas artes em si. Em que ele pode ser invocado neste momento pela qual passa o país?
Valesca de Assis: Em momentos como este, cada um ocupa o espaço que pode, para resistir. A mim, caiu como uma bênção o patronato da Feira do Livro. Tenho uma voz, tenho um espaço privilegiado para falar e denunciar o que está sendo feito em prejuízo do mundo cultural brasileiro. E o tenho feito, com toda a minha restante energia. Nessas conversas, temos também encontrado belas possibilidades de avanços, que logo implementaremos.

CP: Tu vais autografar toda a tua obra nesta sexta-feira. Podes falar um pouco da mais recente, "A Ponta do Silêncio", e a simbologia e denúncia que ela traz consigo?
Valesca de Assis: "A ponta do silêncio" tem grande significado para mim. Levei muitos anos trabalhando nesse livro, pois queria, mesmo, impactar o leitor. Impactar de maneira que, antes mesmo de fechar o livro, ele já estivesse pensando na sua mãe, na sua namorada/o, na vó, na vizinha e lembrar quantas vezes essas mulheres foram humilhadas, desconsideradas e emburrecidas até que não tivessem mais voz.

CP: Alguma outra obra a destacar para incentivar algum dos leitores que ainda não te conhecem. Gosto muito de "Harmonia das Esferas" e "A Colheita dos Dias", cada qual com sua carga afetiva e narrativa.
Valesca de Assis: Gosto muito desses livros, também: fazem uma espécie de tetralogia com “A valsa da Medusa” e “ A Ponta do Silêncio.” Todos foram realizados com minhas melhores energias e os conhecimentos que pude conquistar. Gostaria muito que os leitores me dessem a honra de lê-los.

CP: Você se considera uma escritora do feminino, da anima, da alma arquetípica feminina, como diria Carl Gustav Jung?
Valesca de Assis: Um pouco, mas escrevo muito mais pensando nos pequenos, nos desconsiderados, nos humilhados. A mulher é tão somente um desses tipos humanos. E são milhares deles, ao nosso redor.

CP: Finalmente, aquela mensagem aos leitores para os derradeiros dias de Feira e para o resto de suas vidas como leitores.
Valesca de Assis: Venham à Feira, há muitas atividades gratuitas, há música, há dança, há livros baratos nos balaios, mas há, sobretudo, uma energia tão solidária, que teremos forças maiores para enfrentar os tempos nebulosos. Estarei esperando por todos os leitores que puderem ir.

por Luiz Gonzaga Lopes