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Vandré Silveira interpreta Lázaro, na novela "Jesus", da Record TV

Vandré Silveira: "A arte espelha o humano em todas as suas contradições"

Em entrevista ao Correio do Povo, o ator ressalta o amor pela atuação e sobre seu papel como Lázaro, na novela "Jesus, da Record TV

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O ator mineiro Vandré Silveira, que há 12 anos reside no Rio de Janeiro, possui uma extensa carreira no cinema e nos palcos, onde ganhou prêmios e trabalhou com grandes diretores, como Cibele Forjaz e Wagner Antonio ("O Homem Elefante", 2015). Na TV, atuou em séries como "Amor Veríssimo "(GNT, 2014) e "A Segunda Vez" (Multishow, 2014) e, agora, vive Lázaro na novela “Jesus”, da Record TV. 

Formado em Teatro pela Fundação Clóvis Salgado, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em 2005 desenvolveu projetos de destaque para a dramaturgia – no teatro, no cinema, na TV e na publicidade. No cinema, está em cartaz no eixo Rio-São Paulo com o longa-metragem "Rio Mumbai" (2018), com direção de Pedro Sodré.

No teatro, sua última temporada foi no Rio de Janeiro, no Teatro Poeirinha, nos meses de março e abril de 2018, com "Fernese de Saudade" (2012), que conquistou crítica e público, além de diversos prêmios. Para o futuro, espera continuar dando vida a personagens da teledramaturgia. 

Quando começou a tua atração pela arte? Como tudo aconteceu?
É uma grande alegria poder dividir com vocês um pouco da minha história e trajetória profissional. Desde criança eu admirava os artistas pela postura libertária e ousadia. Sempre fui muito tímido. E no fim da adolescência, a ideia de me tornar ator começou a se fortalecer. Decidi fazer um curso livre de Teatro e me apaixonei.

Posteriormente, me formei como ator no Curso Profissionalizante de Teatro do Cefart (Centro de Formação Artística e Tecnológica da Fundação Clóvis Salgado), no Palácio das Artes, em Minas Gerais. E me encontrei. Experimentei a possibilidade de exprimir minha subjetividade de forma criativa e artística. Tive a certeza de que este era o meu caminho. Já são 18 anos de carreira, entre espetáculos de teatro, filmes e várias participações em novelas e seriados.

Entre todas as tuas atuações, qual te marcou mais? Por que?
Cada trabalho é único e colabora para uma abertura de visão e percepção sobre o humano. A minha escolha é por personagens que me atravessam e me deslocam da minha zona de conforto para que eu tenha a possibilidade de tocar o outro de forma genuína e plena. A arte espelha o humano em todas as suas contradições.

Para mim, uma atuação é marcante quando gera transformação não só no sujeito que está atuando, mas também naquele que recebe o estímulo. A simples ação de se colocar no lugar do outro gera grandes transformações.

Quando fiz Farnese de Andrade, no monólogo Farnese de Saudade, mergulhei intensamente no universo deste artista. Farnese coletava objetos para suas Assemblages (junção de elementos distintos num conjunto maior), nas praias de Botafogo e do Flamengo, na feira de antiguidades da Praça XV e em antiquários, na cidade do Rio de Janeiro. 

Durante dois anos percorri o mesmo itinerário de Farnese e criei a instalação cênica, uma gaiola de ferro em formato de cruz, em referência à religiosidade mineira, presente na obra de Farnese e também num diálogo com a obra de Louise Bourgeois. Ambos com forte acento autobiográfico. Foi um movimento natural. Farnese se expressava através dos objetos e como artista/ator, meu caminho não poderia ser diferente.

Minha expressividade ultrapassou meu corpo, voz e emoção para abarcar o espaço e o tempo. Tempo. Matéria indispensável no trabalho de Farnese. Ele buscava uma suspensão temporal. Onde o ar não entra, não há deterioração causada pela passagem do tempo. E tudo continua sempre.

Quais as  diferenças entre encenar em uma peça teatral e filmar um filme ou uma novela?
O trabalho do ator é um só. O de se disponibilizar para o personagem com total entrega. Talvez a grande diferença diga mais respeito ao funcionamento prático de cada linguagem. O teatro é por excelência um lugar de artesania, de maior possibilidade de experimentação. O cinema se aproxima disso com suas próprias especificidades. A TV tem um ritmo mais acelerado e como as novelas são obras abertas, muito do trabalho do ator vai sendo construído junto com a dramaturgia. O que tem sido um desafio maravilhoso. Mas é impossível escolher uma linguagem. Meu desejo é o de estar sempre em cena com expressões artísticas relevantes, potentes e transformadoras.

É um ator bastante celebrado no cinema e no teatro. Como foi essa transição para a televisão? Como tem sido essa experiência?
São 18 anos de carreira entre participações em novelas, seriados, espetáculo teatrais e filmes. O grande barato na carreira do ator é que a maturidade só colabora. Como a matéria do trabalho do ator é nossa própria humanidade, com todas as  suas contradições, o tempo é um grande aliado que alarga e expande nossa percepção sobre nós mesmos e o mundo. Me defino como um eterno curioso, inquieto e apaixonado pelo humano. 

Um aprendiz que deseja viver muitas experiências que se tornem expressões artísticas potentes, capazes de tocar e transformar muitas pessoas. É emocionante  interpretar um personagem tão querido e  importante na passagem de Jesus. Lázaro e Jesus eram muito próximos e o milagre da ressurreição acaba refletindo no processo da crucificação, pois a influência de Jesus ameaçava o controle dos poderosos da época. Sinto o afeto das pessoas em relação ao meu trabalho. Fico muito feliz. Fazer TV aberta é gratificante porque podemos compartilhar nosso trabalho com um maior número de pessoas.

Como surgiu a oportunidade de integrar o elenco da novela "Jesus"?
O convite veio depois de um teste de elenco com várias cenas sem personagem definido. Fiquei admirado com o cuidado da direção e da produção com o teste. Luz, figurino e cenário impecáveis. O que contribuiu muito para criar uma atmosfera que remetesse à epoca de Jesus. Senti uma grande emoção quando soube da aprovação e da escolha para ser Lázaro.

Como te preparou para dar vida a Lázaro?
Além de uma importantíssima contextualização política e histórica feita por Miguel Peres, tivemos uma preparação de elenco com a coach Fernanda Guimarães que trabalhou a relação de Lázaro com as irmãs Marta (Dani Moreno) e Maria de Betânia (Jessika Alves) e o desenrolar do romance com Susana (Bárbara Reis). Também vi filmes sobre a trajetória de Jesus e li artigos e textos sobre o milagre de Lázaro. Um livro bastante especial é "O Evangelho Segundo Lázaro", de Richard Zimler.

Além da novela, tem projetos paralelos no cinema e no teatro? Quais?
Tenho um projeto teatral chamado "Francisco" que vai abordar a relação do homem com os animais sob a perspectiva do bicho. Precisamos mudar nossa forma de tratar os animais, excluir a exploração, o abandono e a crueldade. Se não aprendermos a lidar com amor por todos os seres, jamais iremos entender a mensagem de Jesus.

De alguma forma Lázaro transformou algo em tua vida? O que mudou?
A carreira de ator não é fácil. Nestes 13 anos em que moro no Rio de Janeiro, fiz centenas de testes. Você vai se fortalecendo, porque é mais comum a rejeição do que a aprovação. É uma série de fatores que pesam numa escolha de elenco. É preciso equilíbrio, força e fé para seguir adiante. Se você se compromete com seu ofício de forma genuína, a resposta pode tardar, mas não falha. Acho que o grande ensinamento que este personagem está me trazendo é o poder da fé. Fé em nós mesmos, no humano e no divino que habita em nós.

O que Vandré Silveira aprendeu com Jesus?
Acredito no poder de transformação que um personagem opera na nossa visão pessoal de mundo. Vemos na atualidade, o crescimento da intolerância, do preconceito e do ódio e a mensagem que a novela traz é um alento. Jesus se identificou com os menos favorecidos, os que eram discriminados pela sociedade da época. Ele mostrou na prática os significados de igualdade, respeito e amor por toda a criação, por todos os seres. Tenho sido tocado pelas passagens e ensinamentos de Jesus. Consequência natural tem sido olhar o mundo com mais amor e compaixão. Este é um exercício constante e transformador. Finalizo este trabalho com minha fé ainda mais fortalecida.

Esta foi a primeira telenovela em que atua em um papel do início ao fim. Como está lidando com o assédio dos fãs nas ruas e nas redes sociais?
Tenho recebido um retorno muito positivo e afetuoso. Fico feliz que um maior número de pessoas estejam reconhecendo meu trabalho. O assédio aumentou, principalmente nas redes sociais, mas acontece de uma maneira respeitosa. Acho divertido. Também tenho sido abordado nas ruas. As pessoas ficaram muito impactadas e emocionadas com a ressurreição de Lázaro. Muito gratificante acompanhar esse reconhecimento.

O que vem por aí? Outras novelas?
Além do projeto de um novo espetáculo teatral, como mencionado, espero continuar dando vida a personagens da teledramaturgia. Foi um grande aprendizado e uma experiência transformadora. Que venham outras novelas!


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