Infinita pequenez
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Infinita pequenez

Não me surpreende que num mundo ameaçado pelo individualismo, pelo egoísmo, os supermercados estejam sendo esvaziados

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O companheiro Juremir Machado escreveu no seu blogue uma coluna que leva o título "coronavírus e fragilidade humana. O homem é menor do que o vírus?" 
Trecho: "Aqui estamos, outra vez, diante da nossa infinita pequenez. De repente, um vírus surgido numa cidade distante, desconhecida até então da maioria de nós, para o nosso mundo, reduz a nossa velocidade, freia a nossa dinâmica, obriga-nos a recuar para nossos espaços mais íntimos. Um inimigo invisível impõe toque de recolher ao planeta. Como se defender dele?"
Ah os inimigos invisíveis! No livro "Quando o corpo grita - Síndrome do Pânico", falei sobre um outro inimigo invisível, o neurônio. O livro tem participação dos renomados psiquiatras José Facundo Oliveira e Gildo Katz. Carrego e trato esta doença, o pânico, há mais de 30 anos. Retiro trechos.
"Como os músculos podem ser tão resistente, fortes? Não é paradoxal que músculos de ferro sejam completamente subjugados por invisíveis neurônios? Numa queda de braço entre o homem mais forte do mundo e dois neurônios, ganham os neurônios. É outro tipo de força, eu sei, porque nada se compara à força dos neurônios. Para ganhar uma queda de braço dos neurônios é preciso jogar sujo. Nunca jogue limpo, porque a derrota é certa. Use todas as armas como aliadas, principalmente os comprimidos".
Meu cérebro dispara uma mensagem de morte iminente. A crise, sempre dramática, pode durar horas. Não posso pensar em água pois estou morrendo afogado, sufocado. A morte é real neste mundo irreal dos invisíveis neurônios. 
Acordei com dor de garganta domingo. A dor de garganta veio acompanhada de falta de ar. Não era o coronavírus. Eu conhecia aquela sensação de morte. Era pânico. Tomei logo três comprimidos. De uma vez só. E fiz aquilo que sempre faço em momentos assim: sai para caminhar. Foram três horas de caminhada. 
Quando eu pensava que um os sintomas do coronavírus é a falta de ar me desesperava ainda mais. Tinha convicção de que não se tratava do coronavírus, afinal convivo com o pânico há mais de três décadas, somos velhos conhecidos. Imaginava como seria ter ao mesmo tempo pânico e falta de ar pelo coronavírus. Depois de três horas de caminhada, onde ficou escancarada minha fragilidade diante do invisível, os comprimidos finalmente fizeram efeito. Exausto mental e fisicamente dormi várias horas.
Estou confinado no meu apartamento, de onde envio as colunas. Daqui faço meu trabalho, disparo meus telefonemas checando informações, atualizando o blogue e me atualizando. 
Não me surpreende que num mundo ameaçado pelo individualismo, pelo egoísmo, os supermercados estejam sendo esvaziados, quase saqueados. Como se estocar alimento fosse a salvação. Num momento que clama solidariedade há quem transforme tudo num cada um por si e Deus por todos. Aqui estamos, outra vez, diante da nossa infinita pequenez, se é que me faço entender.