Éric Zemmour, o polemista da França conservadora
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Éric Zemmour, o polemista da França conservadora

Entrevista para o Caderno de Sábado

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Temido, atacado, processado, Eric Zemmour povoa o cenário intelectual e político francês com sua visão de mundo ultraconservadora, em luta contra o politicamente correto, a imigração e a esquerda. Autor de best-sellers como “Suicídio francês”, radialista, figura carimbada de debates televisivos, colunista do jornal “Le Figaro”, ele não teme os conflitos. Nesta entrevista, concedida no café Saint-Augustin, em Paris, reduto de jornalistas e intelectuais, ele mostra a virulência da sua verve.

Caderno de Sábado – É difícil a vida de um polemista na França?

Éric Zemmour – Antes de mais nada, sou chamado de polemista para não ser chamado de intelectual. É uma guerra de palavras. O termo intelectual é reservado para a esquerda. Intelectual é todo aquele que defende as suas ideias na esfera pública por meio de artigos, livros e intervenções na mídia. É a definição dada por Régis Debray, que gentilmente reconhece a minha condição de intelectual. Para a esquerda, sou polemista. O intelectual não defende o senso comum dominante. Ele o contraria. É o meuy caso. A vida de um intelectual como eu é penosa. Tenho de enfrentar pessoas que recorrem ao insulto e não aos argumentos. É gente que se situa pretensamente no moralismo e na virtude, não no racional. Michelet, falando de Robespierre, dizia que era o representante das ideias prontas. Vivemos atualmente sob a hegemonia das ideias prontas sustentadas por jornalistas, universitários, parte dos políticos. Eles não enxergam real. Preferem pregar moral. É nova religião dos Direitos do Homem. Por fim, quando digo algo que escandaliza, não encontro contestação ao que exprimo, mas ao meu direito de fazê-lo. Surgem grandes campanhas para questionar o meu direito de falar em rádio, televisão, etc. O resultado é que tenho sido boicotado há mais de um ano por todas as emissoras públicas.

CS – A crítica ao politicamente correto é o seu campo de guerra?

Zemmour – Não. O politicamente correto é uma ideologia criada nos anos 1960 nas universidades dos Estados Unidos com o objetivo de colocar interesses de minorias sexuais, raciais e étnicas acima de tudo. É o campo de batalha de grupos feministas, antirracistas, LGBT, entre outros, determinados a impor suas regras à maioria. Trata-se de destruir a norma majoritária. É o contrário da democracia. Nada mais é do que a vontade das minorias de dominar o povo. Um retorno ao Antigo Regime. Precisamos dar nome aos bois, chamar gato de gato: essas pessoas se tomam por novos aristocratas, negam a democracia, são protegidas pela oligarquia judiciária. O politicamente é uma ideologia de dominação pelas minorias.

CS – Quem seriam os principais beneficiários?

Zemmour – Como eu disse, homossexuais, os gays, como se diz, as feministas, os movimentos antirracistas e de defesa do islamismo. Todos os que proíbem qualquer crítica aos seus representados. Novos aristocratas.

CS – Para o senhor, raças humanas existem, mas sem hierarquia entre elas?

Zemmour – Os rótulos não me importam. Raça, tipo, etnia, tanto faz. A palavra raça não pode mais ser usada por ter sido empregada por Hitler na sua defesa de uma raça pura. Se ele tivesse falado mesa, então mesa seria um termo tabu. Raça é uma categoria criada por cientistas para classificar a humanidade fora do universalismo cristão. No começo, representava um progressismo de esquerda. Posso garantir que não faço hierarquias entre as pessoas. Sei, no entanto, que existem brancos, negros, etc. Assim como existem povos, nações, civilizações diferentes. São dados de realidade.

CS – É falso acusá-lo de racista?

Zemmour – Acusa-se qualquer um por qualquer coisa de racismo. São insultos, não argumentos. Qualquer afirmação que contrarie a agenda dessas minorias politicamente corretas é desqualificada de racismo. Quem é contra o multiculturalismo e a favor da integração dos diferentes, é acusado de racismo. A estratégia consiste em considerar hostil às próprias pessoas toda rejeição à ideologia sustentada pretensamente em nome delas. Quem é contra o casamento gay, vira homofóbico. Se afirma que não tem como integrar o islamismo na república francesa, vira islamofóbico. Se entende que o igualitarismo feminista é destrutor da estrutura familiar tradicional, passar a ser machista e misógino. Não pode haver mais debate racional. O insulto e a condenação moral é que tudo condicionam.

CS – A revolta de maio de 1968 tem influência na situação atual?

Zemmour – Maio de 68 é detonador de tudo isso. O discurso dominante em 68 era marxista. Foi adaptado depois. Nos anos 1970, houve a impregnação que ainda persiste pela qual se passou a atacar a sociedade francesa. Esse modelo vinha de longe, com raízes profundas, oriundas de uma vontade de desconstrução do cristianismo, da adoção do consumismo norte-americano.

CS – O senhor é um nacionalista?

Zemmour – Nacionalismo é outro termo que virou tabu. Assim como patriota. Defender a nação francesa me cai bem. Ser nacionalista na França de hoje não é querer declarar guerra à Alemanha, mas ser contra a invasão islâmica, contra a desnaturação do seu país. É questão de sobrevivência.

CS – Para o senhor, a imigração pode destruir a França?

Zemmour – Sim. É preciso parar a entrada de imigrantes, suprimir o reagrupamento familiar, o direito de solo, as ajudas sociais, expulsar os delinquentes estrangeiros. Em seguida, é fundamental restabelecer os mecanismos de integração que, durante a III república, que não era um regime nazista, mas uma democracia, obrigava o estrangeiro a escolher, ou virava francês ou voltava para casa. Três milhões de italianos entraram na França entre 1870 e 1940. Um milhão ficou. Dois milhões retornaram. Eles queriam continuar italianos. Não conseguiam se adaptar ao modo francês. Depois de 1980, com o multiculturalismo, temos uma colonização invertida. O estrangeiro quer impor o seu modo de vida. Viver como se estivesse no seu país, estando no estrangeiro, isso se chama colonização. Era o que faziam os franceses na Argélia ou os ingleses na Índia. É o que ocorre.

CS – Os intelectuais de esquerda não enxergam isso na sua opinião?

Zemmour – Por múltiplas razões, a esquerda não quer ver a realidade. Alguns, detestam a França. É um ódio de si e da sua cultura. Para outros, o imigrante, especialmente o árabe muçulmano, substituiu o proletário como personagem messiânico. Por fim, há os ingênuos que, privilegiados, acham que tudo está bem, pois nas escolas de seus filhos não há salas cheias de alunos vindos de fora, suas filhas não são insultadas nas ruas por usar saia, os seus modos de vida não foram modificados. Não vem que em torno deles se ergue uma república islâmica. Eu defendo as minhas ideias.

CS – Partidariamente?

Zemmour – Não. Nas eleições, não indico em quem votar, mas faço as minhas escolhas. Fui demitido muitas vezes por causa das minhas posições. Quase perdi meu emprego no jornal Le Figaro, em 2013. A nova direção, contudo, tem me dado tranquilidade para escrever. Sofro muitos processos na justiça. É uma técnica que se utiliza de juízes ideologizados. Depois se fala assim: esse homem não pode ser convidado para se exprimir na mídia, pois foi condenado pela justiça, como se eu tivesse matado ou roubado.

CS – O que pensa de Donald Trump e de Jair Bolsonaro?

Zemmour – Os dois integram a onda populista mundial. Populismo para mim é o grito do povo que não quer morrer. O povo não quer ser dissolvido na globalização. Não quer ser controlado em casa por estrangeiros, quer decidir o seu destino. Quer defender sua identidade, seu modo de vida, ameaçados pela universalização do modelo de vida americano e pela imigração: globalização por cima e por baixo. Mesmo os Estados Unidos sofrem. Quando li Samuel Huntington, tive a impressão de me reler. O que ele diz em relação à imigração mexicana nos Estados Unidos vale para a imigração africano e árabe na França. A islamização é ainda mais grave. O populismo é uma revolta contra o politicamente correto. Há alguns anos, o Brasil era apontado pelos bem-pensantes de Paris como exemplo de país multicultural. Agora, não se fala mais nisso. A globalização representa um perigo mortal para as identidades nacionais. Uniformiza os modos de vida. Muda povos e a maneira de viver dos povos. Não deixa nada incólume.

CS – A globalização não resultado da lei do mercado? Como reagir a ela?

Zemmour – Pelo protecionismo. A China é muito protecionista. O Japão, do seu jeito, também. Os Estados Unidos começam a tornar-se mais protecionistas. Na Europa, o problema é a dependência da Alemanha, que depende das suas exportações. Os alemães não adotam medidas protecionistas por medo de represálias contra a exportação dos seus carros. Os preços podem aumentar, certo, mas é preciso escolher o que se quer: uniformização e produtos medíocres ou a salvaguarda da sua produção e da sua qualidade.

CS – Qual a sua opinião sobre a Frente Nacional de Marine Le Pen?

Zemmour – É um instrumento extraordinário de resistência ao politicamente correto e, ao mesmo tempo, um álibi para que o sistema impeça a vitória das forças dos seus adversários. Serve para que agitem o espantalho do fascismo assustando as pessoas, especialmente as mais desinformadas.