A estranha lógica de Bolsonaro
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A estranha lógica de Bolsonaro

Presidente pensa por hipérbole

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A nova política de Jair Bolsonaro parece a velha. Depois de muito assegurar que com ele era diferente, o capitão derramou um caminhão de dinheiro, desviado da educação, para abastecer as emendas parlamentares que garantiram a aprovação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados. Foi um toma-lá-dá-cá no melhor, ou pior, estilo do é dando que se recebe. Outro quesito no qual Bolsonaro repete a cartilha da politicagem de sempre é o favorecimento a amigos. Já acomodou próximos em bons cargos em nome da chamada confiança.

A lógica do presidente, porém, tem algo de radicalmente novo. Funciona pelo avesso e pelo excesso. Alguns exemplos. Se é para aumentar a produção, ele sinaliza que desmatar é legal e sustentável. Para defender a Amazônia do apetite dos estrangeiros, vinha permitindo que as queimadas aumentassem. Para diminuir a violência, aconselha andar armado. Para ser bom pai, sugere que se pratique nepotismo sem constrangimento. Afinal, se todo mundo tem pai, não pode haver diferença entre o filho de quem nomeia e quaisquer outros filhos. A frase mais inovadora do presidente até agora foi:

– Se não for o meu filho, será o filho de outro, p...

      Com essa tirada, o presidente condenou qualquer noção de nepotismo ao absurdo. Pela nova definição, nepotismo é só uma forma de amor paterno transformado em cargo público por laços de sangue. Bolsonaro afirma não querer que haja apropriação das terras indígenas. Prefere que os índios deixem de ser o que têm sido desde sempre. Assim, integrados ao que nós somos, não haverá mais índios, só brasileiros, e, portanto, reservas não farão mais sentido e poderão ser exploradas por qualquer um. A melhor maneira de salvar os índios seria fazendo-os desaparecer por diluição na cultura geral.

      Para criar empregos, Bolsonaro investe na retirada de direitos trabalhistas. A culpa é da CLT. Viva a uberização do trabalho. Se acabar com o controle do ponto, surgirão novas vagas. A lógica hiperbólica será levada ao ápice com as privatizações. Empurrado pelos sonhos mais desvairados de Paulo Guedes, Bolsonaro quer liquidar o patrimônio coletivo. Guedes caminhava para a aposentadoria sem ter sido protagonista de uma novela quando, repentinamente, arranjou papel de vilão num folhetim escrito às pressas. Sob essa influência de filme B, Bolsonaro pretende vender a casa e os móveis para investir num estilo de vida mais despojado. Uma nova versão do velho neoliberalismo dos Chicago Boys fracassado por toda parte.

      Se a política externa petista valorizava a relação com países ditos de segunda linha, repúblicas bolivarianas e outras esquisitices, Bolsonaro, certamente para se diferenciar de modo categórico, resolveu comprar briga com a Europa ecologista, mas já teve, depois das bravatas, de dar uma recuada, que é a marca do seu governo. Foi enquadrado por Emmanuel Macron e quase apanhou do G7. No seu panteão, Donald Trump brilha solitário. O brasileiro e o americano andam de mãos dadas em missão contra a ideia “comunista” de aquecimento global. Trump, contudo, é menos ousado do que Bolsonaro. Não tem, que se saiba, um guru capaz de sugerir que a Terra é plana.

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Hoje, 18h30, na Câmara dos Vereadores de Porto Alegre, por proposição do Engenheiro Comassetto, receberei o diploma da Honra ao Mérito atribuído pela casa e falarei sobre Liberdade de Imprensa e Democracia. Conto com vocês para não me sentir desamparado. Depois disso, sairemos todos para ver o jogo do Grêmio. Uns torcerão. Outros, claro, secarão.