A morte de um ídolo

A morte de um ídolo

Aos 26 anos, Marília Mendonça estava no topo

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Eu não era ouvinte das músicas de Marília Mendonça. Mas como não se comover com a morte de uma menina de 26 anos no auge da existência e da carreira? Como não lamentar todas essas mortes e não sentir o coração apertado pensando nos filhos pequenos: um perdeu a mãe; outro, o pai. Fui ouvir essas canções de tanto sucesso. Comecei por “Infiel”, primeiro hit da “rainha da sofrência”. Letra simples e direta. Verdadeira. Lembrei de quando, muito jovem, morei no Sarandi, em Porto Alegre. As pessoas adoravam artistas muito populares. Quando eu pedia que me explicassem o que as apaixonava tanto, respondiam: “A verdade”. Alguns iam mais longe e precisavam: “Cantam o que a gente sente”. Ainda mais: “Cantam o que a gente sente, vive e compreende bem”. Bah!

Marília Mendonça disse numa entrevista que não podia cantar histórias inventadas. Precisava capturar a realidade. Certamente por isso havia estabelecido uma poderosa conexão com seus fãs, a ponto de ter feito, durante a pandemia, a live mais ouvida do planeta. Isso mesmo. Do planeta! Ela foi do anonimato ao sucesso sem baldeação. Conseguiu alguns bilhões de visualizações de suas interpretações. Pesquisei sobre ela. Vi e ouvi o que fazia. Não é a minha praia. Porém, francamente, quanta autenticidade, força, empatia. Uma magia natural.

Não sou fã do modo de cantar dos sertanejos. Gostava do estilo de antigamente, o agora chamado sertanejo raiz. Ouvia o programa do Zé Bettio, na Rádio Record, onde cantavam Caçula e Marinheiro, Tonico e Tinoco e outros dessa época. Dava uma tristeza boa. Como, no entanto, não vibrar com essa irrupção das mulheres no universo sertanejo. A voz de Marília Mendonça era potente. Prestava-se também a outros gêneros. A morte do jovem de sucesso é matéria de estudo. Morrer prematuramente mitifica quando há talento na base. Basta pensar em James Dean.

Sobre Marília Mendonça é muito fácil encontrar quem diga: “Gente como a gente”, “uma moça bonita sem representar o padrão imposto pela moda”, “uma pessoa normal”. Há muitos imaginários por aí sem colisão. Tem uma galera que quer papo reto, cantar o que experimenta no amor sem dobras poéticas. Marília compunha ou interpretava essa visão direta: “Já que devolveu minhas roupas/Já que arquivou nossas fotos/Deve ter outra pessoa a posto”. Era sem rodeios: “Hoje você me vê assim e troca de calçada/Só que amar dói muito mais/Do que o nojo na sua cara”.

Mortes assim reacendem em cada um de nós a velha pergunta: o que estou fazendo da minha vida? Pode acabar tão rápido, tanto briga para terminar num instante, num sopro. Alguns se dizem: “Melhor morrer assim do que ficar anos numa cama sofrendo”. Só que esse raciocínio não vale para jovens cheios de saúde nem para quem quer a vida seja do jeito que for. Há muito eu penso o seguinte: a vida é muito mal organizada. Dado que podemos morrer a qualquer momento, seria muito mais razoável apostar em cooperação e não em competição. Agimos o tempo todo como se fôssemos eternos. Essa eternidade, porém, passa rápido. Marília Mendonça deixa um legado de músicas, de simpatia e de otimismo. Valeu!


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