Alvim, Glenn e a tentação autoritária
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Alvim, Glenn e a tentação autoritária

Brasil flerta com o abismo

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O jornalista Glenn Greenwald cometeu um crime grave: fez jornalismo livre.

Foi indiciado por um procurador ideologizado sem investigação.

Glenn publicou informações verdadeiras sobre os bastidores da Lava Jato.

Deslustrou a imagem de Sérgio Moro e de Deltan Dallagnol.

Trouxe prejuízos para a mitologia de extrema-direita em construção.

Roberto Alvim, então secretário nacional da Cultura, quis agradar seu campo.

Vejamos esta passagem: "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada".

O nacionalista integral concorda com ela ou não?
Roberto Alvim, agora ex-secretário da Cultura de Jair Bolsonaro, mesmo flagrado plagiando nessa citação Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, persistiu: “Foi, como eu disse, uma coincidência retórica. Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional“. Não fosse de Goebbels, o nacionalista também a consideraria perfeita? Ou concorda com o conteúdo mesmo sendo da lavra do célebre nazista e defende-se dizendo que isso não significa estar de com acordo com o racismo nazista e o holocausto?

Alvim falou em “coincidência retórica”. Não seria uma coincidência ideológica, de visão de mundo, quanto à cultura? Não só de Alvim, mas do neonacionalismo? O nazismo queria combater a “arte degenerada”. O neonacionalismo não vê a arte brasileira como decadente? A passagem em questão não resume literalmente a visão de cultura do antiglobalismo? O problema não seria o texto, mas o contexto, que um diretor de teatro jamais ignoraria: Wagner ao fundo, cenário “monumental”, estética à Leni Riefenstahl, a cineasta do nazismo.

Teria Alvim caído mesmo sintetizando “perfeitamente” a concepção de cultura que deveria encarnar? Ao sair do bunker, deixou vazar parte do imaginário do entorno que pretendia representar? Na véspera do “suicídio” de Alvim, Bolsonaro rasgara-se em elogios a ele: "Você aí é a cultura de verdade, algo que não tínhamos no Brasil. Tínhamos aqui essa ideia de fazer cultura para uma minoria, tem que fazer para a maioria”. Se Alvim era a “cultura de verdade”, o que ele contrariava, a cultura brasileira, era de mentira? Decadente? Falsa? A “autenticidade”, como oposição ao “globalismo” e ao comunismo, encontra-se no nacionalismo, no conservadorismo e no patriotismo?

Roberto Alvim atrapalhou-se. Podia ter as mesmas ideias que um nazista, mas não podia plagiá-lo? Teria havido a serpente sem o ninho? O rolo deixou uma face encoberta (ou meio descoberta). Afinal, o que os neonacionalistas integrais pensam do texto, sem o contexto, recitado pelo péssimo ator guindado à condição de protagonista e logo à de expulso da festa por inconveniência? Olavo de Carvalho sugeriu que o discípulo estava mal da cabeça. Teria em razão disso feito uma leitura equivocada das expectativas que imaginava poder atender com energia?

Em caso de equívoco interpretativo de Roberto Alvim, o que o teria levado ao “erro” de hermenêutica? Alvim copiou um contexto exato para um texto que jurou desconhecer e afirmou ter do nazismo a mesma repugnância sentida pelo comunismo. Bolsonaro repudiou regimes genocidas. Só falta agora os neonacionalistas dizerem o que pensam de uma arte heroica, nacional, emocional, imperativa e triunfal?

Enquanto isso, Glenn Greenwald é indiciado por trazer à luz o que deveria permanecer nas escuridão dos aplicativos para não manchar biografias apressadas.

Obs; na imagem , o "cuidado" que se tinha, há meros 30 anos, com quem fazia jornalismo de crítica, de humor, de ironia, sem heroísmo nem nacionalismo.