Antecipações do carnaval em Brasília
capa

Antecipações do carnaval em Brasília

Por

Kimi Raikkonen fala em sair da Fórmula-1 no fim do ano

publicidade

Ler um jornal: duro disfarce da melancolia diária de um mundo desencantado. Inúmeras páginas repletas de nada. Vazios do desespero preenchido. Folhear maquinal de uma miséria repetida. Rigorosa ausência dos impulsos. Falha nas válvulas da criação. Afogamento de vida. Automatismo consagrado. Triunfo da letra morta na ruína diurna do mistério. O campeonato brasileiro foi suspenso diante da recusa dos jogadores em chutarem a bola para frente. Os juízes enrolaram a língua nos apitos e já não podem parar de cantar. Os bandeirinhas enlouqueceram e deitaram-se na linha do gol. Cravaram a bandeira na risca do pênalti e bradaram: chega, agora nada mais entra. Talvez sejam efeitos de sucessivos traumas represados, ou apenas uma revolta contra o uso obrigatório daquelas bermudinhas curtas. Renomados colunistas afirmam que se trata de uma virose contraída inicialmente por Leandro Damião quando esperava por atendimento na fila do SUS; outros defendem que o grande motor da revolução é a famosa Avalanche gremista. Na noite de quinta-feira, Renan Calheiros tomou três doses de um respeitado absinto e saiu voando em uma vassoura verde. José Sarney não se conteve e logo comprou a sua. Os ares de Brasília começaram a esquentar. A semana promete. Um comitê de sábios já se reuniu para discutir a situação e a previsão é de graves congestionamentos aéreos. Marketeiros bem remunerados já trabalham silenciosamente em seus gabinetes. A agência nacional de aviação está sob pressão dos insatisfeitos consumidores das mágicas asas de ferro. O mundo dos negócios não pode esperar pelo arrefecimento do trago dos caciques voadores. A econometria é cruel, não perdoa bêbados transtornos. São as exigências do mercado. O grande regulador invisível está se lixando para a diversidade cultural brasileira e seus arroubos passarinheiros. É preciso acarinhar o PIB. A velocidade da bolsa de valores antecipou a crise. A ressaca se precipitou. Calheiros e Sarney foram encontrados num campo de refugiados no Mali. Resgatados por tropas francesas, afirmaram em entrevista exclusiva que as vassouras foram fornecidas pela tesouraria do PT e que eles nada tinham a ver com a Irmandade islâmica. Entusiasmados pelo momento, célebres representantes de respeitáveis movimentos sociais já se encontram à espreita. A coisa pode ferver. Mas amanhã é sexta-feira e, como se sabe, nada se passa na capital. Já é carnaval em Brasília.

Abraços, Gabriel Torelly.