Bolsonarismo e mal-estar na cultura
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Bolsonarismo e mal-estar na cultura

Cortes na educação revelam desconforto com pensamento crítico

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 Alain Finkielkraut é um filósofo francês conservador. Ele escreveu um livro que se tornou best-seller no final do século passado: A derrota do pensamento. Na obra, defendeu, contrariando o relativismo da época, que um bar de botas não vale um Shakespeare e que vida com pensamento é superior à arte do tricô. Ele diagnosticou o horror do populismo ao saber: “Mal-estar na cultura. Certamente, ninguém, de agora em diante, saca seu revólver quando escuta esta palavra. Mas, são cada vez mais numerosos os que, quando escutam a palavra ‘pensamento’, sacam sua cultura”. É isso. Os argumentos conservadores de Finkelkraut até poderiam animar algum bolsonarista. Afinal, o filósofo é contra o relativismo, o multiculturalismo, a geleia geral  e a favor da alta cultura. Pois é, o problema é que o bolsonarismo não se dá bem tampouco com a alta cultura. Quer distância dela.

      Neste momento, no Brasil, o saber é novamente alvo do poder. Não é de duvidar que se volte a sacar o revólver – de cada vez mais fácil acesso – ao ouvir a palavra cultura e seus correspondentes: saber, educação, pesquisa, filosofia, sociologia, universidade, ciências humanas, pensamento. O livro, como condensação da cultura, sempre despertou a fúria dos defensores das virtudes da ignorância. Quando o saber incomoda, liberam-se as armas. Quando a pesquisa não corresponde ideologicamente ao desejado, cortam-se as verbas. Quando a desigualdade campeia, diminuem-se os valores das aposentadorias. Quando a indiferença ataca, cada um que se defenda por conta própria. A guerra ideológica chegou a um novo patamar.

      Poucas vezes se viu o aparelhamento ideológico do Ministério da Educação atingir um nível tão elevado. Uma reportagem publicada na última sexta-feira informa: “O trabalhador que se afasta do emprego por doença ou acidente recebe hoje um auxílio do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Com a reforma da Previdência e a futura instalação de um regime de capitalização, as pessoas podem ter de contratar um seguro particular para ganhar esse benefício. Na avaliação de especialistas consultados pelo UOL, a reforma proposta pelo governo Bolsonaro abre a possibilidade de que esse tipo de cobertura seja oferecido, de maneira individual, pelo mercado de seguros privados, diminuindo a atual cobertura do Estado”. Assim mesmo.

      Que progresso!

A Velha Europa invejará esse novo iluminismo tropical. Não passará sem espanto o critério “técnico” adotado em certo momento pelo nosso ministro da Educação para cortar recursos de universidades: balbúrdia. Nunca um sueco teria pensado em algo tão acadêmico. Jamais um alemão, salvo num período nada recomendável para as democracias e para a ideia de civilização, teria sacado da linha da cintura uma bala tão letal contra o vírus da autonomia universitária.

      Que ministro da Educação do mundo teria usado chocolatinhos para explicar tão pedagogicamente o corte das verbas das universidades, que ele se permite chamar de contingenciamento, palavra tão verdadeira quanto descontinuar em vez de demitir? O Brasil inova: o responsável pela reforma da aposentadoria dos trabalhadores é um banqueiro; o ministro da educação, um agente do mercado financeiro; o ministro da justiça, um ex-juiz com alma de policial; o líder do governo na Comissão Especial da reforma da Previdência, um ex-ator de filme pornográfico; o guru do regime, um astrólogo que tem como esporte insultar militares de alta patente. Uau!

Enquanto isso, a devassa nas contas de Flávio Bolsonaro surge como o tsunami anunciado por Jair.

Talvez isso responda a uma questão que berra: onda anda o Queiroz?

Por que ele nunca foi ao Ministério Público?