Bolsonaro sonha com terceiro mandato
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Bolsonaro sonha com terceiro mandato

Projetos do presidente não dão manchete

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Não é bom olhar os jornais de manhã cedo. Apavora.

"Sob Bolsonaro, Brasil repete pior nota em ranking anticorrupção".

"Um ano depois, Bolsonaro e Michelle evitam tratar do cheque de Queiroz".

Assim vai.

Mídia danada. Não se cala.

Mas não dá tudo em manchete.

Por exemplo: Evo Morales caiu por querer mais. Maduro apodreceu por não aceitar se separar do poder. A esquerda sul-americana atolou-se ao pedir sempre mais tempo nos palácios. A direita explorou cada uma dessas tentativas como golpe branco. O único no Brasil a mudar a Constituição para concorrer a mais um mandato na sequência foi Fernando Henrique Cardoso. Tinha direito a um. Levou dois. As denúncias e até confissões de que houve compra de votos para e emenda da reeleição nunca foram apuradas. O Plano Real, que estabilizou a moeda, feito no governo Itamar Franco pela equipe de FHC, dava legitimidade para tudo.

A jornalista Miriam Leitão, no seu volumoso livro “Sagra brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda”, ode a Fernando Henrique Cardoso, justifica todos os passos do tucano e passa longe da questão espinhosa da emenda da reeleição. Se o leitor acreditar em tudo que Miriam Leitão diz sobre os méritos de FHC e sua equipe de economistas termina o livro de joelhos diante do altar do tucanato. Poucas vezes se viu devoção maior. Um dos itens mais devotos é a defesa do Proer, o plano tucano para salvar bancos e banqueiros, apresentado como um corajoso instrumento exclusivamente para evitar o pior.

Se FHC conseguiu e Lula nem tentou ter mandato a mais do que o previsto, Jair Bolsonaro, que vive reclamando do peso do matrimônio com o poder, sinalizou que pretende dar o pulo do gato. Em reunião do seu futuro partido, deixou escapar: “O Brasil tem tudo para dar certo. Ninguém tem o que nós temos. Demos um grande passo no ano passado, com muita dificuldade. A economia vem reagindo. Os números estão aí. Logicamente, vem com uma parcela de sacrifício. Não é uma lua de mel. É um casamento de quatro ou oito anos. Ou, quem sabe, por mais tempo, lá na frente. É um casamento que os frutos serão o bem-estar desse povo”.

Como assim? Não tem prorrogação neste jogo. Bolsonaro, se necessário, dirá que por “lá na frente” entende um novo mandato depois de uma interrupção constitucionalmente prevista. Salvo, bem entendido, se o povo exigir, implorar e convencê-lo pelo bem do Brasil. Não sou o único a ter ficado encafifado com essa declaração. O colunista conservador Merval Pereira, de “O Globo”, também se chocou: “Que ele só pensa na reeleição desde o primeiro momento do seu mandato, mesmo tendo prometido aos seus eleitores que acabaria com ela, todo mundo já sabe. A novidade está na admissão de que o mandato presidencial pode passar a ter mais reeleições”. Merval e Bolsonaro não se bicam. A observação do comentarista, porém, faz sentido. A direita não vai abrir o berreiro?

Bolsonaro aprovou o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões. Justificou-se com uma fake news: a possibilidade de sofrer impeachment se vetasse. Por que um presidente sofreria impeachment por usar o seu direito constitucional de veto? O parlamento poderia derrubar seu veto. Cada um com as suas responsabilidades. A constitucionalista Vera Chemin, da Fundação Getúlio Vargas, pulverizou a desculpa do presidente: "Não há nenhum sentido jurídico na afirmação do presidente. A Constituição dá a ele a competência privativa de sancionar ou vetar projetos de lei".

Bolsonaro quer mais. O mercado é capaz de tudo se os intereresses forem atendidos. O projeto de poder, portanto, pode durar muito tempo. Preparem-se.