Carros, leitores e competências
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Carros, leitores e competências

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Recebo muitas mensagens de leitores.

Parte delas por e-mail, que já é algo considerado pelos modernos como quase tão ultrapassado quanto a carta. Um jovem nerd – termo que os mais antigos como eu ainda utilizam para designar os usuários fanáticos das tecnologias surgidas com a internet, que os velhos ainda chamam de novas – me disse: “O uso do e-mail entrega a idade da pessoa. Minha avó usa”. Fenômeno semelhante acontece com as redes sociais. Um amigo meu se tornou objeto de escárnio quando deixou escapar esta enormidade:

– Coloquei no meu Orkut.

– Orkut!!!! Mas tu é velho, hein!

– Ele quis dizer no Myspace – zombou outro.

Eu mesmo sou visto como anacrônico.

Não só por acreditar que o professor Wanderley Luxemburgo ainda pode ser um bom e vitorioso treinador de futebol e que não há salvação fora da política, que começa e termina nas urnas, exigindo seriedade e conhecimentos quase esportivos do eleitor, mas por postar muito no twitter. Recentemente tomei um choque brutal do qual ainda não me recuperei totalmente:

– Twitter é coisa de jornalista. Facebook é coisa de velho, tio.

Parece que a galera – espero não estar usando uma gíria tão atual quanto chamar gata de pequena – anda no Instagram e no Snapchat. Não adianta correr para lá. Se vocês entrarem, eles saem. Certo é que recebi uma mensagem por e-mail avaliando meu trabalho de cronista. A pessoa, temendo minha inconfidência, pediu para não ser identificada. Escreveu o que segue: “Como confiar numa pessoa que não tem filhos, não sabe dirigir, não tem gato nem cachorro e confessa não ter caixa de ferramentas? Para que serve um homem assim?

Sobre o que pode falar? Não consigo me ver conversando com um tipo que nunca teve um carro”.

O e-mail, longo como uma carta de antigamente, entrou em detalhes que abalaram minha sensibilidade antropológica: “Que experiência você tem da vida? Vou dizer de uma vez por todas: nenhuma. Nunca trocou uma fralda, nunca trocou um pneu, jamais levou um cachorro para passear numa noite de inverno, nunca fez uma torneira parar de vazar, nunca tirou cocô de gato, nunca socorreu um vizinho com uma furadeira, nunca fez nada que toda pessoa normal faz quase todo dia. Só lhe resta falar de política e de coisas abstratas. É por isso que você faz ressalvas ao trabalho heroico do juiz Sérgio Moro”.

Entrei em crise, se é que alguma vez não estive. Não entendi a lógica da conexão final. O que tem a ver não ter carro com gostar ou não de Sérgio Moro? Quando, enfim, entendi eu me abalei ainda mais. Recorri aos meus exemplos salvadores para amenizar o golpe: um médico do sexo masculino pode fazer partos sem nunca ter tido filho. Críticos costumam ser melhores quanto menos praticaram o que analisam. Ex-jogadores de futebol, exceto Falcão e Tostão, quase sempre estão entre os piores comentaristas de rádio, jornal e televisão – Pelé e Ronaldo Fenômeno não me deixam mentir, embora eu tenha vontade. Depois dessas racionalizações de praxe, encarei a situação, como dizia um narrador enfático, “de frente”: ainda posso comprar uma caixa de ferramentas.

Terei salvação?

Há vida fora das redes sociais?