Cartão de crédito, futebol e literatura

Cartão de crédito, futebol e literatura

Da ciência ao acaso

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      Bem que irmão Laudes me avisou: usar cartão de crédito em Rivera, no Uruguai, é perigoso. Ele fez isso e teve muitos problemas. Começaram a pipocar compras, inclusive de passagens áreas, em cidades brasileiras no cartão dele. Foi um transtorno para resolver. A loja eximiu-se de qualquer responsabilidade. Pois eu fiz uma compra por lá antes do Natal. Na manhã deste 25 de dezembro notei um SMS com uma despesa de R$ 15 no cartão. Liguei e recebi a confirmação do gasto. Cancelamos o cartão. Agora é acompanhar e refazer débitos. As facilidades modernas, indiscutivelmente práticas, produzem cada vez mais desconfianças. Os sistemas não são tão seguros quanto fazem crer. Em Rivera, comprar com cartão tem outro inconveniente: perde-se a taxa do dólar especial praticada para quem paga com dinheiro. Que tal!

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      Como sabe o leitor, o excesso de tempo livre me leva a gastá-lo com futebol. Fiquei chocado com a venda do Cruzeiro de Belo Horizonte ao ex-jogador Ronaldo. Agora, parece, será a vez do Botafogo do Rio de Janeiro ser vendido. Na Europa, muitos clubes têm donos. O PSG pertence aos também donos do Catar. Na Inglaterra, consta que mafiosos russos levam dinheiro no “esporte bretão”. Eu não torceria por um clube com proprietário. Não consigo ver Inter e Grêmio com um dono. Os modernos, sempre tão “científicos” e assertivos, garantem que só a “profissionalização” trará êxito. Barcelona e Real Madrid continuam associações. Inter e Grêmio, com seus dirigentes amadores, ganharam mundiais. Ah, agora não será mais assim! Pode ser. Passagem ao modo entretenimento como negócio absoluto. Deixaremos de acompanhar? Acho que não. Afinal, o que se poderia fazer dos longos finais de semana?

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      Os neotáticos acreditam em futebol científico e atribuem grande importância ao treinador e seus esquemas. Os jogadores seriam peças executando lances previamente definidos. Até o chutão do goleiro aproveitado por um atacante passa a ser visto como ciência. O português Jorge Jesus teve passagem iluminada pelo Flamengo, que não foi mais o mesmo depois da saída dele. Jesus, porém, não tem êxito com o Benfica. O mesmo especialista que lhe atribuía o sucesso do Flamengo, justifica-o dizendo: “No Benfica, ele não tem um time tão bom e enfrenta, na Liga dos Campeões, adversários mais difíceis”. Pois é... Outro português, Abel Ferreira, ganhou a segunda Libertadores seguida com o Palmeiras. O neotático diz que foi graças ao trabalho do treinador. Um pênalti perdido por Hulk, do Atlético mineiro, permitiu ao Verdão avançar sem vencer com bola rolando. Uma falha bisonha do bom jogador Andréas Pereira do Flamengo deu a vitória ao time de Abel na final da competição. Triunfo do planejamento ou do acaso?

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Tolstói: “Sabe-se que o homem tem a capacidade de mergulhar todo inteiro numa ocupação por mais insignificante que seja. E sabe-se também que não existe nenhuma ocupação insignificante que não possa crescer de importância até o infinito, quando a atenção nela se concentra inteiramente”. O futebol é maravilhosamente democrático: permite que cada um possa entender e dizer que o outro não entende.

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Desmond Tutu, falecido no último domingo: "Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor".

 


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