Carta chilena

Carta chilena

Plebiscito coloca chilenos em busca do aprofundamento da democracia

publicidade

     A América Latina não é para apressados. Os ciclos não abandonam a sua lógica: o eterno retorno. Cada um que julgue se isso é bom ou ruim. Depois do neoliberalismo de Mauricio Macri na Argentina, o peronismo de Cristina Kirchner e aliados voltou ao palco. Evo Morales, na Bolívia, foi derrubado com ajuda de uma fraude patrocinada pela Organização dos Estados Americanos (OEA). O MAS, partido de Evo, já está de volta ao poder pelas urnas, com vitória folgada. Morales emplacou um ministro seu na presidência. No domingo, os chilenos votaram para enterrar de vez a era Pinochet. Com 78% de votos favoráveis, garantiram a convocação de uma constituinte com 50% de mulheres, 50% de homens, nenhum dos atuais eleitos e a possibilidade de candidatos sem vínculos partidários.

      A constituição de Augusto Pinochet, ainda vigente, não protegia saúde nem educação. Era a carta dos sonhos dos defensores do Estado mínimo em proteção social. Já na prática o que havia era o máximo em repressão. As ditaduras com tanques nas ruas saíram de moda. Vivemos a época das democracias iliberais e dos governos nacional-populistas de extrema direita, ou esquerda, apoiados em redes sociais. Esse modelo poderá ter o seu eixo destro abalado se Donald Trump for derrotado nas eleições do começo de novembro deste ano. Os dados serão lançados. O Brasil não tira o olho do pleito americano. Se Biden vencer, o governo Bolsonaro ficará isolado, em companhia dos distantes e pouco recomendáveis governantes da Hungria, da Turquia e das Filipinas. Um quadro de horror.

      Uma parte considerável das pessoas não quer extremos nem ideologias cristalizadas. Nem neoliberalismo nem marxismo. Nem Estado máximo nem Estado mínimo. As socialdemocracias europeias, como a sueca, ressoam para muita gente, inclusive eu, como um caminho do meio interessante. Para os marxistas, é pouco. Para certa extrema direita, comunismo disfarçado. Na exacerbação atual, até Biden é comunista de carteirinha. Por que os ciclos persistem? Porque os que chegam ao poder não entregam o que prometeram. Na melhor das hipóteses, entregam menos. A extrema direita promete menos à maioria. Poderia ficar? Dificilmente, pois as necessidades são muitas e requerem políticas públicas robustas.

      O ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Ricúpero, em entrevista a Jamil Chade, sustentou: Se Trump perde, será um acontecimento importantíssimo, porque todo esse clima político-ideológico que teve seu maior êxito com sua eleição, sofrerá enorme enfraquecimento. Os problemas não vão desparecer. Uma eventual eleição de Biden não irá resolver por milagre problemas como a globalização, a China, o aquecimento global e todos os outros. Mas, pelo menos, cria outra agenda”. É disso que se trata. Que agenda prevalecerá para os próximos anos? Tudo parecia agendado. De repente, os eleitores começaram a mudar os planos. O Chile acendeu nova sinalização: como está, não pode ficar. Não se quer o retorno ao passado. Nem o salto para um futuro no escuro. A hipótese que se ilumina abala os extremos: democracias fortes, equilibradas e com Estado a serviço de todos.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895