Como eu me vi com o coronavírus
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Como eu me vi com o coronavírus

Lembranças de uma internação inesperada

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      Mais de um mês se passou. As lembranças me vieram como se fossem antigas. Quando não dava mais, em 30 de março de 2020, pensei: preciso ir para a PUCRS. Eu vinha tendo uma enorme dificuldade para falar. Achava que era uma faringite. O sinal vermelho ligou quando senti dor num testículo e perguntei ao generoso dr. Elmar se podia ser da infecção. Ele respondeu: “Se for virose, sim”. Então eu mandei um e-mail para Solimar Amaro (gratidão eterna), assessor direto do reitor da PUCRS, Evilázio Teixeira, pedindo ajuda. Em pouco tempo eu estava no Centro Clínico fazendo o teste para coranavírus. Eles me providenciaram um médico. Jamais esquecerei de uma moça, Carla, administradora do laboratório de análises, ouvinte do nosso programa Esfera Pública, que saiu do seu lugar e atravessou conosco de um prédio a outro para que nada pudesse me dificultar a chegada ao setor onde o infectologista Fabiano Ramos me receberia.

      Começava ali o meu caminho para a internação com coronavírus. Senti medo, solidão e angústia. Fui atendido o tempo inteiro com carinho e competência. Não tive falta de ar, mas estava com uma pneumonia viral que afetou minha capacidade de expressão. Perdi o apetite e cheguei a ter náusea só de colocar comida salgada na boca. Ali, no hospital da PUCS, no quarto 854, eu me sentia protegido. Via árvores, morros e um naco de céu. Pela primeira vez pensei objetivamente na possibilidade de morrer. Eu tinha o vírus dentro de mim e não sabia como ele se comportaria. As visitas diárias de uma jovem médica equatoriana, Ana Elisabete, e do doutor Fabiano Ramos funcionavam como um bálsamo: eu os ouvia e ganhava novas forças. Acreditava que tudo se resolveria e que a vida venceria.

      Os enfermeiros e médicos plantonistas me aliviavam de qualquer incômodo. Nunca estive felizmente em estado grave. Não fui para UTI nem precisei de oxigênio. Mas eu tinha a dúvida na alma e um pulmão chiando. Comecei a receber uma infinidade de mensagens de apoio: da França, dos Estados Unidos, da Itália, do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia, de Santana do Livramento. Meus amigos e familiares se desdobravam para me confortar. Ao meu lado, de máscara e roupa especial, Cláudia era fortaleza, alento, presença essencial. Eu tinha medo da imensidão das noites e numa delas precisei pedir um calmante.

      Numa tarde em que se tornou impossível ler ou ver televisão, que eu deixava ligada em velhos jogos pelo barulho, um amigo entrou pelo whatsApp e, com a sua sabedoria e experiência, me acalmou: o doutor Gilberto Schwartsmann. Quatro ou cinco vezes por dia ele me contatava, pedia informações sobre febre e sobre a minha taxa de concentração de oxigênio no sangue. Quando melhorou e lhe disse 99, ele brincou: “Nem o Messi tem uma taxa assim”. Em casa, voltei a ficar angustiado com uma dor no pulmão direito e com a dificuldade de falar. O doutor Fabiano, por telefone, mostrou a tranquilidade de sempre, dirimindo dúvidas, esclarecendo e orientando. Desde o começo ele tem sido fundamental. Enquanto isso, Schwartsmann me sugeria músicas, filmes e sua disponibilidade para conversar: “Se precisares, tu podes entrar em contato comigo 40 vezes por dia”. Tomei antibiótico na veia, tamiflu, anticoagulante e cloroquina. Tomei um banho de amor e solidariedade. Depois falarei de Leandro Minozzo, um anjo da guarda.

Já se passaram 40 dias da internação, 36 da alta. Estou muito bem. Comecei um tratamento para a garganta. Minha voz vem melhorando muito. Voltei ao Esfera Pública como um jogador que retorna aos poucos. Retomei atividades acadêmicas.

Acompanho todas as notícias sobre vacinas e medicamentos.

Sonho que voltamos à normalidade.