Confúcio, a felicidade como disciplina
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Confúcio, a felicidade como disciplina

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      O avião foi inventado por Santos Dumont? Os norte-americanos afirmam que não. A filosofia foi criada pelos gregos? Os chineses acham que não. Homero escreveu a “Ilíada” e a “Odisseia”? Há dúvida de que ele tenha existido. Até a identidade de William Shakespeare é muitas vezes questionada. Seria de Sócrates (469-399 a.C.) o “só sei que nada sei”. É o que se diz. Salvo se foi uma pérola dada ao mestre por Platão. Uma descoberta? O chinês Confúcio (551 – 479 a.C) teria dito praticamente a mesma coisa: “O que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos: eis o verdadeiro saber”. Não sabemos, por exemplo, se tudo o que é atribuído a Confúcio foi realmente por ele escrito. A frase de Sócrates é mais redondinha do ponto de vista do marketing filosófico.

O pai de Confúcio, magistrado e guerreiro, funções que pareciam não se excluir na época, casou-se, aos 70 anos, com uma menina de 15. O casal teve onze filhos. Prova de que o velho se sentia muito jovem e bélico. Há quem diga que ele não era tão idoso assim e que só tinha 65 anos. Um rebento por ano. Confúcio era o mais novo da galera. Perdeu o pai aos três anos de idade. Aos 15, resolveu começar a aprender as coisas da vida. Seria pastor, primeiro-ministro, vaqueiro, funcionário público e guarda-livros. Não necessariamente nessa ordem. Casou-se aos 19 anos. Tudo parecia encaminhado para uma longa vida de procriação. Superaria o pai? Não. Teve um filho e morreu aos 72 anos. Terá aprendido com a biografia do genitor como ensina nesta bela fórmula: “você não pode mudar o vento, mas pode ajustar as velas do barco para chegar onde quer”? Onde ele queria chegar?

Como não sabia, viajou. Como diz a linda canção de Fernando Brant e Milton Nascimento, “todo artista tem de ir aonde o povo está”. Confúcio foi. Ele viria a ser um artista do pensamento. Meteu o pé no barro e a mão na massa. Viu de perto as dores e as delícias das vidas dos seus contemporâneos. Pensaria: “Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade”. Das andanças, tirou uma conclusão categórica: precisava mudar tudo. Estava tudo errado. Para começo de conversa, era preciso mudar a forma de governar. Havia impostos e punições demais.

Como se vê, o tempo passa e o mundo tem dificuldade para ser original. Aos poucos, Confúcio construiu um edifício moral aplicável ao cotidiano cujos andares seriam: humanidade, gentileza, integridade, fidelidade, sentimento de honradez e justiça. Para ele “a experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido”. Isso é ruim? Depende. O mundo que Confúcio queria reformar estava mal, no entender dele, por ter perdido valores do passado e da tradição. Ele ensinaria a importância do respeito aos mais velhos. Como Platão, que escrevia filosofia dialogada, Confúcio teria os seus Analectos (Diálogos). Acreditava na formação do caráter pela educação e na disciplina como tempero da alma. Alto e vestido com correção, pregava simplicidade: “Aja antes de falar e, portanto, fale de acordo com os seus atos”.

Felicidade como autocontrole – Não é fácil ser tão simples e coerente como recomendava Confúcio. Ele se tornaria o rei das belas frases. Como esta: “A melhor maneira de ser feliz é contribuir para a felicidade dos outros”. Como praticar isso quando se vive num mundo egoísta pressionado por metas, objetivos, cobranças, desafios, competições, lutas de poder e prestígio? Confúcio achava que era possível. Os seres humanos para ele não eram um rebanho insensível. Cada homem seria capaz de aprender e se domar. Ele podia ser muito pragmático: “De nada vale tentar ajudar aqueles que não se ajudam a si mesmos”. Direto: “Muitos procuram a felicidade acima do homem! Outros, mais abaixo. Mas a felicidade é exatamente do tamanho de um homem”.

Qual o tamanho de um homem? Confúcio mediria dois metros e seis centímetros. Ele chegou a ser primeiro-ministro quando tinha 53 anos de idade. Depois de uma decepção com seu chefe, pediu demissão e teria passado 14 anos em busca de um soberano capaz de ouvi-lo e entendê-lo. Não faz pensar em Platão em Siracusa? O que ele ensinou de fato? Sinceridade, retidão, obediência, disciplina, autocontrole e honestidade. A felicidade segundo ele é simples: não enganar as pessoas, não se iludir, não esperar muito dos outros, não perder tempo pensando na morte, ter confiança. Fácil, não? Seria dele esta pílula hoje controvertida: Dê um peixe para um homem e ele comerá um dia. Ensine-o a pescar e ele comerá por toda vida”.

Confúcio chamava-se Kong Qiu. Foram os jesuítas que lhe inventaram um nome ocidentalizado. Nascido no tempo das Primaveras e dos Outonos, coisas extraordinárias teriam acontecido durante a noite da sua chegada, entre as quais o pouso de dois dragões no telhado da casa. A imaginação voava naqueles dias. O seu pensamento virou religião de Estado. Já notou o leitor que sábios, gregos ou chineses, ensinavam o mesmo que nossos avós? Eles eram sábios e nós sabíamos. Somos sábios e nossos filhos não sabem disso?