Consequencialismo lacrador
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Consequencialismo lacrador

Colunista desejou morte de Bolsonaro para lacrar


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Lacrar, lacrou

 

      Nas redes sociais importa lacrar. Essa ideia migrou para o jornalismo. O colunista da Folha de S. Paulo Hélio Schwartsman, conhecido pelo seu estilo límpido e por sua argumentação filosófica, caiu na cilada. Resolveu lacrar. Lacrou. Só se fala dele. Fez um texto desejando a morte de Jair Bolsonaro. Não se deseja morte de quem quer que seja. É verdade que Bolsonaro desejou a morte de Fernando Henrique Cardoso por fuzilamento e de Dilma Rousseff, como se pode ver na internet, por câncer ou infarto. Estava eticamente errado. Esse exemplo não pode ser seguido nem serve de álibi. Foi uma bola fora.

      Schwartsman sustentou o seu desejo na filosofia consequencialista, que coloca os resultados acima das intenções e princípios abstratos. Se um trem vai atropelar três crianças e posso manejar uma chave e desviá-lo para que mate um idoso, devo fazer isso. Só o número de mortos menor já basta para satisfazer o consequencialismo. Para Schwartsman, a morte de Bolsonaro poderia alertar pessoas para o risco do coronavirus e salvar vidas. Na ânsia de lacrar, o jornalista e filósofo misturou consequencialistas com sofistas, aqueles que usam a retórica para falsear a lógica. Consequencialistas são também os que aceitam interpretar a lei, ou a Constituição, contra a literalidade do texto em nomes de resultados. Os defensores da prisão depois da condenação em segunda instância, em oposição ao texto constitucional, são consequencialistas fervorosos.

      Sérgio Moro é o mais notório consequencialista brasileiro. O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, também entra nessa categoria. Os ativistas judiciais fazem todos parte desse time. Já os garantistas, que tanto irritam a mídia e os que desejam punições rápidas e duras, ficam com os princípios e o texto contra as liberdades interpretativas de conveniência. O problema do consequencialismo é a dose. Helio Schwartsman passou do ponto. Talvez estivesse cansado de escrever bem e de ser lido apenas por gente prudente e elegante. Decidiu mostrar atitude, pegada, senso extremo de provocação. Produziu um efeito contrário ao desejado. Gerou empatia com o alvo que pretendia atingir. O ministro da Justiça, que assumiu o papel de advogado particular do presidente da República, gostaria de enquadrá-lo na velha Lei de Segurança Nacional. Pelo que mesmo?


      Não é crime desejar o mal do outro. É feio. Antiético. Triste. Além disso, o ministro da Justiça abriu o flanco para o enquadramento na mesma lei de todos os bolsonaristas que pregam o fechamento do Congresso Nacional e do STF. Até agora o governo via nessas manifestações ruidosas apenas liberdade de expressão. Schwartsman pisou feio na bola. Inaugurou o consequencialismo lacrador sofista na grande mídia. Outras correntes filosóficas principialistas perguntam: se mexer na chave da linha férrea para salvar três, com a consequência e a consciência de matar apenas um, não há homicídio doloso? Se queria lacrar, ainda que inconscientemente, lacrou. Agora é aguentar as consequências. Quem diz o que quer quase sempre ouve o que não quer.