Conto: eu penso em Zélia
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Conto: eu penso em Zélia

Recordações de um golpe presidencial

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– Foi naquele ano que o Brasil mudou de vez.

      Ouvi isso e fiquei mais atento. Que ano seria esse? A pessoa que falava, na mesa ao lado na praça de alimentação do shopping, andava pelos 60 anos. Um homem alto, magro, mas com uma barriga protuberante, olhos vivos, cintilantes, casaco azul, camisa branca, estilo Roberto Carlos, se fosse preciso resumir em detalhes. O interlocutor era um pouco mais gordo, bem mais jovem, pelos 35 anos, barba espessa, sorriso estampado, como se estivesse acompanhando sem muito interesse.

– Mudou a vida do país e ainda mais a minha vida.

– Isso foi em 1989?

– Não. Isso em 1990.

– Tem certeza?

– Como não ter? Eu devia ter casado naquele ano.

      O outro aumentou o sorriso. Parecia fazer esforço para se manter conectado. Em que pensaria de fato? Por onde andaria a sua imaginação?

– “E nessa loucura de dizer que não te quero/Vou negando as aparências/Disfarçando as evidências” – cantarolou o cara de azul.

– Que é isso? Que música horrível é essa?

– Horrível!? Isso é um dos hits de 1990. Eu me lembro tudo daquele ano, de cada música, de cada discurso dos políticos, de cada loucura. “Pense em mim, chore por mim/Liga pra mim, não, não liga pra ele...”

– E essa agora?

– Leandro e Leonardo.

– É, deve ter sido um ano pesado mesmo.

– Musicalmente foi um ano bom.

      O mais novo fez um ar de haja paciência ou de gosto não se discute. Não havia muita gente no shopping. Eram pouco mais de três da tarde. A vida não parecia ter pressa em consumir. Por alguma razão, que nunca saberei, o mais velho exibia um ar nostálgico, como se lembrasse com saudades dos seus piores momentos ou curtisse as dores passadas.

– Por que não casou?

– A Zélia não deixou.

      O mais jovem sorveu a sua cerveja tão moderadamente que parecia dizer que se sentia culpado por estar bebendo naquela hora. Seriam tio e sobrinho? Seria colegas de trabalho? Seriam estranhos? Quem eram?

– Que Zélia?

– Zélia Cardoso de Mello, a economista mais idiota que já apareceu na face da Terra, uma desvairada que hoje vive escondida em Nova York, a mulher que Collor de Mello escolheu para comandar a Fazenda e destruir nossos sonhos. Quando eu penso na Zélia, ainda hoje, fico pê da vida.

– O que ela fez mesmo?

– Você não sabe?

– Não me lembro.

– É por isso que nos ferramos: você não sabe quem foi a Zélia, não gosta de música sertaneja, não entende o Brasil. De que você gosta?

– De funk.

      A resposta deixou o mais velho estupefato. Parecia despreparado para uma alternativa tão simples assim. Tomou um gole generoso da sua cerveja. Sem culpa alguma. Sacudiu a cabeça incrédulo. Meteu o pé:

– A Zélia cometeu o maior crime que eu vi nesta minha movimentada vida: confiscou a grana, inclusive a poupança, dos brasileiros. Meteu a mão. De repente, ninguém podia sacar acima de 50 mil. Foi apenas o caos.

– Ah, agora me lembro disso. Estudei pro vestibular.

      Houve um silêncio. O mais velho, depois de algum tempo de hesitação, cantarolou mais um pedaço de “Evidências”. Achei que o olhar dele estava mais lacrimoso, quase vítreo. Era emoção ou ansiedade. Eu me ajeitei na cadeira para ouvir mais confortavelmente. Ele ia falar.

– Eu odeio a Zélia. Tem noites que eu penso nela e me digo: vai apodrecer em Nova York. No Brasil, sempre alguém vai se lembrar do que ela fez. Aqui, garanto, ela não teria paz. Ninguém fez pior do que ela.

– Não é meio machista isso?

– Machista? Que loucura é essa?

– O Collor, que era o presidente, não continua por aí?

      O homem de casaco azul não sabia o que dizer. Era visível que não processava a crítica. Olhava para o mais jovem como quem diz “não sabe nada, inocente”. Acontece que o mais novo continuava sorrindo.

– Você não casou por quê?

– Zélia trancou meu dinheiro.

– Precisa dinheiro pra casar?

      Dois mundos se cruzavam e não se entendiam. O homem que odiava Zélia Cardoso de Mello resolveu, ao que parece, encerrar a discussão:

– Só quem viveu aquilo é que pode falar.

      Calou-se. O outro sorriu mais gentilmente. Eu me levantei e comecei a andar pelo shopping. Quando botei o pé na rua, sem notar que o tempo tinha voado, o sol se deitava preguiçosamente sobre o rio. Em 1990, eu ouvia os Engenheiros do Hawaii cantando “Era um garoto que como eu...” e não tinha um centavo no bolso. Muito menos no banco.