Conto: nota fiscal

Conto: nota fiscal

A morte de um menino negro

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      Lucas era um adolescente tranquilo. Batia uma bola redondinha e jogava charme para as meninas, que correspondiam entusiasmadas. Morador da periferia, via-se no centro do mundo, o seu mundo, o mundo dos seus familiares, dos seus amigos, dos seus amores e dos seus dias. Gostava de games, de rap e de um ousado visual hip-hop. Enfim, era um rapaz que como os outros amava a vida, a música e os jogos eletrônicos. Sempre que saía de casa, a mãe, dona Nilda, dizia-lhe:

– Leva os documentos.

      Ele obedecia. Uma vez, estava pronto para sair com o Serginho, parceiro de baladas, peladas e confrontos virtuais sem fim.

– Não esquece de levar documento – recomendou dona Nilda.

– Tá.

– Por que ela sempre diz isso? – questionou Serginho.

– Porque negro sem documento é suspeito – explicou Lucas.

– Suspeito de quê?

– De tudo.

– Engraçado. Nunca suspeitam de mim.

– Claro. Você é branco.

      Serginho descobriu um hábito curioso do amigo. Lucas parecia um fiscal do ICMS. Pedia nota fiscal de tudo. Até de boné em supermercado. Na época, comprar CD era um barato. De resto, ainda se falava “barato”. Era um termo que Lucas havia aprendido com o pai. Falar “barato” dava um ar mais velho. Lucas falava “barato” para a Luíza, que tinha dois anos mais do que ele e belos olhos negros. As coisas acontecem quando menos se espera. Parece uma conspiração do universo contra os distraídos, mas é algo muito pior do que isso, uma coisa que se dissimula apesar de ser muito evidente. Quem falava assim era o Seu Raniel, pai do Lucas, que gostava de uma pegada filosófica. Essa conversa era sobre racismo estrutural, o tema da sua vida.

      Numa tarde de verão, Lucas esqueceu de pegar documento. Saiu sozinho para dar uma volta no bairro. Entrou no supermercado para comprar um CD que vinha namorando: “Nó na orelha”. Era fã do Criolo. A conspiração do destino, que é como alguns chamam a soma dos erros e preconceitos humanos, estava em marcha. Em breve, seria uma estatística. Os telejornais não lhe dariam mais do que uma nota. Saiu do super meio correndo para encontrar a Luíza e mostrar a novidade. Os seus belos cabelos black ornavam a sua corrida. Serginho gritou. Não foi ouvido. Minutos depois, seguranças corriam atrás de Lucas. Foi pego antes de chegar à parada do ônibus. A conversa foi rápida:

  Correndo de que, neguinho?

– De nada. Pressa mesmo.

– Que tem aí?

      Os seguranças eram dois armários brancos. O mais volumoso escancarou a sua impaciência. Quis ver o que o guri carregava.

– Um CD do Criolo – disse Lucas.

– Cadê a nota? O ticket, moleque.

      Lucas revistou-se. Não achou o papel. Sentiu medo. Tentou correr. Foi alcançado e espancado até morrer. Serginho viu tudo. Na calçada, o corpo e o CD. No chão do supermercado, o ticket. Banal.

– Acidente de trabalho, derrapagem – sustentou a defesa.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895