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Conto: uma pessoa

Como enfrentar o preconceito?

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Ela tinha 20 anos. Amava Maria Bethânia, Raul Seixas e os Rolling Stones. Usava calça jeans camisa de mangas compridas e um chapéu de caubói. O cabelo era muito preto e curto. Estava sempre sozinha ou na companhia de Mariana, uma menina magra e loura que apenas sorria. Os meninos riam dela. As meninas não sabiam como se comportar diante dela. Os adultos cochichavam quando a viam. Todos sabiam, contudo, que podiam contar com ela para cuidar de doentes, ficar com as crianças quando alguém precisava sair, acompanhar velhos ao hospital ou passar a noite num velório. Ela jamais dizia não. Ninguém lhe dizia sim ao que desejava.

      Um dos seus hábitos mais solitários era assistir à chegada e partida do trem de passageiros. A plataforma dividia-se em duas partes. De um lado, ela. De outro, os demais. Numa carta, anos mais tarde, diria: “Ninguém me viu chorar quando o sol caía por trás dos eucaliptos. Ninguém me viu pedir companhia, sorrir para um passante a caminho da estação, estender a mão no meio da noite. Ninguém me ouviu quando eu mais tinha coisas para contar, coisas que nunca paravam de bulir dentro de mim”. Ela dizia “bulir” com os olhos baixos, pois sempre baixava os olhos quando, por necessidade, alguém lhe dirigia a palavra com uma ordem dissimulada como pedido. Ela sempre obedecia. Acreditava que assim se faria amar.

      A mãe de Mariana vivia fora de órbita. Não se importava com a filha. Era assim. A moça de jeans e chapéu de caubói amava Mariana, que não sabia o que era o amor. Todos falavam de coisas imorais que supostamente elas faziam juntas, embora ninguém as tivesse visto nem sequer de mãos dadas.  Ninguém dizia o nome dela. Preferiam dizer “Ela”. Simplesmente, Ela.

– Ela já passou no rumo da estação.

      Havia sido sempre assim? Desde, ao menos, quando ela tinha seis ou sete anos e passou a ser chamada de estranha. Não queria vestido. Não queria rosa. O pai logo se horrorizou. Não escondia o asco que sentia. A mãe, depois do choque, que confessava sem parar às amigas, tentava aceitar. Só não sabia o quê? Pois ela nada dizia, nada pedia, nada contava. Nem para Mariana. Quando se sentia muito angustiada, caminhava pelos campos de onde voltava com flores, ervas e ovos de pássaros para a amiga. Podia andar léguas sem se cansar. As velhas não deixavam de falar:

– Essa daí não tem medo de cachorro nem de boi brabo.

– Nem de cobra.

– Aí tem coisa.

Um homem – Então, numa primavera, tudo aconteceu. As mães não a chamaram mais para ficar com as crianças. Os velhos preferiam ficar sozinhos a tê-la como companhia. A mãe de Mariana repentinamente passou a controlar a filha. Restavam-lhe os velórios para ter com quem ficar. Mas morria pouca gente. Um dia, quando a tarde caía, pois há coisas que parecem sempre acontecer quando a tarde cai afastando esperanças, a mãe lhe disse:

– Vai embora. Ninguém te quer aqui.

      Olhou a para mãe e viu uma sombra nos olhos dela. Um buraco negro. Fugiu para a estação. Quando o trem chegou, parecia saber o que procurava. Finalmente sorriu. Um sorriso esquisito para um homem que a fitava com olhos zombeteiros. Tinha uma cicatriz no lado esquerdo do rosto. Ele desceu. No dia seguinte, partiram juntos no trem. A comunidade toda estava lá para vê-la ir embora. Um velho de barba longa não se impediu de dizer:

– Com homem, pode ficar.

      Não se despediu do pai. Para a mãe, destinou uma única frase:

– Vou te odiar até o meu último dia.

      Nos 24 anos que se passaram lentamente, não deixou um só dia de pensar na mãe e de odiá-la. Cumpria rigorosamente a sua promessa. Não fosse isso, poderia dizer que, depois de muito sofrimento, era feliz. Estava casada com Mariana, outra Mariana, e tinham dois filhos. Então, como de costume no roteiro da vida, normalmente de pouca originalidade, recebeu um telegrama. Ainda se enviavam telegramas. O último que recebera, oito anos antes, informava a morte do pai. Não fora ao enterro. Agora, era a doença da mãe. Algo se mexeu dentro dela. Uma placa tectônica. Sentiu que era a hora de retornar. Trem não havia mais. A linha férrea apodrecia ao relento como uma lembrança inútil. Voltou de ônibus. Encontrou tudo praticamente igual. Andou pelos campos e recolheu ovos de pássaros.

      Na cabeceira da cama da mãe, não se conteve:

– Por que me mandou embora?

– Pela tua felicidade.

– Viu como eu fui?

– Vi. Eu te odiei por isso.

      A mãe morreu uma semana depois. Nada mais se disseram. No cemitério, viu uma foto de uma moça loira num túmulo precisando de cuidados: Mariana Furtado (1960-1982). Na fotografia, único registro daquela viagem perdida no tempo, Ela aparece sozinha na estação abandonada. Parece olhar o vazio. Do outro lado, os eucaliptos em fila. Não se sabe quem tirou a foto.