Coração nas trevas

Coração nas trevas

Na solidão da doença e do medo

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      Estava frio. Em dezembro? Sabia que era dezembro ainda que não atinasse o dia exato. Há quanto tempo estava ali? Mais de um mês certamente. Ouviu o barulho de uma sirene e apertou os olhos. Deixou o filme passar sem pressa alguma. Era a sua melhor maneira de levar o tempo: ver e rever o filme da sua vida. Seria melhor dizer um telejornal. O apresentador chamava reportagens que nem sempre entravam. Lá estava ele se formando em Direito. Agora, na imagem, era o seu casamento. Em seguida, filhos, formaturas, festas na praia. Por que estava ali sozinho tendo uma família tão grande como a sua?

      Era tão estranho lembrar tanto do passado e tão pouco do presente. Por vezes, flutuava. Eram segundos com tamanho de boras. Um resto de luz entrava pela janela mal coberta num canto pela cortina branca. Era por ali que via o mundo. Não fosse parecer pedante, diria que era personagem de Platão no mito da caverna. Não estava de costas para a luz. Nem de frente. Era uma visão oblíqua. Foi aí que se perguntou: parecer pedante a quem? Estava sozinho. Uma solidão gelada e longa. Aquele lugar era a Sibéria com um vestígio de vegetação tropical à vista. O verde das árvores era quase preto de tão denso. O que deveria fazer? Concentrar-se na flutuação que o fazia parecer um náufrago encolhido num bote ou tentar enxergar um pouco mais pela nesga da janela? Então se perguntou o que era pensar e por que pensava o que pensava e não outra coisa? Não escolhia os seus pensamentos.

      Tentava afastar os mais incômodos e, às vezes, conseguia. Não podia, no entanto, impedir que retornassem. Empregava boa parte do seu tempo nesse combate contra os pensamentos negativos que ameaçavam inundá-lo. Qual seria o termo adequado: inundar, sufocar, asfixiar? O resultado não era o mesmo? Uma sensação estranha. Parecia balançar no mesmo lugar como se repousasse sobre uma onda sem grande intensidade. Ia e via carregando a mesma impressão: precisava se agarrar à borda para não submergir. A borda de quê? Não era um barco. Além disso, estava num ponto fixo. Seria um barco amarrado a um ancoradouro? O apresentador chamou outra cena da sua vida: estava num tribunal. Devia era agradecer por aquele arquivo tão rico de imagens capaz de preencher um tempo que se afigurava eterno ainda que datado. Sabia que era dezembro por alguma razão que desconhecia. Era dezembro, sim.

Luzes e sons – Lembrava-se claramente de que duvidara da ameaça. Não, dizia, com ele não aconteceria. Estava protegido. Viu os primeiros sinais da noite pelo canto da janela. Depois, apagou-se por algum tempo. Quando retornou, o apresentador chamava um vídeo sobre os seus melhores momentos como pai. Achava boa essa ideia de dar a cada pessoa os famosos quinze minutos de destaque, não de fama ou glória. Tinha tempo para pensar nessas coisas bizarras. Era um tempo sem marcações, salvo pelo que vazava pela cortina mal fechada. Nenhum som conseguia entrar. Vez ou outra, ouvia um bip. Por que não se erguia? Por que não se virava para enxergar melhor? Por que se sentia assim imobilizado?

      Em algum momento da noite, daquela noite que sabia ser de dezembro, sem saber como sabia, viu luzes pelo canto da janela. Era tão pouco o que podia ver, quase nada, estilhaços de cores. Viu fiapos de vermelho, fiapos de azul, fiapos de verde, uma profusão de pontos incandescentes. Tudo aquilo era estranho, espiralado, circular, um arco-íris no meio da noite sem um som. Uma cascata de cores escorreu na sua cabeça como se dela jorrassem luzes sobre uma roda-gigante num parque onde nada mais se movia. O que era aquilo? Sempre gostara de definir as coisas, de dar nomes aos bois, de achar a tipificação exata para o que caía na sua mesa. Agora lhe faltava uma palavra, uma expressão, como se nada pudesse se fixar na sua mente gelatinosa.

      Viu cavalos e jogos de futebol, crianças correndo e gente pulando carnaval, carreatas e julgamentos, manchetes de jornal e manifestações de rua. Tudo se misturava numa repentina corrente de novas e velhas imagens arrastadas numa enxurrada de verão. Era verão, disso não havia dúvida, mas ele sentia frio naquele lugar gelado e nebuloso. Ou eram os seus olhos que não focavam? Quase se agarrava para escalar a amurada e resvalava de volta? Que amurada era essa?

      Então o apresentador imaginário chamou uma reportagem sobre um réveillon que eles haviam passado em Copacabana. Quando os fogos de artifício espocaram, numa torrente de iluminações, ele enxergou a praia. Viu a onda o empurrando para a areia. Tinha ignorado o inimigo invisível, até mesmo zombado dele, continuado a viver como se fosse blindado. Por quanto vagara nesse oceano da incerteza e da falta de ar? Por onde andara? Faltava agora um pedaço na sua nova biografia. Algo, porém, escapou-lhe dos lábios quase imóveis: “Fogos...” Era uma chama que se reacendia com uma força impressionante. Queria ver pela janela. E viu mais claro. Os fogos coloriam a noite do Ano-Novo.

– Estou vivo – ele comemorou.

 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895