Correio do Povo, 124 anos
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Correio do Povo, 124 anos

História do nascimento de um jornal

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Por que um homem decide lançar um jornal? No século XXI, essa pergunta pode surpreender, mas não deixa de fascinar. Em 1895, não surpreendia tanto, mas revelava a ousadia do empreendedor e fazia pensar sobre a natureza e a duração da aventura. Ainda mais que o projeto de Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior se anunciava como diferente de tudo o que os gaúchos estavam acostumados a ver em matéria de jornalismo. O impresso era o centro de tudo. A era do rádio ainda estava distante. A invenção da televisão não era notícia nem como ficção científica. O espaço público ampliado tinha nas páginas dos jornais a sua realidade mais palpável. Assinar um artigo num jornal era projetar a voz num alto-falante e tomar lugar numa tribuna reservada aos homens de ideias. A tentação de ser dono de jornal atingia principalmente os indivíduos com aspirações políticas ou com tendência para o reformismo social ou para a pregação de qualquer ordem.

Havia fartura de jornais e de ideologias na Porto Alegre de 1895: A Federação, porta-voz do PRR, polemizava desde 1884 com quem ousasse discordar do republicanismo de Auguste Comte e de Júlio de Castilhos, não necessariamente nessa ordem, mas especialmente de trás para frente. O positivismo de Comte, administrado por Castilhos e difundido por A Federação, era uma religião laica, uma crença quase irracional nos poderes emancipadores da razão, uma verdade vespertina repetida com ênfase, persistência e grande capacidade de insulto. João Neves da Fontoura, o homem que seria o cérebro da revolução que levaria Getúlio Vargas ao poder, em 1930, o homem que sabia fazer belas frases, definiu A Federação como “uma página cotidiana de um alcorão partidário, elaborada com cuidados religiosos, liturgicamente de caso pensando” (1958, p. 26).

O Dia, desde 1º de setembro de 1894, orgulhoso do seu subtítulo de Folha Popular, fazia o mesmo pelo lado inverso: existia para discordar de Castilhos e dos seus mitos, nunca lhe faltando assunto para farpas e provocações. A Gazeta da Tarde, publicada pelo anticlerical Germano Hasslocher desde 25 de março de 1895, buscava a sua identidade na medida em que o dono viera do federalismo de Gaspar Silveira Martins para o republicanismo de Castilhos, tendo conseguido, como não era difícil, desentender-se por algum tempo com o temperamental “Gaguinho da Federação”. A República surgira para defender o ideal alcançado em 15 de novembro de 1889. O Mercantil (cujo subtítulo era Folha da Tarde), fundado em 1874 por João Câncio Gomes para ser abolicionista e monarquista, tinha apenas duas páginas e muita fé em Deus. O Jornal do Comércio, de 1863, professava um liberalismo bem temperado, tendo chegado, durante a Revolução Federalista, à impressionante tiragem de cinco mil exemplares, sendo vendido, em 1899, por Aquiles Porto Alegre, o que faria o jornal agonizar até 1911 como diário convertido ao governismo, algo que, na época, podia ser imperdoável. O Deutsches Volksblatt expressava, em alemão, direto de São Leopoldo, desde 1871, depois instalado em Porto Alegre, o catolicismo dos jesuítas. A concorrência que enfrentaria o Correio do Povo seria dura, nem sempre afável, simpática no começo, quando não previa o sucesso do recém-chegado e podia tratá-lo com a suave condescendência dos assentados que ignoram o perigo por excesso de confiança, arredia com o passar do tempo e com o crescimento das suas vendas, violenta em certos momentos, invejosa em outros, perplexa, impressionada e até desleal.

Caldas Júnior não queria ser político nem advogado, algo raro num jornalista da sua época. Ambições, porém, não lhe faltavam. Em comum com outros jornalistas ele tinha o gosto pela poesia. Publicaria, em 1913, ano da sua morte precoce, os seus Versos escolhidos. Aos 27 anos de idade, na conturbada república do visceral Júlio de Castilhos, ele estava pronto para fazer e contar história. A sua experiência no jornalismo passava pelas funções, por robustos três anos, de revisor e noticiarista (uma mistura de repórter e de redator de notícias) em A Reforma, do qual seria, depois, diretor até a interrupção da sua circulação, em 1892. O jornal dependia de Gaspar Silveira Martins, cérebro do originalmente periódico liberal monarquista, que fora chamado, pouco antes da proclamação da República, para dirigir o novo ministério, sendo preso e exilado na Europa assim que o Império desabou um tanto por sua causa. Deodoro da Fonseca o odiava e depôs D. Pedro II para não ver o inimigo como primeiro-ministro. Na volta do exílio, passou a atacar o que chamava de “ditadores comtistas”, propôs a volta da monarquia, com o retorno de D. Pedro II ou com a coroação de D. Pedro III, organizou um congresso federalista, pediu a instalação de um regime parlamentarista e fustigou Júlio de Castilhos impiedosamente. A Reforma voltaria a funcionar em 1896. Os três anos anteriores ao grande salto que Caldas Júnior daria em 1895, fundando o seu Correio do Povo, seriam de atividades no Jornal do Comércio, para onde fora levado pelo sogro, o escritor Aquiles Porto Alegre, de onde sairia em agosto para, menos de dois meses depois, virar dono de jornal sem talvez nem mesmo ter tido tempo de mandar imprimir o seu novo cartão de visitas ou de apavorar os seus concorrentes com a novidade, ainda que tenha publicado anúncios propagando a chegada do novo diário.

O jovem sergipano – radicado no Rio Grande do Sul desde 1872, por transferência profissional do pai, juiz de órfãos, para Santo Antônio da Patrulha – sabia que um jornal exige planejamento e uma equipe qualificada. Não se jogou sozinho na empreitada minuciosamente preparada. Formou um triunvirato: ele, José Paulino de Azurenha e Mário Totta. Respectivamente, sem preconceitos nem distinções de classe, desafiando conselhos e convenções sociais retrógradas, um nordestino com pendores de poeta, um negro porto-alegrense, de 34 anos, com experiência de gráfico e redator no Jornal do Comércio, e um jovem branco, também poeta, de 21 anos de idade, também de Porto Alegre, caixeiro na Livraria Americana, que sonhava em ser médico, conseguindo se formar em 1904, depois de ter obtido, quatro anos antes, o diploma de farmacêutico. Azurenha era craque em artes gráficas e especialista nos vãos e desvãos da capital. Totta tinha tudo para ser o primeiro grande repórter gaúcho da nova era: inteligência, argúcia, capacidade de observação, curiosidade e nada a perder.

Pode-se imaginar, como licença poética ou simulação de hipótese científica, Caldas Júnior sonhando com o seu jornal nos meses de agosto e setembro de 1895. À medida que o inverno se dissipava e a primavera iluminava a cidade e os campos tão próximos – Porto Alegre, com seus 63 mil habitantes, estava longe de ser uma megalópole –, ele via o seu sonho se tornar mais concreto. Não é disparatado imaginá-lo caminhando pela Rua da Praia desenhando o jornal na sua mente. Pensaria em cada coluna, em cada seção, nos artigos de fundo, na revolução que trazia pronta para executar em nome do jornalismo independente? Por que não imaginá-lo junto ao Mercado Público numa tarde melancólica? Uma imagem de 1895 mostra carroças puxadas por cavalos transitando na frente do prédio composto então de um único andar. Um coletivo, puxado por mulas, está estacionado na lateral, que um dia passaria a se chamar Borges de Medeiros, junto à qual se ergueria, tendo sido concluído em 1901, o prédio da Prefeitura Municipal. O rio está tão próximo. Um reflexo da água parece invadir furtivamente a imagem como num quadro impressionista de algum pintor recusado ou com alguma passagem rápida pela capital francesa. Enquanto Caldas Júnior passeia com o seu jornal fervilhando na cabeça, nesse passeio hipotético que deve ter acontecido, de fato, muitas vezes na sua vida, Borges de Medeiros é apenas o Chefe de Polícia de Júlio de Castilhos, o tribuno amado e odiado com a mesma convicção, o mesmo medo e o mesmo cinismo. Em breve, esse nome, Borges de Medeiros, que a partir de 1898 se confundirá com o do Rio Grande do Sul, estará na primeira edição do pioneiro Correio do Povo.

Tudo na capital se movia lentamente num movimento contraditório, mas persistente, como se o passado e o futuro disputassem o controle do presente. Tudo se movia suavemente como as folhas dos ipês nas ruas e praças de sombras generosas. Mas se movia. Só Caldas Júnior parecia ter pressa, a pressa dos poetas empreendedores que sabem como proceder para mudar certas coisas. Porto Alegre despertava. Na administração do intendente Alfredo Azevedo surgiu o primeiro projeto para a construção do Cais Mauá. O governo estadual assumiria, porém, em 1896, a tarefa de construir um porto moderno deixando para trás os primeiros esboços. Entre 1895 e 1930, Porto Alegre mudou de face e de ritmo. Mas isso são fragmentos aleatórios de um todo que seria contado desde então pelo Correio do Povo, o jornal que se tornaria, vencendo facções, ódios históricos e muito sangue derramado, o porta-voz de todo o Rio Grande do Sul. O fundador levantara 20 contos de réis para bancar o seu empreendimento. Uma parte oriunda das suas economias; a outra graças a um empréstimo concedido por dois investidores providenciais e amigos, Eugênio du Pasquier e Antônio Mostardeiro Filho. Não podia errar. Por que erraria? Tinha um planejamento.

O Correio do Povo veio à luz, numa terça-feira, com quatro páginas, como era comum, de 39 por 56 centímetros, divididas em seis colunas, impresso, em papel importado da Europa, numa modesta máquina Alauzet, com redação na Rua dos Andradas, 132, e uma tiragem de dois mil exemplares à base de 400 exemplares por hora. Antes da primeira edição, o ágil e previdente Caldas Júnior publicou anúncios na concorrência para despertar a atenção dos leitores e preparar os espíritos. Walter Galvani, no seu incontornável e completo livro sobre o Correio do Povo, sintetizou com perfeição todas as dificuldades iniciais encontradas por Caldas Júnior para implantar o seu projeto, inclusive o racismo destilado amistosamente, como uma advertência séria, contra o mulato Paulino Azurenha: “Tivera de ser ríspido com um amigo que lhe colocara a ponderação de que o Correio não ia começar bem contando ‘com um negro em suas fileiras’. Ele conhecia bem a capacidade e o caráter do amigo. Jamais contou-lhe este episódio, que, aliás, serviu para robustecer a sua convicção de que precisava de Paulino em seu empreendimento” (Galvani, 1995, p. 50). As páginas estavam lançadas.

O negro Paulino Azurenha, o “negrão Paulino” como era chamado por muitos, comandaria o jornal em certas ausências do dono. Caldas Júnior desafiava o seu tempo. Precisava ser visionário para enxergar perto e longe.

(Fragmento do meu livro Correio do Povo, a primeira semana de um jornal centenário)