Crônica: fonte Luminosa
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Crônica: fonte Luminosa

Memórias afetivas de Santana do Livramento

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      Vi uma foto da Fonte Luminosa pintada de azul e branco. Fiquei deslumbrado. Um mundo de evocações jorrou sobre mim como os jatos que eu contemplava fascinado quando era guri em Santana do Livramento, nos anos 1970. Eu ia ao Parque Internacional, que faz do Brasil e do Uruguai um jardim comum, nas noites de verão, para ver a Fonte Luminosa cobrir o ar de gotas coloridas. Era mágico. Como tudo aquilo me parecia monumental! Talvez eu nunca tenha sido tão feliz quando naqueles momentos de sonho.

      Eu me lembro de ter pego pela primeira vez na mão de uma menina, numa noite coalhada de estrelas, contemplando a Fonte Luminosa com os olhos faiscando de vergonha e excitação. Ela se perdeu nos labirintos da memória, bifurcou em algum momento do passado e sumiu como as rosas que se apagam quando fechamos os olhos para sentir melhor, mas os seus passos suaves ainda ressoam nos subterrâneos da minha vida, onde se abrigam peixinhos vermelhos, beijos tímidos e dribles de Falcão, Valdomiro, Dario e Lula. Para mim, o Parque Interacional e a Fonte Luminosa eram as marcas de uma cidade linda como um quadro de pintores que eu ainda desconhecia.

      Depois, tudo se perdeu. O tempo fechou-se sem que eu tenha entendido a razão, pois, sob certos aspectos, era o momento de retorno da luz após uma temporada de obscurantismo. A Fonte Luminosa passou anos um tanto abandonada. Vez ou outra, nas minhas idas a Livramento, caminhando para Rivera em busca de doce de leite, de blusões Burma e de minha infância de “mandalete” no armazém do Seu Ibarra, eu a via triste e esquecida como um amor de verão do qual parecia se ter medo de lembrar para não chorar. Já não era acionada. O seu jato não se elevava mais nas alturas arrancando exclamações de meninos e meninas no auge da inocência e do encantamento.

      Há tanta lembrança bonita no arco-íris artificial de uma Fonte Luminosa, tanta vida prometida que se cristaliza nos pingos de água como gotas de sereno imortalizadas por algumas horas na paisagem branca de uma grande geada pintada pela natureza para morrer com o sol, tanta coisa não dita, tanta esperança apenas esboçada, tanta ilusão jamais confessada e declarações de amor que deveriam ter sido feitas, esculpidas e vividas. Junto à Fonte Luminosa do Parque Internacional, eu disse a um colega:

– Vou embora, mas um dia voltarei para me lembrar do que eu queria.

      A imagem da Fonte Luminosa renovada, linda, rejuvenescida, grandiosa como antes, conseguiu me emocionar. Eu me afastava dela, descia pela Andradas, parava na Praça General Osório para me encantar mais um pouco com a bola de pedra onde constavam os nomes dos jogadores brasileiros vitoriosos na Copa do México. A bola também, em algum momento, perdeu os seus gomos. Bolas tinham gomos, mesmo as de pedra. Gols eram tentos. Eu ignorava tanta coisa. Nem sabia que vivíamos sob uma ditadura hedionda. A Fonte Luminosa marcou a minha infância e adolescência. Quando eu a via jorrar, punha-me na praça a sonhar. Nos sonhos em que me perdia, voava para mundos distantes. Depois, voltava para me respingar de novos sonhos.

*

Chuva de verão

 

Mas se quiser me ouvir

Basta um dia me seguir

Basta um dia me pedir

Pra segurar a tua mão.

Vou pelas encostas

Faço minhas apostas

Se tenho fé em oração,

É na forma de canção

Vou pelos subúrbios

Sei dos distúrbios

Que a tua ausência cria

Contigo aonde eu não iria?

Sou aquele que procura

Sou o mesmo que jura

Seguir o teu perfume

Como a luz no escuro

Seguir a tua chama

Como a paz no futuro

O amor vindo a lume

Pra te dar uma estrela

Eu te direi ao ouvido

Eu te direi vencido

Tudo que tenho sentido

Vagando como um poeta louco

E eu te amarei redimido

Lembrando de tudo um pouco

Do entorno e dos contornos

Das linhas do mapa do teu corpo.

Eu serei teus olhos na escuridão

Tu serás o meu porto na solidão
Eu serei teu Norte nesta maresia

Serás minha bússola nesta travessia

Nossas vozes serão chuva de verão.