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Crônica: quem nunca?

Devaneios em tempos sombrios

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      Quem nunca se viu diante de um estranho ao se olhar no espelho? Quem não sentiu perfumes da infância ao contemplar uma tarde depois da chuva? Quem já não teve vontade de sair por aí perambulando por um dia inteiro, jogando futebol em campinhos de subúrbio, parando para conversar com homens de cabelos brancos e olhos faiscantes de saudades? Quem não levou a mão ao chapéu, mesmo sem jamais ter usado chapéu, para saudar a beleza de uma moça nas ruas da cidade? Quem não se procura sem nunca se ter perdido? Quem nunca se viu na penumbra pensando em filmes que não já passam?

      Quem não se lembra subitamente de coisas tão esquecidas como as palavras ditas a um amigo numa noite de domingo quando se sonhava com o futuro e se temia perder as amarras do passado? Quem não se esquece repentinamente do que deveria sempre ser lembrado como aquela paisagem natal pendurada na fotografia que se enviesou na parede? Quem já não se levantou ao amanhecer para se embriagar com a beleza do sol nascente e tropeçou nas pernas do tempo? Quem já não se sentiu desfalecer ao crepúsculo e renascer com a suavidade de certas noites de verão? Quem já não quis traduzir a vida em versos? Quem não deseja escrever a crônica que agarrará para sempre o espírito do tempo, o ar de uma época, a vida?

      Quem não se vê preocupado com as doenças que virão e fazendo cálculos para tentar garantir a tranquilidade que, cada vez mais, se mostrará como uma utopia, um aroma de estação, uma sensação de vertigem como aquela experimentada depois do primeiro beijo, da primeira viagem, do primeiro voo, da primeira loucura? Quem já não se viu nalgum momento do dia colhendo flores para enfeitar a mesa onde se empilham os projetos, as contas, os devaneios, as leituras e as pequenas satisfações: um cestinho indígena cheio de canetas, um pedaço de chocolate, o livro lido até a metade, uma carta, do tempo das cartas, exumada de uma velha pasta, o porta-retratos com suas cores, seus sorrisos e suas marcas da travessia?

      Quem não se sente com o coração apertado quando anda pelas ruas e vê a pobreza como se ela fosse tão “natural”? Quem não se pega, de repente, sorrindo com uma nostalgia não requerida nem convidada para se apresentar na sala de visitas? Quem já não saiu para caminhar apenas para afastar a ansiedade, essa angústia sem objeto que se infiltra na alma como uma aragem sibilando entre frestas, e se viu diante de um corredor de lembranças: cheiro de terra molhada, um pedaço de brinquedo colorido, risos de crianças no parquinho, frutas amadurecendo no pé, a vida passando suavemente ao som das máquinas e dos homens, dos pássaros e dos violões?

Quem já não regou as plantas na varanda pensando nos recantos do quintal, aquele para o que nunca se usa artigo indefinido? Quem não molhou as mãos na água da pia e sentiu o frescor das sangas, dos arroios e dos rios que correm distantes? Quem já não se ouviu na hora mais terna ou mais melancólica do dia cantarolando, entre alegre e triste, solene e filosófico, “é sempre a mesma história, a luta pelo amor e pela glória?”

Quem nunca se pergunta: como foi possível termos afundado tanto?