Dante, o poeta

Dante, o poeta

Italiano Vincenzo Susca fala do maior dos poetas

Juremir Machado da Silva

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Imaginários de Dante Alighieri


Vincenzo Susca*


Há obras que refletem uma época, algumas capazes de iluminá-la, outras de antecipar sua trama. A Comédia de Dante Alighieri, que o escritor Giovanni Boccaccio chamou de "divina", foi muito além desses cenários, selando a filosofia medieval, a história e o cristianismo, cristalizando uma linguagem, a italiana, atribuindo figuras e rostos precisos a dimensões antes abstratas como pecados, sentimentos, medos e visões celestiais. Mais ainda, a obra do gênio toscano constitui um dos marcos do Ocidente, alimentado também pelo conteúdo e pela inspiração de histórias e qualidades universais. Este ano marca o 700º aniversário da sua morte, mas o "Poeta Supremo" ou, por antonomásia, o "Poeta", escritor e político, acompanhado pelo seu mestre ideal Virgílio no Inferno e no Purgatório, depois pela sua amada Beatriz e por São Bernardo no Paraíso, nunca deixou de viver entre os amantes da literatura e os que amam as coisas da vida cotidiana.

Nascido em uma família rica, por volta de 1265, em Florença, morreu entre 13 e 14 de setembro de 1321, no exílio de sua cidade natal devido a desentendimentos políticos, Dante imediatamente viu a literatura como uma missão social, ética e espiritual. Essa visão levou-o a tornar a linguagem "vulgar", aquela que falamos na vida quotidiana, que se tornará nacional com ele, um idioma nobre, bem como a enobrecer sentimentos, ícones e cenas da existência ordinária. Não é por acaso que o aniversário de sua morte é comemorado não só pelas academias de arte e literatura, mas também pela indústria cultural, como comprovam as leituras na televisão do ganhador do Prêmio Nobel Roberto Benigni, as fitas de quadrinhos da Disney, o mangá Go Nagai e videogames como o Inferno de Dante.

O autor de rimas, prosa e tratados como Vita Nova, Convivio e De Monarchia é uma figura contemporânea no seu cruzamento de gêneros, expressando uma sensibilidade polifônica e confundindo os mapas políticos usuais. Crendo e ainda em conflito com o papado, em particular com o Papa Bonifácio VIII, defensor de um império universal independente da religião, mas convencido da natureza divina do poder político, ele defende a importância de um governo independente que respeite o sagrado, renunciando a filiações políticas rígidas em nome da liberdade de pensamento, o que o torna um personagem estranho.

"Abandona toda a esperança, tu que entras" está escrito em frente à porta do inferno, mas a sua obra nos ensina, em nome da fé, do conhecimento e do amor, a fazer um percurso à sua imagem nos três hinos do Comédia em busca da luz sem evitar as trevas. Por outro lado, a Divina Comédia ensina uma nova forma de amar, já que Beatriz não é apenas uma mulher de coração, muito menos um objeto de desejo. Ela é uma pessoa real e ao mesmo tempo uma alegoria da graça, um anjo humano em quem se pode confiar, que se eleva ao divino. Esta é a chave multifacetada para resolver a tensão narrativa que está na origem da Comédia: “No meio do caminho da nossa vida/Eu me encontrei em uma madeira escura,/pois o caminho reto foi perdido". Dante cristaliza o imaginário medieval e o dirige para a modernidade, atribuindo ao indivíduo, aos seus sentimentos e à sua razão, um protagonismo como indicará definitivamente, sempre a partir de Florença, o Renascimento.

Não se trata apenas de uma luta contra as trevas em nome das centelhas divinas, mas de uma viagem iniciática onde o sujeito, acompanhado por prestigiosas figuras do céu, do passado, da terra e da imaginação, vai descobrindo aos poucos - na dor e na paixão, com o coração batendo e a razão apurada - o horizonte por vir, até que vislumbremos suas figuras mais distantes e cintilantes. Com efeito, os três hinos terminam com a palavra "estrelas" (Inferno: "E depois saímos para ver as estrelas de novo"; Purgatório: "Puro e ansioso por subir às estrelas"; Paraíso: "O amor que move o sol e as outras estrelas”).

Somos parte de uma história que não nos transcende completamente, mas que podemos influenciar por meio de conhecimentos e comportamentos que oscilam entre os métodos mais canônicos e os mais esotéricos. Não é por acaso que Alighieri será o autor mais importante na invenção do purgatório, uma dimensão até então quase ausente do cenário religioso. Este espaço abre a porta para uma existência que não é esmagada no sentido maniqueísta do bem e do mal, permitindo que outra possibilidade de vida se manifeste, em particular o surgimento de uma mundanidade, isto é, uma vida terrena, anteriormente considerada simplesmente como um pecado.

Ausente do Antigo Testamento, o purgatório dá ao homem a possibilidade de se redimir, que depende do interesse dos outros, da ação dos indivíduos na carne (orações, doações, compra de indulgências ...). Ao mesmo tempo, as punições por certos pecados são aliviadas, de modo que o transgressor da lei divina não é mais destinado ao precipício do inferno. Entre eles estão os vícios, os prazeres e os caprichos que emergem das primeiras formas de comércio: artigos de luxo, especiarias, seda, ouro, ou seja, tudo o que abrirá o caminho para o nascimento do capitalismo. Quem sabe como Dante reagiria a tal responsabilidade. Ele previu isso?

*Professor de sociologia, Universidade Paul-Valéry – Montpellier. No Brasil, publicou As Afinidades conectivas (Sulina, 2019); Aurora Digital (2021, com C. Attimonelli).


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