Depois de 40 anos
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Depois de 40 anos

Crônica de um encontro emocionante

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Encontrei colegas de segundo grau, o atual ensino médio, depois de quatro décadas. Estudamos juntos no colégio Santa Tereza de Jesus, em Santana do Livramento. Em 23 de dezembro de 1979, dia em que o Inter tornou-se tricampeão brasileiro, fizemos nossa formatura e, na maioria, nunca mais nos vimos. De 23, continuei a encontrar apenas Praxedes, meu melhor amigo, que veio para Porto Alegre estudar odontologia. A Vera Lia veio também. Fizemos cursinho juntos. Ela se apaixonou, casou e nunca mais nos vimos, embora morando em ruas que se prolongam: eu na Ramiro Barcelos, ela na Luís de Camões, onde joguei futebol, na igreja Santo Antônio e no Geraldo Santana, por 20 anos. Uma cidade, parafraseando o grande  Borges, é um labirinto de via que bifurcam e de amigos que nunca se encontram.

      Não é de duvidar que, em algum momento, tenha jogado com os filhos dela. A Sílvia não vi por 40 anos. O Rudilvan, vi uma vez, no estádio Centenário, em Caxias do Sul. A Mariuse, encontrei num ônibus, na Ipiranga, em Porto Alegre, há uns 35 anos. Eu lembro, ela não. O que tem isso? Está na moda, graças às redes sociais, promover esses encontros. É verdade. Só que quando é com a gente ganha densidade. Sou daqueles que se perguntam do nada: por que nos separamos? Por que nunca nos procuramos? O que houve? Espremo a memória e não encontro respostas. Fazíamos parte de um grupo de teatro amador. Estivemos muitos próximos. Guardamos lembranças fortes daqueles dias. Para mim, porém, era como se esse passado só existisse na minha imaginação. Faltava uma parte em mim.

      Gosto de me perguntar: quem éramos? Quem nos tornamos? No último sábado, Sílvia, Lia, Rudivan, Mariuse, Praxedes e eu, nos encontramos no bar Cantante, no Bom Fim. De repente, lá estávamos nós. Abraços apertados depois de 40 anos. Emocionante. Cada um construiu seu caminho, bifurcou, andou, amou e segue na luta, pois somos daqueles que enfrentam o leão. Rudilvan jogou futebol, era bom de bola, e esteve por dez anos no exército. Sílvia é esteticista em Pelotas. Gosta de andar pela Patagônia. Mariuse aposentou-se depois de trabalhar toda a vida profissional com surdos. Lia trabalha num abrigo para menores e sonha em voltar para Livramento. Praxedes é dentista em Novo Hamburgo e tem uma filha que estuda artes cênicas. Quando nos separamos, demos um tchau com a certeza de que nos veríamos em seguida. Demorou um pouco mais do que o previsto.

      Lembraram que eu era rebelde e não abraçava. Pierre Lévy me disse outro dia que eu tenho dificuldade para abraçar. Minha professora e depois grande amiga Zezé sempre me disse isso. Não mudei. Contaram que eu criticava as elites e fazia pregações inflamadas. Não me lembrava. Mostraram fotos. Nelas, me vejo como adolescente com a cabeça nas nuvens. Não guardei qualquer imagem. Falamos dos outros colegas. Megg mora no México. Laura, no Rio. Alguns, em Livramento. Célia e Denise, em Porto Alegre, mas não estiveram em nosso encontro. Cleia, que me encantava, em Campos Novos, Santa Catarina. Não localizamos a Marlene, a Carmem Lúcia, que está em Florianópolis, nem obtivemos resposta da Ione, que fazia teatro com a gente. Não identificamos numa foto uma bela menina de saia branca. Como é bom ter novamente um passado com quem conversar e lembrar.

Confesso que me senti tocado até a alma.

Ofereço aos meus mais novos velhos amigos meu romance Acordei negro (Figura de Linguagem/Sulina).