Diário da quarentena (7): leituras
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Diário da quarentena (7): leituras

Hibisco roxo revela um mundo impressionante

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      Nunca soube coisa alguma sobre hibiscos. Nem sequer sobre a cor deles. Em tempos de coronavírus, trancado em casa e decidido a driblar a angústia, fiz a leitura de “Hibisco roxo”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Descobri uma nova afeição. Chimamanda é uma celebridade literária internacional. O seu romance “Meio sol amarelo” faz parte das grandes obras do século XXI. Literatura depende de uma coisa muito simples e difícil de realizar: a narrativa precisa ser verdadeira. Isso significa que, sendo ficção, necessita de verossimilhança. Eu diria que, hoje, verossimilhança não basta. Exige verdade mesmo. Depois de muito tempo de combate à ideia de verdade, como expressão dogmática e positivista, leitores, em tempos de combate às fake news, querem sentir a expressão de verdades íntimas e sociais.

      “Hibisco roxo” sugere que para mudar é fundamental fazer experiências, criar o novo, mexer na pretensa “natureza” das coisas, livrar=se do tirano, construir a liberdade, sonhar e realizar o futuro. O romance entremeia, como fazem praticamente todos os livros bem-sucedidos atuais, o individual e o social, o projeto de vida e a política. No caso de “Hibisco Roxo”, com grande talento narrativo, cruzam-se o pai violento e o ditador nacional, ambos pretendendo agir pelo bem dos seus. A Nigéria surge, entre tradição e modernidade, devastada pelas suas misérias cotidianas e suas tragédias políticas.

      Os conflitos do romance dão-se entre o passado e o futuro, o poder masculino e o desejo de liberdade feminino, os jovens e os velhos, as religiões e os projetos políticos de modernização conservadora ou de administração dos privilégios tradicionais. A mulher tem um papel fundamental nessa estrutura de reinvenção. Às vezes, mesmo a mulher intelectual, professora universitária, tem de partir, migrar para os Estados Unidos, onde sabe que será cidadã de segunda categoria, acolhida e desprezada ao mesmo tempo. Uma personagem exibe seu desencanto com a solução americana: “Passei anos em Cambridge e mesmo assim era tratada como uma macaca que desenvolvera a habilidade de pensar”. Diante da observação de que não seria mais assim, diz: “Todos os dias nossos médicos vão para lá e acabam lavando os pratos dos oynbo porque pensam que a gente não sabe ensinar medicina direito”.

A tradição é estruturante. Entrega a cada pessoa um modo de vida pronto. Insere cada um numa longa cadeia com seus rituais de atualização e de reprodução. Só não dá liberdade de mudar. As flores e suas cores também podem ser transformadas. Basta que exista espaço para experimentar e inventar. “Hibisco roxo” é uma ode à tolerância, à compreensão, à diversidade. Sem didatismo ou doutrinação, põe em cena racionalidade e mito, progresso e estagnação, mudança e permanência. O mesmo que luta pela democracia nacional pode ser um ditador em casa.

A ficção continua sendo um dos melhores caminhos para se conhecer as verdades mais profundas e complexas de um lugar. Chimamanda recebeu muito não quando se lançou como escritora. O novo não é garantia de qualidade, mas quando traz mutações consistentes acaba por florescer.