Divina Elizeth
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Divina Elizeth

Ontem foi o centenário da grande cantora


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      Talvez ninguém tenha cantado como ela no Brasil. Nem mesmo Elis Regina e Gal Costa. A “divina”, como era chamada, nascida em 16 de julho de 1920, há cem anos, foi a rainha dos vibratos. Elizeth Cardoso arrastava multidões para os seus shows e fascinava os ouvintes. Carioca das proximidades do morro da Mangueira, filha de seresteiro, de família pobre, meteu de fato o pé na música, aos 16 anos de idade, numa festa com presença de uma turminha especial: Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim. Começava a carreira de uma diva que, de quebra, enfrentaria os tabus da sua época: sairia de casa para morar com o namorado, o craque Leônidas da Silva, adotaria uma criança encontrada na rua e romperia com o marido para ficar com a menina, enfrentaria os homens e comandaria a sua vida.

      Desquitada, divorciada, independente, Elizeth desistiu dos casamentos e passou a ficar com quem tivesse vontade num tempo de machismo e patriarcalismo exacerbados. A biografia da “divina” exige muito espaço. Brilhou no choro e no samba-canção Desaguou na Bossa Nova contrariando seu estilo mais enfático. Morreu em 1990. Quantos homens choraram ouvindo suas canções? Quantas jovens românticas embalaram suas desilusões de amor ao som de 78 rotações da Divina Elizeth? Ao jornal “O Globo”, o compositor Hermínio Bello de Carvalho, especialista no assunto, “que foi amigo íntimo e produtor de diversos LP’s de Elizeth”, ensinou:  Pode-se afirmar que Elizeth continua sendo a mais moderna das modernas cantoras brasileiras. Seu lugar na história está garantido, e sua dignidade será sempre lembrada. Quem não sabe a importância dela, precisa conhecer”. Elizeth é um mito.

      A primeira vez que eu ouvi Elizeth Cardoso foi na Rádio Cultura, de Santana do Livramento, num sábado à noite. Era “Canção de amor”. Adolescente, fiquei melancólico como se tudo aquilo me dissesse respeito. Comecei a sentir saudades do que ainda não tinha vivido. Quando a ouvi cantar clássicos como “Manhã de carnaval”, “Naquela mesa” e “Barracão de zinco”, fiquei mais velho de repente. Depois, esqueci. O bom da juventude é a rapidez com que se sofre e se esquece. Fui deliciosamente mais velho por algumas horas, dias ou meses ouvindo Elizeth Cardoso quando era apenas um guri sedento por emoções e amores impossíveis por ser novo demais. As gurias da minha idade preferiam os mais velhos, que imitavam John Travolta nas discotecas e miniboates.


      “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Como eu achava bonito dizer isso pensando em Elizeth Cardoso. Um velho advogado, doutor Orlando, que frequentava o armazém do Seu Ibarra, onde eu trabalhava anotando encomendas, cantava baixinho Elizeth tomando lentamente sua cachaça com bitter. Ficava feliz sendo triste por algumas horas. No facebook, teve live da divina Glau Barros, a melhor cantora gaúcha de música popular brasileira da atualidade, interpretando Elizeth Cardoso.  Ouvi Elizeth e me emocionei. Ouvi Glau e vibrei. A música melhora a vida.