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Edgar Morin aos 98 anos de idade

Pensador francês tuíta, viaja e palestra

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Segunda-feira, Edgar Morin, talvez o maior pensador em atividade, festejou os seus 98 anos de idade. Eu o conheço há quase 30 anos. Na época, ele queria sequestrar Maitê Proença, que brilhava como Dona Beja, em exibição na televisão francesa. Acabou almoçando com ela. Morin fez parte da minha banca de doutorado, na Sorbonne, em 1995. Intermediei muitas vindas dele ao Brasil. Estivemos juntos na Amazônia. Traduzi quatro dos seis volumes da sua obra-prima, “O Método”. Quando ele fez 85 anos, alguém me pediu para convidá-lo a dar uma palestra por aqui. Objetei, confesso, que era arriscado em função da sua idade. Ano passado, liguei, em nome do outro interessado, para transmitir-lhe mais um convite a vir ao Brasil.

– Este ano não posso, mas em 2019 ou 2020, podemos conversar – afirmou.

      Ri. Pois não é que neste ano ele já palestrou em São Paulo e no Rio de Janeiro! Talvez possa entrar no Guinness como o mais velho palestrante. Com a força de um jovem. Quando lhe escrevi para propor um encontro em Montpellier, onde ele mora em busca de sol e de vida mediterrânea, disse:

– Espere um pouco, preciso ir a Roma encontrar o Papa.

      Foi. Dois dias antes de completar 98 anos, ele tuitou como o eterno rebelde que é: “Rotulam-me de sociólogo; de fato, trabalho com o aspecto trinitário do humano: indivíduo, sociedade, espécie. É antropologia, no sentido literal: a relação transdisciplinar de todos os conhecimentos sobre o humano, o que me levou à complexidade”. Antecipou muitos temas da neurociência. Sobreviveu ao marxismo, ao estruturalismo e ao existencialismo. Resistiu na clandestinidade ao nazismo. Abandonou cedo o Partido Comunista Francês. Recusou o stalinismo soviético. Nunca deixou de criticar comunismo e capitalismo. Jamais parou de postular um mundo melhor, não o melhor dos mundos. Segue uma dieta mediterrânea: azeite de oliva, vinho moderadamente todo os dias, frutas, legumes, queijos.

      O que ensina Edgar Morin? As virtudes da tolerância e da diversidade. Em 2000, quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa da PUCRS, ponderou: “Hoje se preparam computadores de nova geração, mais inteligentes. A inteligência dos computadores é limitada a indução, dedução, operações de lógica ou investigação. Não têm sentimentos, alma. Mas a superioridade dos humanos é a mesma que a inferioridade dos humanos. A inferioridade dos humanos é ter sentimentos, que podem ser loucos. Pode ser muito simples, como uma loucura de amor. Percebe-se que a pessoa é maravilhosa, como Dom Quixote, alucinado. Também o amor e a paixão podem ajudar a entender a inteligência humana. Os computadores não têm paixão”.

      Há quem ache muito chato quando falo de pensadores, de intelectuais, especialmente quando eles são franceses. A elevada autoestima francesa incomoda. Que estranho! De fato, a diversidade humana é incomensurável e deve ser respeitada. Mas está aí uma coisa que nunca conseguirei compreender. Para mim, a inteligência não tem nacionalidade. Edgar Morin, beirando os cem anos, é um tema prazeroso e forte. Longa vida, mestre.