Entrevista com Conceição Evaristo

Entrevista com Conceição Evaristo

Racismo na grande literatura brasileira

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Nascida e criada numa favela de Belo Horizonte, Conceição Evaristo não para de lutar contra o racismo nem de produzir literatura original contundente. Obteve o seu doutorado na Universidade Federal Fluminense aos 65 anos de idade, tornou-se uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira atual, concorreu à Academia Brasileira de Letras, não tendo sido eleita, tem livros traduzidos para outras línguas e disseca o racismo dominante na vida brasileira com frases certeiras. Nesta entrevista para o Caderno de Sábado ela mostra o seu conhecimento minucioso dos mecanismos de reprodução da discriminação e analisa complexamente paradoxos e contradições do imaginário brasileiro. Não “passa pano” nem “cancela”. Vai direto aos pontos. Com o surgimento de nova vaga na Academia Brasileira de Letras, com a morte de Alfredo Bosi, a casa de Machado de Assis tem a chance de se redimir se Conceição for candidata.

Caderno de Sábado – Chegar ao ponto alcançado como escritora, sendo uma mulher negra, é um ponto fora da curva ou a marca de uma mudança de sensibilidade do brasileiro quanto ao racismo?

Conceição Evaristo – Não vou ser tão exigente, mas também não vou me encantar tanto pelo canto da sereia. Pode ser até certo ponto um indicativo de que a sociedade brasileira está mudando, uma mudança muito reivindicada e construída pelo próprio sujeito negro, pela luta dos movimentos sociais e do movimento negro, essa luta que, ao longo dos séculos, vem nos preparando o caminho. Mas ainda é um ponto fora da curva, principalmente quando se pensa na história da literatura brasileira. Embora tenhamos grandes escritores negros, é uma história muito marcada por uma autoria branca e de homens. As mulheres escritoras entram na cena literária brasileira no modernismo. Basta pensar em escritoras como Rachel de Queiroz e Cecília Meireles. Outras mulheres estão aí bem vivas como Lygia Fagundes Telles. É, porém, uma cena ainda marcada pela autoria de mulheres brancas. As negras vão ganhar uma visibilidade muito recentemente. A minha visibilidade acaba sendo exemplar, enquanto outras escritoras negras, que também publicam não têm essa mesma visibilidade. Não é só na literatura. Em todos os espaços da sociedade brasileira nós vamos ter um ou dois negros chamando a atenção. Isso cria a ilusão de uma maior consciência. No jornalismo, dá para apontar alguns negros. A maioria é branca. Na política, há um ou outro senador negro. Um ou outro juiz negro.    

CS – Djamila Ribeiro fala que algumas instituições dizem: “Temos o nosso negro”. Um álibi para sugerir que não são racistas. É uma artimanha que acaba por revelar que a sociedade continua excludente?

Conceição – Depois de uma mesa com ela, um jornalista veio falar comigo dizendo que a Djamila era mais belicosa e eu mais tranquila. Respondi: estamos falando a mesma coisa. O que dizemos é que a sociedade brasileira elege determinados sujeitos ou eles conseguem furar o cerco e cria-se essa ilusão de que está tudo bem. A exclusão continua. Há mais um risco: a visibilidade de determinados sujeitos pode confirmar o discurso da meritocracia. Algumas pessoas me falam: que bonita a sua trajetória, uma mulher que nasceu na favela e chegou lá. Eu pergunto: lá aonde? A impressão é que o meu sucesso se deve muito ao meu esforço pessoal. Claro que sim. Não serei tão modesta a ponto de dizer que não. Será que chegar lá para uma mulher branca exige tanto sacrifício? Conheço mulheres negras cheias de sonhos e de competência que trabalham, trabalham, trabalham e ficam pelo caminho. Há mecanismos que impedem a grande maioria de conseguir chegar lá. Quando um ou outro consegue temos a falsa impressão de que está tudo resolvido, que não existe exclusão. Não chega lá quem não quer? A história não é essa. Há várias interdições pelos caminhos.

CS – Eu, branco e sem sofrer preconceito racial, consegui ser o primeiro da família a ter um doutorado no exterior. Para nós, uma conquista. Para a senhora, ter um doutorado na UFF significa o rompimento das barreiras e obstáculos encontrados pelo caminho?

Conceição – Há uma tendência de dizer que o problema no Brasil não é racial, mas social. Nós afirmamos com muita ênfase que a pobreza no Brasil tem cor. É muito mais fácil para um sujeito branco pobre ascender do que para um sujeito negro pobre. Ambos podem partir do mesmo lugar, mas é muito mais fácil para o branco vencer determinadas barreiras. Chegar ao doutorado, pensando as minhas origens, é muito significativo. Terminei meu doutorado com 65 anos. Aí já se vê uma defasagem muito grande. As nossas conquistas são muito mais difíceis. Quando fui fazer o mestrado, na PUC do Rio de Janeiro, estava com 44 anos. Hoje já temos famílias negras que conseguem garantir estudo para os filhos numa faixa normal. A própria Djamila chegou ao mestrado com trinta e poucos anos. As nossas conquistas são mais tardias. A gente acha bonito ver uma pessoa estudar, ou se alfabetizar, já idosa. É bonito e triste. Não é motivo para virar manchete no jornal: velhinho com 80 anos aprendeu a escrever o nome. Gente, é motivo de vergonha para o Estado brasileiro que só nessa idade alguém entre na escola.

CS – Torci muito pela sua entrada na Academia Brasileira de Letras, na cadeira cujo patrono é Castro Alves. A academia, dominada por homens brancos, deixou vazar o seu racismo estrutural ao não a eleger?

Conceição ­­– Sem modéstia alguma, quem perdeu não fui eu. Foi a Academia. Perdeu um momento importante de acompanhar as mudanças históricas. Ela vai amadurecer. Hoje, tem um regimento muito conservador que reflete as instituições brasileiras. Não é a Academia Brasileira de Letras que é racista. A sociedade brasileira e as suas instituições são racistas. A ABL não escapou disso. Mais ou cedo ou mais tarde, ela vai acordar para isso. A mudança de mentalidade não acontece de uma hora para outra. Para uma satisfação pessoal e para uma coletividade seria interessante que eu estivesse lá. O mais importante não é ser a primeira, mas abrir caminhos. A minha candidatura foi vitoriosa por ter levado muita gente a pensar, inclusive acadêmicos, sobre os critérios de seleção. Eles podem não mudar agora. O assunto, porém, foi colocado em pauta. Fiz uma carta de candidatura, que ainda não divulguei. Talvez um dia eu escreva sobre essa carta. A campanha venceu por ter envolvido uma coletividade. Não foi só de pessoas negras. O primeiro a pedir apoio para a minha candidatura foi um homem branco, Eduardo Suplicy. Claro que teve uma força muito grande do movimento negro. Mas foi uma campanha assumida por brasileiros, homens e mulheres, e estrangeiros que entenderam ser possível. A academia não teve a perspicácia para entender isso. 

CS – Três escritores negros estão fazendo muito sucesso no Brasil publicando por grandes editoras como a Cia das Letras e a Todavia: Jeferson Tenório, Itamar Vieira Júnior e José Falero. No Rio Grande do Sul tem outro, Luiz Mauricio Azevedo, que deve ter sucesso igual. É um pouco mais fácil para o escritor negro de sexo masculino esse acesso? Para as mulheres ainda é mais difícil chegar a essas editoras?

Conceição – Para os homens ainda é um pouco mais fácil nesse campo. O homem negro brasileiro, em determinadas situações, equipara-se ao branco na hora de exercer o machismo. Depois disso, tem uma situação não privilegiada. Basta sair com um homem negro. Se a polícia parar, o primeiro a ter de mostrar documentos será o homem negro. Entre um homem branco e um negro, o negro é sempre o suspeito. Em algumas funções, porém, o homem negro tem um pouco mais de facilidade que as mulheres negras. Conheço Tenório e Itamar. Afirmo a posição deles como escritores. Mas para os homens continua sendo um pouco mais fácil do que para as mulheres. Temos uma escritora que está fazendo muito sucesso no Rio de Janeiro, Eliana Alves Cruz. Cidinha da Silva ganhou no ano passado o prêmio da Biblioteca Nacional. Essas mulheres são menos visíveis do que os homens. O trabalho delas é muito menos veiculado embora elas estejam par a par com eles.

CS – Há muita polêmica atualmente sobre passagens racistas em obras de grandes autores da literatura brasileira. A mais conhecida envolve Monteiro Lobato. Volta e meia alguém diz que é exagero, que não se pode apagar a história, que os “cancelamentos” são autoritários. Qual a sua leitura disso? O que se deveria fazer?

Conceição – Uma das primeiras polêmicas oficiais sobre Lobato envolveu Nilma Gomes e o Ministério da Cultura. Mas não era para retirar o texto. Propunha uma leitura mais crítica como fizeram com as “Caçadas de Pedrinho” indicando que hoje não se incentiva matar os animais. Houve um diálogo para uma adaptação. Na questão racial não houve esse diálogo. Já veio essa ideia de que as pessoas negras estavam barrando o texto de Monteiro Lobato. O que a gente quer é uma leitura crítica a partir dos nossos questionamentos. Não há como negar que Monteiro Lobato teve uma importância muito grande na literatura brasileira. Ele forma toda uma geração. Eu cresci lendo Lobato. Não é só Monteiro Lobato que assusta. Na literatura brasileira grandes obras trazem estereótipos de negro e de indígenas. O índio também aparece de forma estereotipada. Grandes autores brasileiros construíram as suas obras a partir de um imaginário muito desrespeitoso e muito racista.

CS – Poderia citar alguns casos?

Conceição – Poderia. Tem um livro da literatura brasileira que eu gosto intensamente, um dos livros mais bonitos que já li, pois traz uma reflexão muito interessante sobre o que é a escrita: “São Bernardo”, do Graciliano Ramos. Gosto muito dessa obra. Nela, fica explícita o papel da escrita, essa introspecção do sujeito que escreve. A escrita pede uma introspecção muito grande. O personagem principal, Paulo Honório, passa a revisar a vida dele, inclusive a relação com a mulher, quando resolve escrever a própria vida. Esse movimento é muito bonito. Ao escrever a própria vida ele se analisa. Só que tem um personagem ali que é o estereótipo de negro impressionante, o Cassimiro, o empregado de Paulo Honório. O
Cassimiro não fala. A narrativa diz assim que o Cassimiro não fala. Quando ele está feliz a única coisa que consegue fazer é aboiar. É aquele som que o boiadeiro tira do chifre do boi para juntar a manada. Paulo Honório tem um filho que não corresponde à expectativa dele. Ele queria um menino mais forte, mais viril, mais dinâmico. O menininho é ligado à mãe, bem fraquinho, coisa e tal. A única pessoa que entende o menino é o Cassimiro. O que se vê é a infantilização do negro. O Cassimiro é tão frágil e tem uma inteligência tão rasteira quanto o garoto. Várias vezes a narrativa fala que o Cassimiro é como um cão de guarda. Essa ausência de linguagem me chama muito a atenção. Em “Vidas secas” o Fabiano fica encantado com a fala do Soldado Amarelo e a imita. Vemos esse Fabiano pelo menos como sujeito desejante de linguagem. O Cassimiro, não. Nem isso ele é. Ora, a gente pensa que o que diferencia o sujeito do animal é justamente o dom da linguagem. Quando se constrói um personagem que aboia, é um cão feroz, é o único que está par a par com a mentalidade da criança, infantiliza-se esse sujeito, tira-se a sua capacidade de linguagem. No imaginário brasileiro correu durante muito tempo que negro não aprendia língua de branco. O colonizador ao chegar na África classifica todas as línguas africanas como dialeto. Não imagina que existissem formas de linguagem com estruturas próprias. Falar da construção desse imaginário não me impede de gostar de “São Bernardo”. Há outros textos...

CS – Por exemplo...

Conceição – “Gabriela, cravo e canela”. Jorge Amado teve o mérito de ser o primeiro talvez a colocar no texto literário o negro como sujeito histórico a partir de movimentos de greves liderados por negros. Mas Gabriela, cravo e canela é simplesmente aquela mulher natureza. É uma personagem mestiça, que podemos dizer negra, uma mulher que sabe fazer comida e que se confunde com o próprio objeto, pois Gabriela é uma mulher para ser comida.

CS – Brilhante e devastadora análise. O escritor francês Dominique Fernandez diz que Guimarães Rosa não teve coragem de levar até o fim a atração homossexual de Riobaldo e Diadorim. O jornalista Marcelo Coelho disse que Monteiro Lobato era racista. Uma pesquisadora indignou-se. Afinal, Lobato era ou não racista?

Conceição – O que aponta para isso é aquela correspondência do Monteiro Lobato falando da incompetência brasileira para ter uma Ku Klux Klan. Isso não é ficção. A inteligência brasileira é burra. Quanta gente recusou as ações afirmativas! Historiadores, intelectuais e artistas que pensavam a questão brasileira, a questão negra, assinaram contra as ações afirmativas. Na hora em que se propunham medidas compensatórias em relação a essa grande lacuna que existiu após a abolição, para colocar o negro no mesmo patamar do branco, foram contra. As ações afirmativas são maneiras ainda paliativas, A inteligência foi contra por acreditar que a sociedade brasileira não é racista. Pessoas que não eram ignorantes, inclusive alguns acadêmicos que fizeram as suas carreiras estudando a situação do negro no Brasil. Temos maior presença de negros nas universidades em função das cotas.

CS – Como reagir às falas de Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, negro, que fala em mimimi, em vitismo e até que a escravidão teria sido benéfica para os escravos?

Conceição – Não tenho falado nada do Sérgio Camargo pelo seguinte: por ter um respeito muito grande pelo pai dele [Osvaldo Camargo], um dos fundadores do grupo Quilombhoje. Prefiro falar da competência do pai dele, da sua importância como velho militante e como literato, do que perder meu tempo falando de Sérgio Camargo.

CS – Escritora consagrada, intelectual, professora, ainda é pessoalmente vítima de manifestações racistas?

Conceição – Quando o Itaú Cultural me homenageou um jornal de São Paulo fez uma manchete mais ou menos assim: Conceição Evaristo no centro da economia brasileira. Foi bem ali na Avenida Paulista. Uma mulher negra, favelada e tal no maior centro financeiro da América Latina. As pessoas ficavam encantadas com a exposição, que foi muito bonita. Uma jornalista em fez essa mesma pergunta. Eu falei, foi eu sair do espaço da exposição, entrar em um shopping, ali mesmo na avenida Paulista, que o tempo todo um segurança me seguia. Em certas situações, onde não me conhecem, o que veem? Uma pessoa negra, que é sempre suspeita. Homens e mulheres negros estão sempre em situação de suspeição. O homem mais ainda. O fato de eu ser escritora e ter um doutorado não me deixa imune ao racismo brasileiro. Digo mais: há muito que tenho oportunidade de viajar para seminários, para lá e para cá, com escritores e escritoras já conhecidos. Alguns desses escritores e escritoras, estando no mesmo espaço, no mesmo hotel, nunca me viram. Passaram a me cumprimentar depois que ganhei o prêmio Jabuti. Foi preciso ganhar o prêmio para que meus confrades acreditassem que estavam diante da escritora negra. No mais, era uma mulher que estava ali com eles sem que nem soubessem por quê. Alguns passaram até fazer pose, quando havia leitores, pedindo para tirar foto comigo. Que sociedade é essa? Quando a gente fala parece mimimi.

CS – A crítica acadêmica já reconhece seu livro “Ponciá Vicêncio” como uma das grandes obras literárias dos últimos cinquenta anos?

Conceição – Vários pesquisadores trabalham há muito tempo com meus textos com o destaque merecido. Há uma gama de pesquisadores e pesquisadoras que estão além do tempo e conseguem fazer uma leitura dos meus textos e da Carolina Maria de Jesus, do Tenório, do Itamar. Há uma gama de pesquisas mais sensíveis, com outra sensibilidade para a diversidade da literatura brasileira. Há pesquisas em nível de doutorado, mestrado e TCCs a partir dessa literatura de autoria negra.


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